Atualização-Proc penal Esquem-4-5ed
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Atualização-Proc penal Esquem-4-5ed


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valor do acusado, ainda que lícitos. Logo, se for constatado, 
por exemplo, que o réu encaminhou os valores obtidos com a prática criminosa para determinado 
paraíso fiscal no exterior, poderá o juiz ordenar o confisco de valores equivalentes ou de 
propriedades de valor equivalente existentes no Brasil. 
Outro aspecto importante a ressaltar é que não se confundem a perda de bens como efeito da 
condenação transitada em julgado (art. 91, II, \u201cb\u201d) e a perda de bens como pena restritiva de direito 
aplicada em substituição à pena privativa da liberdade (art. 43, II, do CP). No primeiro caso, o 
confisco do patrimônio decorre de efeito automático da condenação, de natureza extrapenal. Destarte, 
morto o réu após o trânsito em julgado da condenação e antes de operar-se a perda dos bens adquiridos 
com o produto do ilícito, nada impede que sejam tais bens confiscados para fins de cumprimento da 
regra estabelecida no art. 91 do Código Penal. Já no segundo caso, a perda dos bens constitui-se 
verdadeira pena restritiva de direito. Assim, na morte do réu pós-condenação, porém antes do confisco 
dos bens, fica este prejudicado, em razão do princípio da intranscendência da pena, segundo o qual 
esta não pode passar da pessoa do condenado. Tal distinção, a propósito, encontra-se contemplada no 
próprio texto do art. 5.º, XLV, da Constituição Federal, quando reza que \u201cnenhuma pena passará da 
pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação do perdimento de bens 
ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do 
patrimônio transferido\u201d. 
Por fim, deve-se ressaltar que outras hipóteses de perda de bens ainda são contempladas na 
Constituição Federal e na legislação ordinária como efeitos da condenação. Exemplos: art. 243 da 
Constituição Federal, prevendo a expropriação, sem indenização, de glebas usadas para culturas 
ilegais de plantas psicotrópicas e o confisco de bens apreendidos em decorrência do tráfico; art. 20, § 
4.º, da Lei 7.716/1989, dispondo ser efeito da condenação transitada em julgado a destruição do 
material apreendido, mencionado no § 1.º do mesmo dispositivo; e art. 7.º, I, da Lei 9.613/1998 
(alterado pela Lei 12.683/2012), estatuindo, como efeito da condenação, a perda, em favor da União 
e dos Estados, dos bens, direitos e valores relacionados, direta ou indiretamente, à prática dos crimes 
de lavagem, inclusive aqueles utilizados para prestar fiança. 
Por sua vez, os efeitos extrapenais específicos encontram-se previstos no art. 92 do Código 
Penal. Não são automáticos e tampouco obrigatórios, dependendo, para que se operem, de 
declaração fundamentada na sentença condenatória. Atente-se que essa motivação deve ser 
direcionada à demonstração de que, além de se tratar de hipótese que autoriza a aplicação do efeito, 
este se mostra adequado ao caso concreto que gerou a condenação. Tome-se como exemplo o efeito 
do art. 92, I, \u201ca\u201d, do Código Penal, relativo à possibilidade de perda do cargo público na hipótese de 
condenação à pena privativa de liberdade igual ou superior a um ano por crime praticado com abuso 
de poder. Em tal caso, não será suficiente, para que o juiz determine a perda do cargo ocupado pelo 
réu, a presença dos critérios objetivos previstos na lei (pena privativa da liberdade superior a um 
ano + crime praticado com abuso de poder). Para a imposição da consequência extrapenal, exige-se 
que a decisão esteja fundamentada de forma concreta, nos moldes previstos no art. 93, IX, da 
Constituição Federal, em circunstâncias de caráter particular que recomendem a aplicação de tal 
medida20. São os seguintes estes efeitos: 
 
