Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


DisciplinaComunicação e Cultura30 materiais1.118 seguidores
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a afirmação de identidades diversas e plurais
tende a constituir o mundo em termos de identidades tão particu-
lares que facilita desaguar num nível muito localizado e domésti-
co. E novamente desentrelaçado da trama social, da estruturação
geral da sociedade.
A questão da relação, em formações sociais específicas, en-
tre práticas culturais e outras práticas, isto é, a relação entre o
cultural e o econômico, o político e as instâncias ideológicas que
caracterizou um deslocamento teórico fundamental na constitui-
ção da tradição dos estudos culturais, torna-se assim problemática
no atual desenvolvimento dos estudos culturais latino-americanos.
Aliado a isso, observa-se o avanço da idéia de descrença no
papel propositivo do intelectual. Alguns intelectuais latino-ameri-
canos revelam sinais nessa direção. Porém, algumas vozes que
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crêem nessa missão ainda subsistem em convívio com um destrava-
do processo de despolitização dos estudos culturais latino-america-
nos. O que se pode perder através desse processo é aquela marca
inicial da reflexão latino-americana de pensar a mudança social.
E mais um pressuposto essencial para os estudos culturais
parece estar em xeque na reflexão de alguns analistas culturais,
na atualidade: a crença na ação social. Se os estudos culturais
caracterizaram-se por constituir uma perspectiva que enfatiza a
atividade humana, a produção ativa da cultura, ao invés de seu
consumo passivo e, hoje, tal capacidade começa a ser posta em
dúvida, as análises contemporâneas podem estar indicando, de
fato, um processo de despolitização dos estudos culturais no
contexto latino-americano. Caso essa tendência se concretize,
mais uma vez poderá ser identificada a articulação da proposta
latino-americana com o movimento mais geral dos estudos cul-
turais, pois esse debate já constitui a agenda de discussões inter-
nacionais desse campo de estudos.
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DE IDEOLOGIA PARA HEGEMONIA
IDEOLOGIA COMO DOMINAÇÃO
Embora se reconheça que o debate teórico dentro da forma-
ção da trajetória britânica dos estudos culturais não se deu de
forma linear, eliminando passo a passo determinadas concepções,
podem ser identificados diferentes enfrentamentos na sua consti-
tuição. Convém, agora, recuperar especificamente a constituição
de uma abordagem dos meios de comunicação que se dá entre
duas aproximações distintas: a culturalista e a estruturalista. Essa
construção está, sobretudo, proposta na reflexão de Stuart Hall.1
Do outro lado, observa-se, na América Latina, representada
aqui através de Néstor García Canclini e Jesús Martín-Barbero,
como a mesma discussão tomou forma. Não obstante, nesta região
o tratamento de tal problemática não assumiu tais termos \u2013 ou seja,
um confronto entre culturalismo versus estruturalismo \u2013, logo, não
desencadeou uma proposta de articulação dessas duas perspectivas.
Mesmo assim, as questões que tentam ser resolvidas através desse
cotejo teórico, situadas, principalmente, em torno da relação entre
meios de produção e ideologia, são vivamente tratadas, também,
pelos autores latino-americanos, permitindo assim a construção de
paralelismos entre as posições de Hall, Martín-Barbero e García
Canclini. Os autores citados coincidem na escolha de uma contri-
buição teórica singular na tentativa de construir uma resposta mais
complexa a tais questionamentos. O ponto de convergência, ou
uma possível superação dos problemas postos pelo confronto entre
estruturalismo e culturalismo, dá-se, sobretudo, através da incorpo-
ração do conceito de hegemonia, de Antonio Gramsci.
