Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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análise da \u201cescritura massiva\u201d, esse au-
tor conclui: \u201cO trabalho ideológico [\u2026] se situa na própria es-
critura, visto que é nela, e não em nenhum tipo de conteúdos,
que se configura e plasma a organização desse espaço cujas \u2018fi-
guras\u2019 podem variar ao infinito, a começar pelas figuras simpló-
rias das fotonovelas as muito mais complexas de certas novelas
policiais ou de algumas séries de televisão norte-americanas\u201d
(MARTÍN-BARBERO, 1978, p. 224).
Além de rastrear essas marcas da dominação, Martín-Barbero
propõe outra articulação: a do desejo, a do sujeito pulsional. Jus-
tifica a inclusão desse aspecto na medida em que implica a possi-
bilidade de entender a extensão do econômico, isto é, como a
economia libidinal trabalha e é trabalhada pela ordem da domina-
ção, como o dispositivo da sexualidade se inscreve no discurso,
integrando-o. A contribuição fundamental desse aporte psicanalí-
tico reside na eliminação da pretendida exterioridade do imaginá-
rio em relação ao real.10
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 Martín-Barbero vai propor, então, uma concepção de discur-
so-prática. Se pensado como prática, o discurso carrega-se de um
volume histórico. Ao mesmo tempo que implica a relação do discur-
so com a língua, o discurso-prática transborda esse limite e se cons-
titui na trama da intertextualidade. \u201c[\u2026] um discurso não é jamais
uma mônada, mas o lugar de inscrição de uma prática cuja materia-
lidade está sempre atravessada pela de outros discursos e outras prá-
ticas. Intertextualidade diz, nesse caso, não só das diferentes dimensões
que num discurso fazem visível e analisável a presença e o trabalho de
outros textos, [...] mas diz, também, da materialização no discurso
de uma sociedade e de uma história\u201d (1978, p. 137).
Resta, enfim, enfatizar a crítica desse autor à homologia do
conceito de cultura ao de ideologia, assim como a impossibilidade
de continuar pensando o sistema ideológico como uma unidade de
sentido. Ao contrário, propõe vê-lo como \u201calgo fragmentário e ins-
tável\u201d, contudo, incrustado numa estrutura, onde a especificidade
da análise ideológica reside no estudo das relações do discurso e
suas condições de produção. Entretanto, analisar o processo de
produção e consumo dos discursos implica, também, o estudo dos
sujeitos produtores. \u201cSujeitos que [\u2026] não se definem por algum
tipo de intencionalidade, mas pelo \u2018lugar\u2019 que ocupam no espaço
social e pela forma como inscrevem sua presença no discurso\u201d
(MARTÍN-BARBERO, 1978, p. 121). Aqui se manifesta essa tensão
entre o peso da estrutura e a emergência da ação dos sujeitos.
O que vem a seguir, depois dessas proposições, encontra-se
na seqüência do trabalho desse autor, que culmina com a publica-
ção de De los medios a las mediaciones (1987). Aí é, fundamental-
mente, a contribuição gramsciana que vai permitir abordar a
comunicação como dimensão constitutiva da cultura e, portanto,
de produção da sociedade.
Trato novamente das relações entre cultura, ideologia e po-
der, agora em García Canclini, para depois desenhar o mapa do
ingresso de Gramsci nos estudos culturais, embora este já tenha
sido esboçado. Através de uma série de conferências realizadas no
início dos anos 80, intituladas \u201cPode ser hoje marxista a teoria da
cultura?\u201d, \u201cReprodução social e subordinação ideológica dos sujei-
tos\u201d e \u201cComo se configuram as culturas populares: a desigualdade
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na produção e no consumo\u201d, García Canclini11 trata diretamente
de tal assunto, condensando suas observações a esse respeito. Mas
é claro que essas posições se manifestam e têm ressonância em
sua produção intelectual compreendida como um todo. Vale acen-
tuar que a intenção é discutir uma teoria da cultura na contempo-
raneidade e não, uma teoria dos meios de comunicação de massa.
