Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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ao contexto britânico em diferentes momentos históri-
cos, iluminando diferentes temáticas, dá uma certa materialidade
ao mesmo, articulando a noção de cultura com a estrutura produti-
va. O segundo formula sua proposta investigativa do espaço da
comunicação fundamentado nessa categoria. Do ponto de vista de
García Canclini, a perspectiva aberta pelo conceito de hegemonia,
embora incorporada em sua reflexão, parece reter em si mesma
limitações, sobretudo iluminadas em uma possível contraposição
entre subalterno e hegemônico que adiante será discutida.
Contudo, a conseqüência natural da incorporação do concei-
to de hegemonia pelos estudos culturais desemboca na aborda-
gem de questões em torno da cultura popular e o reconhecimento
da atividade ou \u201cagência humana\u201d. Através dos trabalhos pionei-
ros de Williams, Hoggart e Thompson, a cultura e as práticas
populares tornam-se objeto de investigação. Especificamente em
relação ao popular, o resultado mais direto é que
a teoria da hegemonia nos permite pensar a cultura popular como
uma mistura \u2018negociada\u2019 de intenções e contra-intenções; tanto a
partir de \u2018cima\u2019 como a partir de \u2018baixo\u2019, tanto \u2018comercial\u2019 quanto
\u2018autêntica\u2019; um balanço inconstante de forças entre resistência e
incorporação. Isso pode ser analisado em diferentes configura-
ções: gênero, geração, raça, região, etc. A partir dessa perspectiva,
cultura popular é uma mistura contraditória de interesses e valores
concorrentes: nem classe média nem trabalhadora, racista ou não-
racista, sexista ou não-sexista, [\u2026] mas sempre um balanço incons-
tante [...]. A cultura comercialmente fornecida pelas indústrias
culturais é redefinida, reconfigurada e redirigida em atos estratégicos
do consumo seletivo e atos produtivos de leituras e articulação, com
freqüência, em formas não pretendidas ou mesmo não calculadas
por seus produtores. (STOREY, 1997, p. 127).
O aporte gramsciano vai permitir, então, o entendimento de
contextos históricos específicos e formações sociais em que a histó-
ria é ativamente produzida pelos indivíduos e grupos sociais, man-
tendo-se, ainda que de forma não acentuada, uma tensão entre as
estruturas e os sujeitos. Muitas vezes, a ação dos sujeitos é valoriza-
da. No entanto, reside naquele tensionamento entre estruturação e
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\u201cagência\u201d o ponto de motivação para uma constante redefinição
de posições teóricas dentro do leque aberto de preocupações dos
estudos culturais.
A reconstrução de parte da trajetória teórico-metodológica
dos estudos culturais não pode ignorar esse contínuo debate entre
posições diversas, o trabalho de transformação dessas posições, o
rearranjo e a redefinição das diferenças teóricas do próprio cam-
po em resposta a questões pertinentes a um contexto histórico
específico. Esses movimentos revelaram rupturas e incorporações
teóricas importantes que contribuíram para a construção da pers-
pectiva teórica e das principais problemáticas da tradição dos es-
tudos culturais.
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Embora os estudos culturais não possam ser reduzidos ao
estudo da cultura popular, esta temática é central no seu projeto.
Mas para falar sobre tal tema, é conveniente recuperar uma breve
afirmação de Williams (1983, p. 237): \u201ccultura popular não foi
identificada pelo povo, mas por outros\u201d. Nesse sentido, é uma cri-
ação intelectual. Se essa premissa for adotada, pode-se concordar
com Bennet (1986b) quando observa que a questão relativa a quem
é o \u201cpovo\u201d não pode ser resolvida de forma abstrata, somente pode
ser respondida politicamente. Sendo assim, a tematização da cul-
tura popular em si mesma já é uma opção de cunho político.
Parto, então, para rastrear como se configura conceitualmente
o popular dentro dos estudos culturais e suas implicações teóricas,
políticas e intelectuais. Novamente, a reconstituição do debate so-
bre o popular sustenta-se nas reflexões de Stuart Hall, Néstor Gar-
cía Canclini e Jesús Martín-Barbero, mas também contemplando
outras trajetórias e críticas.
