Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


DisciplinaComunicação e Cultura30 materiais1.117 seguidores
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1983, p. 29).
Entretanto, García Canclini ressalta que sua definição não pro-
põe uma identificação do cultural com o ideal e do social com o
material, como também não supõe que esses níveis possam ser es-
tudados de forma separada. \u201cAo contrário, os processos ideais (de
representação ou reelaboração simbólica) remetem a estruturas
mentais, a operações de reprodução ou transformação social, a prá-
ticas e instituições que, por mais que se ocupem da cultura, impli-
cam uma certa materialidade. E não é só isso: não existe produção
de sentido que não esteja inserida em estruturas materiais\u201d(Idem).
Embora se apresente de um modo peculiar, esse tipo de vin-
culação já estava expresso nas formulações de Williams sobre a
\u201cestrutura de sentimento\u201d, ou seja, a forma pela qual sentidos e
valores são vividos na vida real. A noção de \u201cestrutura de sentimen-
to\u201d teve seu esboço num livro publicado em 1954, onde se lia:
Todos os produtos de uma comunidade são, num dado período,
[\u2026] essencialmente relacionados, embora na prática e no detalhe
isso não seja simples de se observar. No estudo de um período,
podemos ser capazes de reconstruir com mais ou menos exatidão
a vida material, a organização social geral e, numa abrangência
maior, as idéias dominantes. Não é necessário discutir aqui qual
desses aspectos, se algum, no conjunto global, é determinante
[\u2026] Mas apesar de ser possível, no estudo de um período do
passado, separar aspectos particulares da vida e tratá-los como se
fossem independentes, é óbvio que tais aspectos somente poderão
ser estudados dessa forma, jamais experienciados. (WILLIAMS apud
HALL, 1993b, p. 352)
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Reitera-se aí que somente para efeitos de análise podemos
separar diferentes aspectos da vida, pois na realidade tais níveis
não são experienciados dessa forma. Também na proposta de
Williams que foi fundamental na constituição do projeto dos
estudos culturais, a introdução do conceito de hegemonia foi
essencial para deslocar a idéia de cultura do âmbito da ideologia,
isto é, da reprodução social.
O fato de Williams, Hall, Martín-Barbero e García Canclini
coincidirem na tematização da cultura como um espaço de pro-
dução social e não só de reprodução, assim como o fato de credi-
tarem a Gramsci um papel importante no repensar desse papel no
espectro da perspectiva marxista, não podem ser associados dire-
tamente à idéia de que a construção desses posicionamentos se
deu mediante essa única via. Influências diversas atuaram nas tra-
jetórias individuais desses intelectuais na problematização das
questões mencionadas.
Por exemplo, no trabalho de García Canclini percebe-se
tanto a influência teórica de Pierre Bourdieu quanto de Anto-
nio Gramsci.
O enfoque mais fecundo é aquele que entende a cultura como um
instrumento voltado para a compreensão, reprodução e transfor-
mação do sistema social, através do qual é elaborada e construída a
hegemonia de cada classe. De acordo com essa perspectiva, tratare-
mos de ver as culturas das classes populares como resultado de
uma apropriação desigual do capital cultural, a elaboração específica
das suas condições de vida e a interação conflituosa com os setores
hegemônicos. (GARCÍA CANCLINI, 1983, p. 12, grifo meu).
A articulação entre esses dois autores parece possível na me-
dida em que García Canclini historiciza o modelo de Bourdieu,
ou seja, um desenvolvimento específico das forças produtivas e
das relações sociais construiu em nosso continente um capital
cultural heterogêneo em que confluem a herança das culturas pré-
colombinas, a cultura européia, especialmente a espanhola e por-
tuguesa e, por fim, a presença negra.
No entanto, em Culturas Híbridas (1989), o autor reconhece
que a articulação entre hegemonia e reprodução ainda não está
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resolvida na teoria social. Embora o conceito de hegemonia per-
maneça ainda manifesto nas suas formulações, García Canclini
vai assumindo um posicionamento crítico no que diz respeito à
incorporação propriamente dita de tal conceito nas análises cultu-
rais. Aliado a isso, a discussão sobre a modernidade e pós-moder-
nidade na América Latina e suas conseqüências, que se revelarão
de forma ainda mais contundente nos próximos trabalhos (1995b),
vai contribuir para redirecionar sua armação teórica.
