Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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reprodução da ideologia dominante.
Até agora apenas a questão da codificação das mensagens
esteve, aqui, em evidência. O ponto de vista da decodificação vai
ser abordado, sobretudo, no ensaio \u201cEncoding and decoding in
television discourse\u201d onde Hall3 (1980b) abre a discussão sobre a
temática da recepção e dos consumos mediáticos.
O ponto de partida de Hall é compreender o processo de
comunicação
em termos de uma estrutura produzida e sustentada através da
articulação de momentos vinculados, porém distintos \u2013 produ-
ção, circulação, distribuição/consumo, reprodução. Isso seria pensar
o processo como uma \u2018estrutura complexa com dominante\u2019, sus-
tentada através da articulação de práticas conectadas, onde cada
qual, contudo, retém sua distinção e tem suas próprias modalida-
des específicas, suas próprias formas e condições de existência.
(HALL, 1980b, p. 128).
Esse ponto de vista apresenta-se como uma homologia ao
desenho do esquema de produção de mercadorias proposto por
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Marx. A idéia é ver o processo de comunicação como um circuito
contínuo \u2013 produção-circulação-produção. Dessa forma, Hall reve-
la uma postura crítica em relação à linearidade implícita no modelo
emissor-mensagem-receptor \u2013 concepção dominante do processo
de comunicação \u2013 assim como à sua concentração na mensagem e
à ausência de uma concepção estruturada dos diferentes momentos
deste processo enquanto uma complexa estrutura de relações.
Mais tarde, refletindo sobre o \u201cmodelo de codificação/deco-
dificação\u201d, o autor insiste em que o mesmo deve ser compreendi-
do tendo em vista o contexto teórico-metodológico vigente na
época. \u201c[\u2026] o modelo está posicionado, portanto, contra uma
noção particular de conteúdo pré-formado e de significado fixo
ou de mensagem que pode ser analisada em termos de transmis-
são do emissor para o receptor. Está posicionado contra uma cer-
ta unilinearidade daquele modelo de fluxo unidirecional: o emissor
cria a mensagem, a mensagem é ela mesma unidimensional e o
receptor a recebe\u201d (HALL, 1994, p. 253).
Em decorrência, acaba posicionando-se contra a pesquisa
que utiliza métodos empíricos tradicionais e positivistas de análi-
se de conteúdo, assim como contra o survey de audiência que
detecta os \u201cefeitos\u201d dos media. Na verdade, desafiando o modelo
dominante de comunicação o objetivo é desestabilizar a noção
transparente de comunicação implícita no paradigma dominante.
Na apresentação do modelo, Hall enfatiza que a singularidade
do processo de comunicação se dá através da forma discursiva, da
veiculação de símbolos constituídos dentro das regras da linguagem.
é na sua forma discursiva que acontecem tanto a circulação do
produto quanto sua distribuição para diferentes audiências. Uma
vez levado a cabo, o discurso deve ser, então, traduzido \u2013 transfor-
mado, de novo \u2013 em práticas sociais, se o circuito tem de ser,
igualmente, completo e efetivo. Se não há \u2018significado\u2019, não pode
existir consumo. Se o significado não está articulado na prática,
não tem efeito. O valor dessa abordagem é que, enquanto cada
um dos momentos, em articulação, é necessário para o circuito
como um todo, nenhum deles pode garantir completamente o
próximo com o qual está articulado. Já que cada um tem sua
modalidade específica e condição de existência, cada um pode
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constituir sua própria pausa ou interrupção do \u2018desenvolvimento
das formas\u2019, cuja continuidade do fluxo de uma produção efetiva
(isto é, \u2018reprodução\u2019) depende. (HALL, 1980b, p. 128)
Utilizando o discurso televisivo como exemplo, Hall exem-
plifica que é no espaço da produção que se constrói a mensagem.
Mas o momento da produção não se constitui num sistema isola-
do dos outros momentos; ele recupera agendas, tópicos, eventos,
enfim, temas da própria audiência e de outras fontes da estrutura
sócio-político-cultural.
