Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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e do antiestatismo, transformou essa doutrina
em senso comum. Mas foi o discurso do thatcherismo que conse-
guiu, com sucesso, neutralizar as contradições entre povo e Esta-
do (bloco de poder) e ganhar a adesão popular, mostrando sua
faceta populista.
Esses três trabalhos \u2013 Clarke, Hall et al. (1975), Hall et al.
(1978) e Hall (1983) \u2013 compõem uma resposta a uma situação
particular, vivida pela sociedade britânica num período histórico
determinado. São trabalhos de intervenção, desenhados para ter
um efeito na política social do momento. Apesar de serem análi-
ses conjunturais, exemplificam uma concepção teórica que articu-
la cultura e poder, cultura e hegemonia, mostrando uma densidade
tanto teórico-analítica quanto descritiva.9
Diante dessa produção, surge um certo mal-estar na incor-
poração de teses althusserianas que contradizem a história dos es-
tudos culturais, à luz da contribuição gramsciana. É manifesta a
tensão entre essas contribuições: Gramsci abrindo o corpo teórico
para refletir sobre a \u201cagência humana\u201d e Althusser impondo limita-
ções estruturais, ou seja, na ênfase no todo estruturado ou na tota-
lidade social às custas do processo, da experiência, da \u201cagência\u201d.
Nada melhor do que reproduzir as palavras do autor que
pensou sobre a mediação entre esses dois corpos teóricos \u2013 cultu-
ralismo e estruturalismo \u2013 para explicar tal enfrentamento, sobre-
tudo, no que diz respeito à compreensão da concepção de
experiência: \u201cEnquanto que, no culturalismo, experiência era a
base \u2013 o terreno \u2018do vivido\u2019 \u2013 onde consciência e condições se
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cruzam, o estruturalismo insistia que a \u2018experiência\u2019 não podia,
por definição, ser a base de nada, visto que alguém somente podia
\u2018viver\u2019 e experienciar suas próprias condições dentro e através das
categorias, classificações e estruturas da cultura. Essas categorias,
contudo, não surgiam da ou na experiência; antes, a experiência
era seu efeito\u201d (HALL, 1996b, p. 41).
Na tentativa de construir um posicionamento que dê conta
dessa oposição, Hall critica ambos os paradigmas e vai gradativa-
mente incorporando cada vez mais as formulações gramscianas.
Assim, a influência de Althusser vai ficando secundarizada, em-
bora Hall sempre reconheça sua importância, principalmente,
concentrada nos primeiros escritos daquele autor (1965/1969),
para pensar a superestrutura.
Enfim, é necessário ver, em resumo, como Hall articulou
sua noção de ideologia, afastando-se do marxismo estruturalista.
\u201cPor ideologia, refiro-me às estruturas mentais \u2013 as linguagens,
os conceitos, as categorias, imagens do pensamento e os sistemas
de representação que diferentes classes e grupos sociais desenvol-
vem com o propósito de dar sentido, definir, simbolizar e impri-
mir inteligibilidade ao modo como a sociedade funciona\u201d (HALL,
1996h, p. 26). Essa definição permite ver que interesses de dife-
rentes grupos sociais são representados e articulados em diferen-
tes ideologias.
Permanecendo, ainda, dentro da tradição marxista, essa defi-
nição, de corte gramsciano, procura dar conta de como certos
discursos políticos na luta pela hegemonia são construídos e re-
construídos, expandem-se ou se restringem, ganham ascendência
ou a perdem.
Entretanto, o desprendimento da noção althusseriana de ide-
ologia não faz com que Hall perca a referência na linguagem. Ao
contrário, ele insiste na função \u201cmultirreferencial\u201d da linguagem,
permitindo, assim, que a mesma relação social, ou fenômeno,
possa ser diferentemente representada e construída. \u201cÉ precisa-
mente porque a linguagem, o meio de pensamento e cálculo ide-
ológico, é \u2018multiacentuada\u2019 como Volosinov colocou, que o campo
do ideológico é sempre um campo de \u2018cruzamento de ênfases\u2019 e
de \u2018cruzamento de interesses sociais diferentemente orientados\u2019\u201d
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(HALL, 1996h, p. 40). A partir daqui, a incorporação do aporte
gramsciano na vertente britânica dos estudos culturais passa a
ser fundamental, acarretando uma série de conseqüências teóri-
co-metodológicas.
