Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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\u2013 mais adiante comentarei a esse respeito. Isso, no entanto, não
invalida resgatar o movimento de suas formulações e reformula-
ções porque o objetivo, aqui, é demarcar um momento caracterís-
tico no estudo e reconhecimento cultural de modalidades diversas
de análise da comunicação.
Na pesquisa sobre artesanato e festas populares, realizada
entre 1977 e 1980, numa zona central do México, García Canclini
(1983) aponta como eixo fundamental para compreender as ma-
nifestações da cultura popular, no interior do sistema capitalista,
o desenvolvimento de uma estratégia de investigação que abran-
gesse tanto a produção quanto a circulação e o consumo.
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De Gramsci, além da conexão cultura e hegemonia, é incor-
porada a própria noção de popular.
o popular não deve por nós ser apontado como um conjunto de
objetos (peças de artesanato ou danças indígenas), mas sim como
uma posição e uma prática. Ele não pode ser fixado num tipo
particular de produtos e mensagens, porque o sentido de ambos é
constantemente alterado pelos conflitos sociais. Nenhum objeto
tem o seu caráter popular garantido para sempre porque foi pro-
duzido pelo povo ou porque este o consome com avidez; o sen-
tido e o valor populares vão sendo conquistados nas relações sociais.
É o uso e não a origem, a posição e a capacidade de suscitar práticas
ou representações populares, que confere essa identidade. (GARCÍA
CANCLINI, 1983, p. 135)
Ao assumir tal definição, Canclini questiona o modo pelo qual
as culturas populares foram abordadas tanto pelo folclore quanto
pela comunicação, sugerindo que o popular é um espaço a partir
do qual é possível repensar a complexa estrutura dos processos cul-
turais e, simultaneamente, implodir os redutivismos disciplinares.
Dessa forma, o popular se reformula como uma posição
múltipla, representativa de correntes culturais diversas que reivin-
dicam uma inter-comunicação massiva permanente. O popular
não aparece, diz García Canclini (1987, p. 10), como o oposto ao
massivo, mas como um modo de atuar nele. E o massivo não é,
nesse caso, somente um sistema vertical de difusão e informação;
também é, como disse uma antropóloga italiana, a expressão e
amplificação dos vários poderes locais que vão se difundindo no
corpo social.
Tal noção de popular relaciona-se diretamente com os usos,
as apropriações, a recepção, enfim, com o consumo. Aí, já está
expresso o embrião para a seqüência de suas investigações, apro-
ximando-se cada vez mais do consumo como objeto de estudo.
Em Culturas híbridas (1989), García Canclini busca repen-
sar a heterogeneidade da América Latina como uma articulação
complexa de tradições e modernidades (diversas e desiguais), como
um continente formado por países onde coexistem múltiplas lógi-
cas de desenvolvimento. Sem nostalgia, propõe, então, a análise
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do hibridismo intercultural, apontando processos-chave para ex-
plicá-lo: a ruptura das coleções que organizavam os sistemas cul-
turais e a desterritorialização dos processos simbólicos.
Hoje, as coleções se desestruturam e o xerox e o videocasse-
te, entre outros, podem ser citados como dispositivos de reprodu-
ção que contribuem para esta desestruturação. Os videoclips e os
videogames podem ser apontados como exemplos dos novos recur-
sos tecnológicos que surgem fundindo e decompondo as rígidas
separações entre o culto, o popular e o massivo. E, como gêneros
impuros, pode-se incluir os grafites e as histórias em quadrinhos.
Essas referências têm curso num trânsito permanente do autor
pelo engajamento empírico e interpretação teórica.
Por outro lado, o processo de desterritorialização é concomi-
tante ao de reterritorialização na medida em que os indivíduos se
desenraízam de um território nacional que definia sua identidade,
e se enraízam no espaço local onde se dão suas práticas cotidia-
nas. Do ponto de vista teórico, a contribuição original de García
Canclini encontra-se na idéia de hibridez das culturas contempo-
râneas. Esta idéia é uma proposta conceitual feita para estudar
uma série de fenômenos e de processos contemporâneos que não
são identificados, exclusivamente, no espaço do culto/erudito,
popular ou massivo.