Num sentido, o circuito inicia aqui [na produção]. É claro, que o
processo de produção não é desprovido de seu aspecto \u2018discursi-
vo\u2019; ele, também, é estruturado por significados e idéias \u2013 conhe-
cimento em uso a respeito das rotinas de produção, habilidades
técnicas definidas historicamente, ideologias profissionais, conhe-
cimento institucional, definições e suposições, conjeturas sobre a
audiência, etc armam a constituição do programa através dessa
estrutura de produção. (HALL, 1980b, p. 129)
Outra das preocupações de Hall, na apresentação do mode-
lo, é mostrar as conexões, as relações de interdependência entre
produção-circulação-recepção, pois na concepção dominante, até
então, de comunicação estas eram etapas distintas e separadas.
circulação e recepção são, realmente, \u2018momentos\u2019 do processo de
produção na televisão e são reincorporados via um número de
imprecisos e estruturados \u2018feedbacks\u2019 no mesmo processo de pro-
dução. O consumo ou recepção da mensagem de televisão é, desta
maneira, também um \u2018momento\u2019 em si mesmo, no seu mais amplo
sentido, do processo de produção, embora este último seja \u2018pre-
dominante\u2019 porque é o \u2018ponto de partida para a realização\u2019 da
mensagem. Produção e recepção da mensagem televisiva não são,
contudo, idênticos mas são relacionados: eles são momentos dife-
renciados dentro da totalidade formada pelas relações sociais do
processo comunicativo como um todo. (HALL, 1980b, p. 130)
Nesse modelo existe uma relação entre a codificação da men-
sagem, no âmbito da produção, e sua decodificação, no nível da
recepção. No entanto, esses dois momentos não constituem uma
identidade imediata, ou seja, os códigos utilizados pela codificação
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e pela decodificação podem não ser perfeitamente simétricos. \u201cAs
assim chamadas \u2018distorções\u2019 ou \u2018mal-entendidos\u2019 [sobretudo, na
concepção dominante de comunicação] decorrem precisamente
da falta de equivalência entre os dois lados na troca comunicativa.
Isso, uma vez mais, define a \u2018autonomia relativa\u2019 \u2013 mas com \u2018de-
terminação\u2019 \u2013 da entrada e saída da mensagem nos seus momen-
tos discursivos\u201d (HALL, 1980b, p. 131).
Como implicação direta disso, vê-se que o sentido da mensa-
gem não é fixo, ao contrário, é polissêmico. Hall é enfático a esse
respeito tanto no texto em que esboça o modelo quanto em entre-
vista posterior em que comenta a respeito. \u201cSe você lê o jornal,
existe uma noção presente que trabalha contra o veio de um mo-
delo superdeterminista de comunicação. Daí a noção de que o
significado não está fixo, de que não existe uma lógica determi-
nante global que pode permitir a você alguma grade [de leitura].
Essa é a noção de que o significado é mais multifacetado, é sem-
pre multirreferencial\u201d (HALL, 1994, p. 254). Esse posicionamen-
to mostra a entrada do estruturalismo e da semiótica e seu impacto
nos estudos culturais de um determinado período.
Hall considera também fundamental, para a compreensão
de sua proposta, identificar o contexto político do debate do
próprio marxismo onde o \u201cmodelo de codificação/decodifica-
ção\u201d foi formulado.
Existe um argumento a respeito do modelo base-superestrutura, a
respeito da noção de ideologia, linguagem e cultura como secundá-
rio, como não constitutivo, mas somente como constituído pelos
processos socioeconômicos. Existe [também] a introdução de uma
noção de política na cultura. As questões políticas, também, têm de
ocupar-se com a construção e reconstrução do significado, a forma
pela qual o significado é disputado e estabelecido. Esses processos
não são secundários [\u2026] mas uma autonomia relativa de eficiência,
que lhes é específica, tem de ser dada a eles. Essa questão não é, no
sentido estrito, política; não é um projeto político que pode ser
claramente extraído do texto. Ela dá suporte para que pensemos
sobre as questões políticas. (HALL, 1994, p. 254)
O modelo desenhado por Hall sinaliza \u2013 mesmo que frou-
xamente \u2013 uma futura mudança de uma posição caracterizada
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pela sobredeterminação implícita na tese da ideologia dominan-
te para um posicionamento mais complexo, associado à noção
de hegemonia de Gramsci, pois Hall reivindica estar tratando de
\u201c[...] um modelo do que chamo de \u2018articulação\u2019, um entendimen-
to dos