Como se vê, os percursos individuais dos autores estudados
são diferentes. Contudo, existe uma preocupação semelhante: me-
diante influências diversas, tanto teóricas quanto contextuais, dis-
cute-se o reducionismo e economicismo do marxismo ortodoxo.
Todos rejeitam a lógica de uma determinação direta do âmbito da
economia sobre a cultura e a função desta como reprodutora da
estrutura social.
Ao tematizarem essa questão, Martín-Barbero, García Can-
clini e Hall, mesmo que em momentos históricos específicos, re-
conhecem o papel fundamental exercido pela obra de Gramsci no
repensar o espaço do simbólico. No entanto, concretizam-se la-
ços distintos: seja Gramsci com Freire, Gramsci com Bourdieu
ou ainda Gramsci com posições identificadas como estruturalis-
tas, principalmente, com uma parte da reflexão de Althusser. Se,
por um lado, isso impede de falar em plena identidade teórica
entre essas reflexões, por outro, é possível notar afinidades teóri-
cas entre elas. A exemplo do que ocorreu na formação do projeto
dos estudos culturais britânicos, nota-se novamente uma \u201cunida-
de na diferença\u201d entre os três autores aqui estudados.
Como foi mencionado anteriormente, a tradição britânica
sofre uma influência mais abrangente da contribuição gramscia-
na. Por exemplo, a utilização do conceito de formação social vai
ajudar a pensar que as sociedades são necessariamente totalidades
complexas estruturadas em diferentes níveis (econômico, político
e ideológico) e em distintas combinações; cada combinação dá
vazão a uma configuração diferente das forças sociais e, assim, a
um desenvolvimento social característico.
Nas \u2018formações sociais\u2019, está se tratando com sociedades comple-
xamente estruturadas, compostas de relações econômicas, políticas
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e ideológicas em que os diferentes níveis de articulação, de qual-
quer maneira, simplesmente não correspondem ou \u2018espelham\u2019 uns
aos outros, mas são [\u2026] \u2018determinantes\u2019 uns nos outros. É essa
complexa estruturação dos diferentes níveis de articulação, não
simplesmente a existência de mais de um modo de produção, que
constitui a diferença entre o conceito de \u2018modo de produção\u2019 e a
necessariamente mais concreta e historicamente específica noção
de \u2018formação social\u2019. (HALL, 1996c, p. 420)
O conceito de \u201cformação social\u201d propicia compreender as
relações entre estrutura e superestrutura através de um entendi-
mento mais complexo e dinâmico. O pressuposto, aqui, é que se
estabelece uma articulação entre essas forças em qualquer forma-
ção social, suspendendo-se a idéia de determinação. Logo, Gra-
msci também vai contribuir de forma substancial para esse debate.
Outra idéia fundamental para estabelecer as bases de uma
análise histórica e dinâmica das \u201crelações de força\u201d que constitu-
em o terreno da luta política e social é o parâmetro \u201crelacional\u201d,
também, proposto por Gramsci.
Aqui ele [Gramsci] introduz a noção crítica que nós estamos pro-
curando, que não é a vitória absoluta de um lado sobre outro,
nem a total incorporação de um conjunto de forças em outro.
Antes, a análise é um problema relacional \u2013 isto é, uma questão a
ser resolvida relacionalmente, usando a idéia de \u2018balanço instável\u2019
ou \u2018o processo contínuo de formação e substituição do equilíbrio
instável\u2019. A questão crítica é \u2018as relações de forças favoráveis ou
desfavoráveis a esta ou aquela tendência\u2019. Esta ênfase às \u2018relações\u2019 e ao
\u2018balanço instável\u2019 lembra-nos que forças sociais que deixam de
existir num período histórico particular não desaparecem do terre-
no do conflito, nem o conflito, em tais circunstâncias, é suspenso.
(HALL, 1996c, p. 422)
Ou seja, ao aderir a uma noção de formação social que in-
trinsecamente implica o estabelecimento de \u201crelações\u201d entre ins-
tâncias diferentes \u2013 econômica, política