A hibridez trata de designar, precisamente, esse caráter misto, esses
cruzamentos interculturais nos quais, no meu modo de ver, deve
situar-se a investigação. [\u2026] A proposta de Culturas híbridas é a de
elaborar uma noção de hibridação que permita abarcar, de um
modo dinâmico, os diferentes processos em que o culto, o popu-
lar e o massivo se inter-relacionam, se misturam; o tradicional se
intercepta com o moderno; distintas culturas de países e regiões
diferentes também entram em relação. Interessa-me analisar como
esses intercâmbios dos processos culturais se produzem, para não
dar visiões fragmentadas, excessivamente analíticas. (GARCÍA CAN-
CLINI apud MONTOYA, 1992, p. 11)
As duas principais conseqüências dessa postura teórico-me-
todológica, mencionadas em outros termos por Hall (1981), são:
não se pode vincular rigidamente as classes sociais com estratos
culturais fixos, nem esses estratos culturais comportam um elenco
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de bens simbólicos e valores nitidamente definidos e fixos \u2013 por
exemplo, a elite não domina um repertório cultural, exclusiva-
mente, erudito, pois existem obras, nesse espaço, que estabele-
cem relações com outras esferas; não se pode vincular rigidamente
repertórios culturais a territórios, isto é, delimitar a definição
de identidades culturais às fronteiras nacionais de um território
geográfico.
A perda da relação natural da cultura com um território geo-
gráfico ou o processo de desterritorialização, assim como a queda
das fronteiras entre estratos culturais (erudito, popular e massivo)
e culturas diversas (locais, regionais, nacionais e global) ou o pro-
cesso de hibridação cultural é o foco central da reflexão proposta
em Culturas híbridas (1989). Mas, enfim, ainda nesse texto Gar-
cía Canclini (1989a, p. 260) reconhece que:
as investigações mais complexas dizem, perfeitamente, que o popu-
lar se dispõe em cena não com uma unidirecionalidade épica, mas
com o sentido contraditório e ambíguo de quem padece a história e,
ao mesmo tempo, luta com ela; referem-se, também, àqueles que
vão elaborando, como em toda tragicomédia, os passos interme-
diários, as astúcias dramáticas, os jogos paródicos que permitem a
quem não tem possibilidade de mudar radicalmente o curso da
obra, administrar os interstícios com parcial criatividade e benefí-
cio próprio. (grifo meu)
Em outras palavras, García Canclini critica tanto a teoria
fundamentada na reprodução social quanto aquela que se ampara
na hegemonia, embora reconheça em ambas teorias pistas suges-
tivas para compor uma análise do âmbito do popular. Contudo,
ambas contém limitações próprias à sua tecitura. A primeira, re-
servando toda iniciativa aos grupos dominantes; a segunda, desta-
cando a autonomia dos grupos populares.
Na tentativa de compor uma definição que escape das armadi-
lhas propostas pelas teorias citadas, García Canclini (1989a, p. 259)
atribui ao popular o valor ambíguo de uma noção teatral. Assim,
afirma: \u201cas interações entre hegemônicos e subalternos são cená-
rios de luta, mas também espaços onde uns e outros dramatizam
(grifo meu) as experiências da alteridade e do reconhecimento.
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A confrontação é um modo de encenar a desigualdade (enfrenta-
mento para defender o próprio) e a diferença (pensar-se através
do que desafia)\u201d.Vai enfatizar, ainda, que nas manifestações po-
pulares existe \u201cação e atuação\u201d, \u201cexpressão do próprio e reconstitui-
ção incessante do que se entende por próprio em relação às leis
mais amplas da dramaturgia social como, também, em relação à
reprodução da ordem dominante\u201d(1989a, p. 260, grifo meu).
Na trama conceitual, proposta por Martín-Barbero, o popu-
lar também assume uma importância decisiva: não se pode pensar
o popular à margem do processo histórico de constituição do
massivo, da ascensão \u201cdas massas\u201d e da sua presença no cenário
social. O popular é um lugar a partir