Em linhas gerais, os estudos culturais estão, sobretudo, pre-
ocupados com as inter-relações entre domínios culturais suposta-
mente separados, interrogam-se sobre as mútuas determinações
entre culturas populares e outras formações discursivas e estão
atentos para o terreno do cotidiano da vida popular e suas mais
diversas práticas culturais.
Durante um longo período a cultura popular foi despreza-
da e relegada como objeto de estudo. Entretanto, nos últimos
tempos, avanços foram conquistados na compreensão dessa es-
fera cultural. Na Grã-Bretanha, o termo foi utilizado, em um
primeiro momento, para identificar uma coleção ou miscelâ-
nea de formas e práticas culturais, tendo em comum o fato de
estarem excluídas do cânone aceito da \u201calta cultura\u201d. O desejo
de conhecer empiricamente as formas culturais populares fez
O POPULAR COMO OPÇÃO POLÍTICA
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com que fosse fundada na Inglaterra, em 1878, a primeira So-
ciedade do Folclore.
Ao longo do percurso que foi sendo construído em torno de
tal temática, observa-se que a descoberta da cultura popular, tam-
bém, se associou às idéias de nacionalidade, modernidade, for-
mação da identidade nacional em um contexto de industrialização
e democratização. Em contraste, no debate contemporâneo, inte-
ressa destacar que os estudos dedicados às culturas populares es-
tão estreitamente articulados à política, à direção política e cultural
das sociedades.
Numa tentativa de reconstituição extremamente sintética dos
debates sobre o tema do \u201cpopular\u201d em um passado recente, no
meio britânico, pode-se dizer que, no final dos anos setenta, tais
discussões concentravam-se em duas oposições, representadas pelo
estruturalismo e culturalismo.
Na perspectiva do estruturalismo, a cultura popular foi com fre-
qüência considerada como uma \u2018máquina ideológica\u2019 a qual dita-
va o pensamento do povo de uma forma tão rígida e com a mesma
regularidade de lei como na síntese de Saussure \u2013 a qual forneceu
o paradigma original para o estruturalismo \u2013 o sistema da língua
dita os eventos da fala [...]. Contrariamente, o culturalismo foi
com freqüência acriticamente romântico em sua celebração da cul-
tura popular como expressão dos autênticos valores e interesses
das classes e grupos sociais subordinados. Essa concepção, além
disso, resultou em uma visão essencialista de cultura, ou seja, em
uma personificação de essências de classe ou gênero específico.
(BENNETT, 1986a, p. XII)
O elemento novo que deslocou essas polaridades, foi a incor-
poração das reflexões de Antonio Gramsci sobre o tema da hege-
monia. A contribuição gramsciana configurou um novo tipo de
ênfase na análise da cultura popular.
Em uma síntese da reflexão gramsciana, a cultura popular não é
vista nem como o local da deformação cultural do povo nem
como a sua auto-afirmação cultural [...]; ao contrário, ela é vista
como um campo de força de relações moldadas precisamente por
essas tendências e pressões contraditórias \u2013 uma perspectiva que
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permite uma reformulação significativa das questões teóricas e
políticas as quais estão em jogo no estudo da cultura popular.
(BENNETT, 1986a, p. XIII)
A idéia central, exposta aqui de forma sumária, é de que as
esferas da cultura e da ideologia não podem ser concebidas como
sendo divididas em duas hermeticamente separadas e inteiramen-
te opostas culturas e ideologias de classe.
O efeito é desqualificar as opções bipolares das perspectivas estru-
turalista e culturalista da cultura popular, vista tanto como a con-
dutora de uma ideologia burguesa indissolúvel ou como o local
da autêntica cultura do povo [\u2026]. Pelo contrário, a cultura popu-
lar está em parte envolvida na luta pela hegemonia \u2013 e para Grams-
ci, os papéis desempenhados pela maioria dos aspectos culturais
sedimentados da vida cotidiana estão crucialmente implicados nos
processos por onde a hegemonia é disputada, vencida, perdida,
resistida \u2013 e o campo dessa cultura está estruturado tanto pela
tentativa da classe dominante em obter a hegemonia quanto pelas
formas de oposição a esse empreendimento. Como