Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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tal, ela não está
constituída simplesmente por uma cultura de massa imposta que
coincide com a ideologia dominante, nem simplesmente por cul-
turas espontaneamente de oposição, mas, ao invés, é uma área de
negociação entre as duas dentro das quais [\u2026] \u2018estão\u2019 misturados
valores e elementos ideológicos e culturais dominantes, subordi-
nados e de oposição, em diferentes permutações. (BENNETT, 1986a,
p. XV)
Enfim, essa reorientação dos estudos no âmbito da cultura
popular acarretou duas mudanças nos mesmos. A teoria da hege-
monia permitiu a construção de um olhar, de dentro do marxis-
mo, que evita ver o popular como um bloco homogêneo de
oposição, decorrente somente de uma posição de pertencimento
fixo a uma classe. Propiciou, também, pensar na possibilidade de
existência da separação relativa de diferentes regiões de enfrenta-
mento cultural como classe, gênero e raça, assim como sobreposi-
ções entre essas categorias em diferentes circunstâncias históricas.
Em resumo, ao sugerir que as articulações políticas e ideológicas
das práticas culturais são dinâmicas \u2013 que uma prática que está
articulada a determinados valores hoje pode estar desvinculada
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deles e associada a outros valores amanhã \u2013 a teoria da hegemonia
torna o campo da cultura popular uma área de enormes possibili-
dades políticas (BENNETT, 1986a, p. XVI).
Já na América Latina, a discussão do popular toma o seguin-
te rumo. De forma resumida, pode ser dito que existem três con-
tornos onde a questão da cultura popular torna-se objeto de
discussão e reflexão: o primeiro está associado à idéia de folclore,
o segundo à cultura massiva e o terceiro associa-se ao populismo.
Cada um desses contornos identifica-se com tradições intelectuais
específicas e com diferentes propostas políticas. No entanto, ne-
nhum deles é satisfatório na contemporaneidade.
A característica do olhar do folclore é a nostalgia. É um olhar
que vê a pureza da cultura popular ameaçada pela industrializa-
ção, fundamentalmente, pelos meios de comunicação. O popular
associado à cultura \u201cmoderna\u201d ou à cultura mediática é produção
comercial e industrializada, associando-se muito mais à idéia de
popularidade. E o ponto de vista expresso pelo populismo políti-
co, característica da história latino-americana, tem finalidade prag-
mática \u2013 usa o popular para referendar e sustentar uma determinada
aliança política. Não há como não mencionar, também, que cul-
tura popular na América Latina assume com freqüência conota-
ções de expressa oposição, visão que foi predominante, sobretudo,
em um momento no qual experiências de \u201ccontra-hegemonia\u201d
foram o foco de atenção.
Na perspectiva do populismo, os valores \u201ctradicionais\u201d do povo,
assumidos e representados pelo Estado ou por um líder carismático,
legitimam uma ordem, transmitindo aos setores populares a idéia de
que participam de um sistema que os reconhece e valoriza. Na reali-
dade, simula-se que o \u201cpovo\u201d é ator e protagonista.
Comentando esses posicionamentos, Martín-Barbero (1978,
p. 224) afirma:
É esse círculo vicioso, de acordo com o qual o sucesso de público
comprova a validez popular da fórmula, que é necessário fazer
rebentar, sem cair nem no pessimismo dos que pensam que o
popular ou não existe ou foi completamente digerido, apodrecido
pelo massivo, nem no otimismo populista para o qual, após a
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conquista do poder, as massas não terão mais que resgatar sua
\u2018verdadeira\u2019 cultura, até então soterrada, e torná-la \u2018oficial\u2019.
Sem negar as diferenças entre o \u201cculto\u201d e o \u201cmassivo\u201d, é
necessário romper com a idéia de que o âmbito do massivo seja
somente lugar de reprodução ideológica. Nesse sentido, Martín-
Barbero (1978, p. 221) pondera que \u201ca escritura massiva é tão
escritura como a culta, que na primeira também se faz e desfaz a
língua, também nela trabalham a história e a pulsão, da mesma
forma que na escritura culta, desejando-se ou não, se reproduz o
sistema e o sujo comércio incuba sua demanda\u201d.