1. Perda do cargo, função pública ou mandato eletivo, no caso de condenação, por crime 
cometido com abuso de poder, à pena privativa da liberdade igual ou superior a um ano; e de 
condenação à pena de prisão superior a quatro anos pela prática de qualquer outro crime (art. 
92, I, do CP): para efeitos penais, distintamente do que ocorre no âmbito do direito administrativo, 
considera-se funcionário público quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, 
emprego ou função pública. Destarte, para a caracterização do conceito de funcionário público, é 
desnecessária a permanência ou remuneração pelo Estado, pois, além de cargo ou emprego, a lei 
penal menciona função pública, deixando claro que, na ótica penal, para que seja alguém 
 
20 \u201cOs efeitos da condenação, dispostos no art. 92 do Código Penal, não possuem incidência automática, razão pela qual, caso o 
Magistrado entenda pela aplicação do mencionado artigo, deve fundamentar devidamente a decisão\u201d (STJ, REsp. 810.931/RS, 5.ª 
Turma, Rel. Min. Gilson Dipp, DJ 06.08.2007). 
 
considerado funcionário público, basta o simples exercício de uma função pública. Neste contexto, 
exercendo o funcionário público as atribuições pertinentes a um cargo ou, simplesmente, uma função 
pública, poderá estar sujeito à perda, caso seja isto motivadamente declarado no âmbito da própria 
sentença condenatória \u2013 desde, é claro, que ocorrentes as situações mencionadas no art. 92, I, do 
Estatuto Repressivo. 
Note-se que a aplicação deste efeito não está condicionada à existência de requerimento 
expresso na denúncia ou queixa a respeito. Esta, aliás, é a posição do STF ao decidir que \u201csendo a 
perda do cargo público, conforme disposto no artigo 92 do Código Penal, consequência da 
condenação, mostra-se dispensável a veiculação, na denúncia, de pedido visando à 
implementação\u201d21. 
Diante do trânsito em julgado de sentença penal condenatória que decreta a perda do cargo ou 
função pública, a autoridade administrativa tem o dever de proceder à demissão do servidor ou à 
cassação da aposentadoria, independentemente da instauração de processo administrativo disciplinar, 
que se mostra desnecessária. Isso porque qualquer resultado a que chegar a apuração realizada no 
âmbito administrativo não terá o condão de modificar a força do decreto penal condenatório22. 
Evidentemente, o efeito extrapenal em exame não se aplica a juízes e membros do Ministério 
Público, que tem assegurada a garantia da vitaliciedade nos arts. 95, I, e 128, § 5.º, I, \u201ca\u201d, ambos da 
CF, somente podendo ser demitidos mediante ação judicial própria; e, também, aos senadores e 
deputados federais, relativamente aos quais a Constituição Federal condiciona a perda do mandato 
em face da sentença penal condenatória transitada em julgado a que haja deliberação neste sentido, 
tomada por voto secreto e por maioria absoluta da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, 
mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, 
assegurada, ainda, a ampla defesa (art. 55, VI e § 2.º, da CF). Assinale-se que essa mesma regra se 
estende aos deputados estaduais, em face do que estabelece o art. 27, § 1.º, da CF, nas não aos 
vereadores, pois estes se submetem integralmente à disciplina do art. 92, I, do CP. 
Na verdade, o art. 92, I, \u201ca\u201d, do Código Penal, vem ao encontro da regra inserta ao art. 15, III, 
da Carga Magna, permitindo que a legislação ordinária estabeleça a perda ou suspensão dos direitos 
políticos no caso de condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos. 
Observe-se que o Código Penal não esgota as hipóteses nas quais o acusado pode perder função, 
cargo ou emprego públicos, bem como o mandato eletivo em decorrência da condenação. Com 
efeito, no âmbito da legislação especial, outras hipóteses existem, quais sejam: 
\u2022 Previsão do art. 83 da Lei 8.666/1993 (Lei de Licitações), ao determinar que os servidores públicos 
condenados pela prática dos crimes que define, ainda que na forma tentada, estão sujeitos, além das 
sanções penais, à perda de cargo, emprego, função ou mandato eletivo. Não se trata, aqui, de efeito da 
sentença condenatória, mas de previsão legal de sanções administrativas a serem aplicadas, se for o 
caso, na esfera