Seguindo a trilha proposta por esse autor, falar de uma possí-
vel teoria marxista da cultura implica recorrer ao tratamento dado a
temática da ideologia e as questões que permaneceram em aberto a
partir desse olhar. Quatro limitações básicas, recuperadas aqui sin-
teticamente, no pensamento marxista sobre ideologia são aponta-
das por García Canclini. E são justamente nesses espaços que
contribuições de outros campos disciplinares, assim como refor-
mulações sobre a teoria marxista da ideologia, devem ser incorpo-
radas para refletir sobre a complexidade dos processos ideológicos.
Em primeiro lugar, García Canclini aponta que a grande mai-
oria dos textos marxistas refere-se à ideologia das classes dominan-
tes. Contudo, reconhece que alguns autores marxistas se detiveram
no aspecto oposto. Mas, de uma forma geral, o conhecimento da
cultura e da ideologia dos setores populares têm sido foco de aten-
ção de antropólogos não-marxistas. Ao incorporar à problemática
das culturas populares, certos desdobramentos teórico-metodológi-
cos (por exemplo, os de Bourdieu, Williams, Cirese e Lombardi
Satriani) passam a reposicionar a problemática ideológica no espa-
ço da interação entre classes e grupos sociais e como parte da dis-
puta pela hegemonia. Assim, a ideologia aparece como um efeito
da desigualdade entre classes e das suas relações conflitivas.
Além disso, os fenômenos ideológicos passam a ser entendi-
dos não somente como derivados das classes, mas, também, como
resultantes de outras diferenciações sociais (etnias, grupos profis-
sionais, frações de classe). E assim \u201c[\u2026] as ideologias ou as dife-
renças culturais entre esses grupos se constituiram não somente
na produção \u2013 como na teoria marxista clássica sobre as classes \u2013
mas, também, no consumo\u201d (GARCÍA CANCLINI, 1995a, p. 20). Ques-
tão que será tratada mais adiante.
Em segundo lugar, a metáfora marxista de ideologia como
reflexo contribuiu para que se atribuisse à representação, e não à
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estrutura econômica, a responsabilidade deformadora. Assim, as
teorias do conhecimento e da cultura que aderem a essa idéia
tendem a pensar a determinação da estrutura sobre a superesturu-
tura como causal, mecânica e unidirecional. Na realidade, rebate
García Canclini (1995a, p. 18), a determinação é estrutural, re-
versível e multi-direcional: \u201ca base material determina por múlti-
plos condutos a consciência (se podemos seguir falando essa
linguagem) e esta sobredetermina dialeticamente, também, de
forma plural, a estrutura\u201d.
Recuperando a reflexão de outro autor marxista, associado a
posturas althusserianas \u2013 Maurice Godelier \u2013 García Canclini en-
dossa o princípio de que qualquer prática é simultaneamente eco-
nômica e simbólica. Ela existe nas relações sociais que são, por
sua vez, relações de significação. \u201cO pensamento não é um mero
reflexo das forças produtivas; tem nelas, desde o começo, uma
condição material de seu aparecimento. [\u2026] Essa parte ideal, pre-
sente em todo desenvolvimento material, não é, desse modo, ape-
nas um conteúdo da consciência; existe ao mesmo tempo nas
relações sociais que são, portanto, também, relações de significa-
ção\u201d (GARCÍA CANCLINI, 1995a, p. 21).
Esse tipo de análise que identifica ideologia como \u201creflexo\u201d,
diz García Canclini, fez com que ela tenha sido estudada funda-
mentalmente como sistema de representações conceituais e reper-
tório de imagens, em detrimento de sua organização material,
sendo esta a terceira limitação desse corpo teórico. Gramsci é
quem renova a perspectiva marxista, incluindo como parte do
processo ideológico, instituições que fazem possível a produção e
circulação da ideologia, isto é, um nível de materialidade.
De outro lado, através da contribuição dos estudos semióti-
cos, a ideologia passou a ser vista, sobretudo, como um sistema
de regras semânticas, isto é, como um nível de significação pre-
sente em qualquer discurso. As reflexões de Martín-Barbero e Hall
revelam esse tipo de abordagem.
E, por último, segundo García Canclini, a ênfase no estudo
da ideologia em contraposição à ciência funcionou como obstá-
culo à formação de uma teoria marxista da cultura. Através dessa
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estratégia, a ideologia é vista como distorção e encobrimento das
relações sociais.
Alguns autores que se ocuparam das outras