Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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América Latina e também para a Ásia e
África22. E é especialmente significativo afirmar que o eixo anglo-
saxão já não exerce mais uma incontestável liderança desta pers-
pectiva. A observação contemporânea de um processo de
estilhaçamento do indivíduo em múltiplas posições e/ou identida-
des transforma-se tanto em tema de estudo quanto em reflexo do
próprio processo vivido atualmente por este campo: descentrado
geograficamente e múltiplo teoricamente.
A CONSTRUÇÃO DE UMA NARRATIVA
 OU UMA VERSÃO LATINO-AMERICANA
No han sido sólo los paradigmas, sino los
tercos hechos, los procesos sociales de América Latina,
los que nos están cambiando el \u2018objeto\u2019 de
estudio a los investigadores de comunicación.
Jesús Martín-Barbero
A partir do panorama histórico, esboçado anteriormente,
sobre o surgimento dos estudos culturais na Inglaterra, aponta-se
como entendimento-síntese para o termo sua ênfase à ação social.
Relacionada com essa marca, identifica-se, também, como carac-
terística fundamental dessa perspectiva, a importância dada ao
contexto, o foco localizado e historicamente específico, a atenção
às especificidades e particularidades articuladas a uma conjuntura
histórica determinada, produzindo, então, uma teoria engajada
nas diferenças culturais. Tudo isso relacionado à pertinência da
investigação de práticas e formas simbólicas que tinham sido, até
aquele momento \u2013 virada dos anos 50 para os 60, excluídas da
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esfera cultural ou que não eram vistas com suficiente legitimidade
cultural para tornarem-se objeto de estudo.
Dessa forma, os estudos culturais na América Latina, assim
como os da Austrália, Canadá e Estados Unidos, entre outros,
também têm um desenvolvimento singular. Destaco, pois, essas
peculiaridades tendo como ponto de partida a tradição britânica,
mas sem excluir outras versões de estudos culturais. Delineio,
também, o contexto em que emergem os estudos culturais latino-
americanos a fim de oferecer um mapa provisório onde se locali-
za, insere-se e tem suas raízes uma determinada proposta de análise
cultural da comunicação.23 Destacam-se, assim, tendências gerais
de tal proposta, sendo que algumas, embora não tenham relação
direta com os dois autores latino-americanos estudados neste li-
vro, Néstor García Canclini e Jesús Martín-Barbero, estendem
sua abrangência à perspectiva como um todo.
Apesar de suas singularidades, existem afinidades entre um
corpo teórico-metodológico de análise cultural que emerge nos
anos 80 neste contexto particular e um movimento que germina
na Inglaterra, no final dos anos 50, e vai se espraiando. Isso
ajuda a esclarecer posicionamentos assumidos por intelectuais
latino-americanos num conjunto de trabalhos em relação a um
debate internacional efervescente que vem ocorrendo no último
período, bem como permite mostrar sua contribuição particular
aos impasses, questionamentos e críticas ao desenvolvimento dos
estudos culturais.
Diante de uma certa resistência em definirem-se como prati-
cantes de estudos culturais, é somente nos anos 90, e de forma
ainda bastante tímida, que alguns poucos pesquisadores latino-
americanos começam a identificar-se \u2013 ou ser identificados por
investigadores estrangeiros que tomam a América Latina como
objeto de estudo \u2013 com esta perspectiva.24 Se o receio é de que
essas afinidades descaracterizem a independência e autonomia da
perspectiva latino-americana, afirma-se que, ao contrário, reve-
lam integração e sintonia com um movimento teórico maior e um
diálogo frutífero com o que ocorre além das fronteiras do territó-
rio latino-americano. Sem que isso indique vassalagem ou xeno-
fobia da América Latina a modas teóricas das metrópoles.
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As indicações de Jesús Martín-Barbero e Néstor García Can-
clini como figuras-chave na constituição da perspectiva dos estu-
dos culturais em solo latino-americano são unânimes nos relatos
encontrados (Davies, 1995; Golding e Ferguson, 1997; Fox, 1997;
O\u2019Connor, 1991; Yúdice, 1993b; Lull, 1998; López de la Roche,
1998). Outros nomes vão somando-se: Carlos Monsiváis, Jorge
González, Guillermo Gómez Orozco, Rossana Reguillo (Méxi-
co); Guillermo Sunkel, José Joaquín Bruner (Chile); Renato Or-
tiz (Brasil); Beatriz Sarlo, Aníbal Ford (Argentina); Rosa Maria
Alfaro (Peru), entre outros.