E assim, a partir dos anos 70, a idéia de popular como entida-
de subordinada e passiva passa a ser questionada teórica e empiri-
camente, através da incorporação de uma noção de poder que se
expande além das estruturas institucionais convencionais \u2013 Estado,
meios de comunicação, etc (GARCÍA CANCLINI, 1989a, p. 243).
Mas é somente na década de 80 que o interesse pela cultura
popular suscita estudos que a tomam como um dos elementos de
articulação do consenso social. Duas vertentes se destacam nesse
período: uma baseada na teoria da reprodução social e a outra
que se apóia na teoria gramsciana de hegemonia. \u201cAo situar as
ações populares no conjunto da formação social, os reprodutivis-
tas entendem a cultura subalterna como resultado da distribuição
desigual dos bens econômicos e culturais. Os gramscianos, me-
nos \u2018fatalistas\u2019, relativizam esta dependência porque reconhecem
às classes populares certa iniciativa e poder de resistência, mas
sempre dentro da interação contraditória com os grupos hegemô-
nicos\u201d (GARCÍA CANCLINI, 1989a, p. 233).
Martín-Barbero (1995a, p. 51) traduz essa mudança de rota
no entendimento do popular, através da difusão do pensamento
de Gramsci, na reformulação das questões pertinentes a serem
pesquisadas. \u201c[\u2026] eu sintetizaria o avanço numa mudança de per-
guntas. Creio que a pergunta de um animador cultural, de um
trabalhador social, de um educador, de um comunicador, não pode
ser o que é que na vida das pessoas fica de autêntico, o que é que
na vida das pessoas permanece de parecido a como era antes? Mas
sim, o que é que na vida das pessoas está vivo, as motiva, as
dinamiza, as apaixona?\u201d
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Uma das implicações desse tipo de abordagem, segundo
Martín-Barbero, desemboca na incorporação da dimensão histó-
rica. Porém, ele ressalva qual o sentido que essa perspectiva histórica
adquire na sua reflexão:
sem confundir história com nostalgia que é a tentação historicista:
no passado está a razão do que somos e o passado sempre foi
melhor do que o presente. [\u2026] Agora, como transladar isto para
a complexidade da vida cultural de um país? Eu creio que a chave
continua sendo o não confundir memória com a fidelidade ao
passado. Trata-se de uma tentação muito forte, explicável porque
a crise que estamos vivendo é a crise de um modelo de sociedade;
é a ligeireza de pensar que o que fracassou veio de fora, pensar que
o que fracassou é o modelo que não tem relação conosco, que tem
somente relação com o que existe de imposição, e não com o que
existe de cumplicidade, não com o que existe de sedução. (MAR-
TÍN-BARBERO, 1995a, p. 52)
O popular como campo de abordagem é uma idéia que se
encontra tanto nas reflexões de Martín-Barbero e García Canclini
quanto nas de Stuart Hall, assim como do espectro mais geral dos
estudos culturais. Em todo esse conjunto repercute a influência
gramsciana. Essa aproximação revela a existência de uma espécie
de vasos comunicantes entre uma produção latino-americana e
outra, originalmente, britânica.
De uma forma geral, ou seja, com validade para ambos itine-
rários, a noção de popular a partir do olhar dos estudos culturais
não se refere diretamente às mercadorias produzidas pelas indús-
trias culturais, muito menos refere-se às tradições folclóricas. Ao
invés, o popular refere-se a uma visão específica da relação entre
povo e poder, a uma visão de onde e como o poder está localizado
na vida das pessoas. \u201cO popular é de fato um \u2018campo de questões\u2019 que
exige que examinemos como o poder funciona onde o povo experi-
encia sua vida\u201d (GROSSBERG apud MORRIS,1997, p. 43, grifo meu).
Esta idéia de que o popular é mais uma problemática do que
um objeto empírico delimitado que pode ser recortado da realidade
social com precisão, repete-se nas observações de García Canclini
(1987, p. 6): \u201cO popular não corresponde com precisão a um
referente empírico, a sujeitos ou situações sociais nitidamente
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identificáveis na realidade. Ele é uma construção ideológica cuja
consistência teórica está ainda por ser alcançada. É mais um cam-
po de trabalho do que um objeto de estudo cientificamente