Na diversidade cultura  uma 'Docência Artistica'
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Na diversidade cultura uma 'Docência Artistica'


DisciplinaMetodologia e Ações Didático Pedag em Artes3 materiais45 seguidores
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como agir curricular e pedagogicamente com a cultura? Portanto, consideram a sala de aula, o pátio, o ginásio de esportes, as ruas, as praças, os shopping centers, os cinemas, o rádio, a televisão, a publicidade, a discoteca, as organizações religiosas, as escolas de samba, etc., como espaços pedagogicamente culturais, onde sempre é possível desconstruir e reconstruir as relações entre cultura, conhecimento e poder. Assim, o seu trabalho é uma intervenção na cultura, articulada à problemática política da sociedade e engajada em problemas sociais concretos. Um trabalho que emerge das necessidades dos grupos junto aos quais atuam. Um trabalho que nunca é apenas uma prática teórica, mas uma prática permanente de política cultural. Um trabalho que "faz diferença" uma diferença social.
4. Posição política: "transformação no múltiplo". A Pedagogia Cultural privilegia um projeto de reconstrução da sociedade em tudo oposto aos atuais projetos do neoliberalismo e às práticas da globalização, cujo ápice de superprodução e consumo de poucos encontra correspondência na hiperpauperizacão de muitos. Participantes dessa configuração, os pedagogos culturais acreditam que a pedagogia do final do século XX e início do XXI deve ser responsabilizada ética e politicamente pelas histórias que produziu até agora e pelas que negou. Pelas afirmações que fez das memórias sociais e pelas que emudeceu. Pelas imagens do futuro que considerou legítimas e pelas que borrou. Por todos os efeitos de verdade e poder produzidos pela longa história da educação escolarizada.
A teorização social e cultural contemporânea já nos forneceu ferramentas conceituais para ampliar a definição de pedagogia. Para ultrapassar as fronteiras disciplinares, os domínios de técnicas e metodologias, de esquemas afetivos e de desenvolvimento mental. Para alargar os parâmetros do que, até então, entendíamos por conhecimento, ensino, didática, currículo, aluno, professor. Essa teorização implodiu o status atribuído à escola pela modernidade, como a instituição privilegiada para a aprendizagem das novas gerações, descrevendo como estas vêm aprendendo, mais e melhor, "fora" da escola.
O alvo político da Pedagogia Cultural é a transformação da sociedade em uma instância menos injusta e mais coesa, fortemente multicultural e multirracial. Junto aos movimentos sociais de resistência, questiona tanto a pedagogia liberal quanto a crítica por usarem os conhecimentos tradicionais para silenciar os estudantes, seus grupos e suas culturas. Denuncia as formas como vêm sendo organizados e desenvolvidos os currículos escolares, apontando a necessidade de neles resgatar as ditas "subculturas": subordinadas, desqualificadas, sub-representadas, excluídas, negadas e tornadas abjetas.
A Pedagogia Cultural inclui na agenda educacional questões relativas à classe, por certo. Mas também, com a mesma importância, questões relativas a gênero, sexualidade, identidade nacional, colonialismo e pós-colonialismo, raça e etnia, cultura popular e seus públicos, discurso e textualidade, políticas de identidade, da estética, da diferença. Dispõe-se a fazer da pedagogia e do currículo novos territórios, nos quais seja possível discutir os processos de significação de nós mesmos e de nossas relações com os outros e com o meio ambiente. Equipa-nos para exercer uma docência que ponha em jogo inusitadas maneiras de ensinar a produção e as trocas de todos os saberes, as recepções e as disputas de todos os poderes.
Uma "docência artística"
De um jeito, para mim, sem retorno, a Pedagogia Cultural demanda que nos tornemos muito menos "escolares" e muito mais "culturais". De modo definitivo, modifica a prática de formação do intelectual da educação. Na direcão de constituí-lo menos como um "professor' e "pedagogo" e mais como um "analista", "crítico" e "artista-cultural". Intelectual analítico e crítico, engajado na reconceitualização e mudança das questões públicas e políticas. Intelectual artista, que já tem condições de pensar, dizer e fazer algo diferente com a sua docência neste mundo culturalmente diverso.
Docência que, ao modo de seu artífice, poderia ser chamada "artística". Que, ao se exercer, cria e inventa. Docência que "artista". Que, ao educar, reescreve os roteiros rotineiros de outras épocas. Desenvolve a "artistagem" de práticas pedagógicas ainda inimagináveis e, talvez, nem mesmo possíveis de serem ditas. Práticas que desfazem a compreensão, a fala, a visão e a escuta das mesmas coisas, dos mesmos sujeitos, dos mesmos conhecimentos. Desassossegam o sossego dos antigos problemas e das velhas soluções. Estimulam outros modos de ver e ser visto, dizer e ser dito, representar e ser representado. Em uma expressão: dispersam a "mesmice".
Uma artistagem, de ordem estética, ética e política. Derivada dos sobressaltos e das alegrias de trabalhar nas fronteiras entre as disciplinas e as pós-disciplinas, os sujeitos e os não-sujeitos, os sentidos e os sem-sentidos. De seres fronteiriços que, auto-recriando-se, fazem coisas que renovam e singularizam o seu trabalho cultural de Educação. Docência de um artista que promove o autodespreendimento, implicado no questionamento dos próprios limites. Que problematiza o que diz e como age, o que é, o que o fizeram ser, o que querem e insistem que ele seja. "Docência artística", portanto, com a qual estamos todos comprometidos. Que nos convoca a lutar na materialidade da cultura. Na criação de espaços, recursos e sustentação para todas as culturas diferenciadas que habitam o mundo e cada um de nós. Que busca instituir novos destinatários, novas significações, novos referentes para que "os sem" possam expressar-se e para que "os queixosos" deixem de considerar-se "vítimas". Que recupera e reformula os saberes locais, as línguas caladas, os sujeitos maltratados. Que, mais do que dialogar com as diferenças, trabalha e segue trabalhando com elas. Que não supõe nunca "partir das diferenças" para depois eliminá-las. Mas que, ao contrário, intensifica a diferença para superar as desigualdades, pois são estas que inferiorizam os diferentes.
Educar artistando. Diferenciar arriscando-se. Usufruir do prazer de criar, sem nos considerarmos nunca uma "obra de arte" acabada. Assumir o risco de educar "na diferença" para que o consenso nunca mais feche os horizontes sociais, empurre-nos para o conservadorismo ou violente a radical heterogeneidade da cultura. Trabalhar e viver assim para tornar nossa vida e a dos outros mais belas e dignas de serem vividas. Esta será nossa prática de liberdade em Educação no século que se inicia. Que tenhamos coragem, forças e vontade ética para tanto.
Artigo publicado na REVISTA PÁTIO, ano V, nº 17, maio/julho/2001