De forma ainda genérica, toma-se, como ponto de partida, a
análise de formas culturais contemporâneas num determinado es-
tágio do capitalismo, formulando respostas particulares à inser-
ção das indústrias culturais na vida cotidiana. O que a Inglaterra
experiencia, no final dos anos 50, a América Latina passa a viven-
ciar acentuadamente nos anos 70.25
Em meados da década de 80, a configuração da pesquisa
em comunicação revela nítidos sinais de mudança, que têm
origem não somente em deslocamentos internos ao próprio
campo, mas, também, num movimento mais abrangente das
ciências sociais como um todo. O debate sobre a modernida-
de, o horizonte marxista vigente na época e a questão da glo-
balização obrigaram a repensar a trama teórica vigente. \u201cOs
deslocamentos com os quais se buscará refazer conceitual e
metodologicamente o campo da comunicação virão do âmbito
dos movimentos sociais e das novas dinâmicas culturais, abrin-
do, dessa forma, a investigação para as transformações da ex-
periência social\u201d (MARTÍN-BARBERO, 1992, p. 29).
Levando em consideração esse pano de fundo, os estudos
culturais questionam a produção de hierarquias sociais e políticas
a partir de oposições entre tradição e inovação, entre a grande
arte e as culturas populares, ou, então, entre níveis de cultura \u2013
por exemplo, alta e baixa, cultura de elite e cultura de massa. A
conseqüência natural desse debate é a revisão dos cânones estéti-
cos ou mesmo de identidades regionais e nacionais que se apre-
sentam como universais ao negarem ou encobrirem determinações
de raça, gênero e classe.
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Tal tipo de análise, a exemplo da tradição britânica dos estu-
dos culturais, traz a marca da multidisciplinaridade ou o senti-
mento de que o suporte de uma única disciplina não dá conta da
complexidade do momento em foco. \u201cMais decisiva, sem dúvida,
que a tematização explícita de processos ou aspectos da comuni-
cação nas disciplinas sociais é a superação da tendência a destinar
os estudos de comunicação a uma disciplina e a consciência cres-
cente de seu estatuto transdisciplinar\u201d (MARTÍN-BARBERO, 1992, p.
29), o que pode ser ilustrado, ainda que distante da representati-
vidade de uma hegemonia teórico-metodológica, com a obra de
Jesús Martín-Barbero e Néstor García Canclini.
O primeiro inicia sua trajetória na filosofia. Passa um perío-
do trabalhando com semiótica e, posteriormente, chega às rela-
ções entre comunicação e cultura. A partir de um curso de
semiótica, ministrado na Universidad del Valle (Cali-Colômbia),
no início da década de 70, com o propósito de propiciar ferra-
mentas que permitissem aos estudantes entender os processos de
comunicação cotidiana, foi aproximando-se e formulando uma
metodologia que permitia relacionar o estudo da significação, ou
melhor, \u201ca produção do sentido com os próprios sentidos\u201d (grifo
meu). Dessa forma, passou a repensar a comunicação a partir das
práticas sociais.
Dei-me conta da necessidade que existia de uma teoria que não se
restringisse ao problema da informação. Não obstante, percebia a
importância capital que havia adquirido a informação na socieda-
de; via, também, que para a imensa maioria das pessoas a comuni-
cação não se esgotava nos meios. [\u2026] O problema não era de falta
de lógica ou coerência a uma teoria pensada em termos de emissor,
mensagem, receptor, código, fonte\u2026 O problema era que tipos de
processos comunicativos podiam ser pensados a partir daí. Onde
estava o emissor numa festa, num baile, num sacramento religio-
so?, questionava-me. Onde estavam a mensagem e o receptor? O
que existia de comunicação numa prática religiosa não tinha mais
a ver com outros modos, com outras dimensões da vida, com
outras experiências que desbordam por completo as explicações
da teoria da informação?