Todavia, antes de recuperar essa discussão sobre a contribui-
ção gramsciana para os estudos culturais, é preciso reconstituir o
debate sobre ideologia, do ponto de vista latino-americano \u2013 nos
autores em foco neste trabalho.
O território latino-americano viveu um período sob o domí-
nio de uma postura estruturalista, nos seus próprios termos. É
bastante conhecida a influência da teoria da dependência cultural
e a proposta de desmascaramento ideológico das mensagens dos
media. Esta última principalmente viabilizada através da moda
althusseriana vigente, sobretudo nos anos 70, na pesquisa em co-
municação. Aí prevaleceu de forma incontestável e sem media-
ções a tese de determinação das estruturas macrossociais.
Martín-Barbero (1995a, p. 148) avalia que os estudos de co-
municação propriamente latino-americanos fundam-se exatamente
na teoria da dependência. \u201cA teoria da dependência vai ser a gran-
de inspiradora, primeiro, da articulação dos estudos dos meios ao
estudo das estruturas econômicas e das condições de propriedade
dos meios. E, segundo, do estudo do processo ideológico, das
análises dos conteúdos ideológicos dos meios\u201d.
Enquanto fundamentada nessa base teórica, a pesquisa em
comunicação difundiu uma concepção reprodutivista de cultura.
A cultura era basicamente ideologia. Nesse caso, não existia ne-
nhuma especificidade no âmbito da comunicação. Estudar os pro-
cessos de comunicação era estudar processos de reprodução. Não
existia nenhuma especificidade conceitual nem histórica nos pro-
cessos de comunicação. De tal forma que as ciências sociais, nesse
momento a economia e a sociologia, dissolveram o que podería-
mos chamar de novo objeto. Dissolveram-no nas suas próprias
perguntas sobre a luta de classes e os aparelhos de Estado. (MAR-
TÍN-BARBERO, 1995a, p. 149)
O poder comunicacional foi concebido como um atributo de
um sistema monopólico que administrado por uma minoria de
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especialistas, podia impor valores e opiniões da burguesia às demais
classes. A eficiência desse sistema residia não somente na ampla difu-
são que os meios massivos proporcionavam às mensagens dominan-
tes, mas, também, na manipulação inconsciente dos receptores.
Não interessa, aqui, recuperar as características teórico-me-
todológicas, limitações, nem críticas dessa fase, que já conta
com uma bibliografia específica. O objetivo é ler em chave lati-
no-americana, isto é, nos trabalhos de Jesús Martín-Barbero e
Néstor García Canclini, a incorporação do debate sobre ideolo-
gia, cultura e poder. A exemplo da reflexão britânica, recém
apresentada, os posicionamentos desses autores latino-america-
nos foram sendo construídos num terreno de rejeição e confron-
to às teses do reducionismo e determinismo econômico implícitas
num certo marxismo, logo, também, a uma determinada con-
cepção marxista de ideologia.
Para iluminar as relações entre cultura, ideologia e poder,
especialmente, na \u201cescritura massiva\u201d, o trajeto percorrido por
Jesús Martín-Barbero em Comunicación masiva: Discurso e poder
(1978) é significativo a esse respeito.Um esclarecimento antes de
iniciar propriamente a exposição do assunto em questão é obriga-
tório. Convém destacar esse texto, pois ele é tributário do mo-
mento no qual foi escrito, ou seja, a década de 70 na América
Latina e a equivalente caracterização da pesquisa em comunica-
ção. Porém, ele propõe deslocamentos em relação às teorias do-
minantes no período e, de modo incipiente, já se delineiam nele
algumas sugestivas pistas que alcançarão densidade teórica e difu-
são mais plena em De los medios a las mediaciones \u2013 Comunicación,
cultura y hegemonía (1987).
Distanciando-se do modelo funcionalista, em Comunicación
masiva: Discurso e poder (1978), Martín-Barbero localiza-se na fron-
teira do campo do estruturalismo e da análise semiológica para
pensar a prática comunicativa, na América Latina, como marca da
malha global de dominação. Contudo, os questionamentos propos-
tos ancoram-se em teorias da linguagem. Por essa razão, no final
desse trabalho, o autor liga