No centro desta discussão está o que Hall (1982, p. 88) de-
nominou de identificação da ideologia aliada ao reconhecimento
da importância da significação social e política da linguagem,
assim como do signo e do discurso. Nas palavras do autor, esta
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mudança de posicionamento equivaleria \u201ca re-descoberta da ideo-
logia\u201d, no entanto, \u201cseria mais apropriado referir-se ao retorno
do reprimido\u201d. Este posicionamento revela a construção de uma
abordagem alternativa à teoria dominante, na época, no que diz
respeito à comunicação de massa.2
O contorno mais geral em que se dá a construção da proble-
mática em torno da ideologia diz respeito às relações entre estu-
dos culturais e marxismo. Duas questões são aí primordiais:
entender a cultura em relação a estrutura social e sua contingência
histórica; assumir que a sociedade capitalista é uma sociedade
dividida desigualmente e que a cultura é um dos principais níveis
em que esta divisão é estabelecida e, também, contestada.
Avançando um pouco mais nesta relação, pode-se afirmar
que o campo dos estudos culturais sofre a influência marxista em
três vetores.
O primeiro é que os processos culturais estão intimamente conec-
tados com as relações sociais, especialmente com formações e rela-
ções de classe, com divisões sexuais, com a estruturação racial das
relações sociais e com as opressões de geração como uma forma de
dependência. O segundo é que cultura envolve poder e ajuda a
produzir assimetrias nas habilidades dos indivíduos e grupos soci-
ais para definir e perceber suas necessidades.O terceiro, que segue
os outros dois, é que cultura não é um campo nem autônomo
nem externamente determinado, mas um espaço de diferenças e
lutas sociais. (Johnson, 1996, p. 76)
A relação com o marxismo se inicia e se desenvolve através
da crítica de um certo reducionismo e economicismo dessa pers-
pectiva, resultando na contestação do modelo base-superestrutu-
ra. Os estudos culturais atribuem à cultura um papel que não é
totalmente explicado pelas determinações da esfera econômica.
Entretanto, a perspectiva marxista, nesse estágio do desen-
volvimento dos estudos culturais, contribuiu no sentido de com-
preender a cultura na sua \u201cautonomia relativa\u201d, isto é, ela não é
dependente das relações econômicas, nem reflexo, mas tem influên-
cia e sofre conseqüências das relações político-econômicas. Como
Althusser argumentava, existem várias forças determinantes \u2013
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econômica, política e cultural \u2013, competindo e em conflito entre
si, compondo uma complexa unidade \u2013 a sociedade.
Embora se afirme a influência desse ponto de vista na cons-
tituição do corpo teórico de um determinado período da verten-
te britânica dos estudos culturais, deve-se ter presente que essa
articulação mutuamente determinante entre forças distintas é pro-
blemática, ambígua e contraditória. Sobretudo porque pretender
a \u201cautonomia relativa\u201d da esfera cultural, não elimina a possibili-
dade de compreendê-la determinada \u201cem última instância\u201d pela
esfera econômica.
A questão da relação entre práticas culturais e outras práticas
em formações sociais definidas, isto é, a relação do cultural com
o econômico, o político e as instâncias ideológicas, pode ser
considerada enquanto um questionamento-chave na construção
da tradição dos estudos culturais. Reafirma-se que a contribuição
de Althusser nesse sentido é marcante. \u201cGrosso modo, a inovação
importante foi a tentativa de pensar a \u2018unidade\u2019 de uma formação
social em termos de uma articulação. Isto estabeleceu os temas da
\u2018autonomia relativa\u2019 do nível ideológico-cultural e um novo con-
ceito de totalidade social: totalidades como estruturas complexas\u201d,
reconhece Hall (1980a, p. 32, grifo meu).
Hall destaca que não se pode eliminar a distinção entre ins-
tâncias e elementos diferentes nem se aderir à tese de determina-
ção do econômico, existindo, então, uma articulação entre níveis
distintos. E que o entendimento da totalidade social, ao contrário
de ser mera expressão do vivido, funda-se em estruturas.
Inserida em tais contornos, a transição do paradigma domi-
nante ao crítico no campo da comunicação, segundo Hall, pode
ser sintetizada na idéia de reconhecimento que os media funcio-
nam dentro e através do domínio do discursivo. Por sua vez, os
media não podem ser vistos fora do campo das relações de poder.
Mais ainda, Hall resume esta mudança na afirmação: \u201cos meios
de comunicação são ideológicos\u201d. Isso implica compreender que
os media operam dentro do