Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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tentando encontrar uma prática institucional nos estu-
dos culturais capaz de produzir um intelectual orgânico. Antes,
no contexto britânico dos anos 70, não sabíamos o que isso signi-
ficaria, e não tínhamos certeza se seríamos capazes de reconhecer
ele ou ela se conseguíssemos produzi-lo(a). O problema com o
conceito de intelectual orgânico é que ele parece alinhar os intelec-
tuais com um movimento histórico emergente, e não podíamos
dizer naquela época, e dificilmente podemos agora, onde tal mo-
vimento histórico devia ser encontrado. Éramos intelectuais orgâ-
nicos sem qualquer ponto de referência orgânica; intelectuais
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orgânicos com uma nostalgia ou vontade ou esperança (lançando
mão da expressão gramsciana retirada de outro contexto) de que,
em algum momento, estaríamos preparados intelectualmente para
aquele tipo de relação, caso semelhante conjuntura aparecesse. A
bem da verdade, estávamos preparados para imaginar ou modelar
ou simular essa relação em sua ausência: \u2018pessimismo da razão,
otimismo da vontade\u2019. (1996a, p. 267)
A proposta gramsciana implica em pensar o papel do intelec-
tual orgânico em duas frentes: estar à frente teoricamente e não se
omitir da responsabilidade de transmitir conhecimentos, através
da função intelectual, para aqueles que não pertencem a categoria
dos intelectuais. Essa ambição fazia parte do projeto dos estudos
culturais, embora Hall insista: \u201cNós nunca produzimos intelectu-
ais orgânicos no Centro (gostaria que tivéssemos). [\u2026] foi um
exercício metafórico. No entanto, metáforas são coisas sérias. Elas
afetam a prática das pessoas. Eu estou tentando descrever os estu-
dos culturais como um trabalho teórico que deve continuar a exis-
tir com essa tensão [contribuição teórica e prática política]\u201d (HALL,
1996a, p. 268).
Isso mostra a preocupação da vertente britânica com a rela-
ção cultura e política, simbólico e social. A questão política foi
central na sua constituição, vide sua ligação com a educação de
adultos, com a New Left, com o feminismo, enfim, com os movi-
mentos sociais pelo menos da época de sua emergência. Já do
ponto de vista latino-americano, observa-se uma estreita relação
entre cultura e atitude política que se manifesta na construção da
perspectiva dos estudos culturais, na escolha de seu objeto de es-
tudo e nas preocupações de seus praticantes.
Entretanto, desdobramentos histórico-políticos estão obrigan-
do a repensar a própria idéia de \u201cintelectual orgânico\u201d, assim
como esta vinculação entre produção de conhecimento e o âmbi-
to do social. Ilustra essa problematização o questionamento pro-
posto por McRobbie (1992, p. 720): \u201cNa era do pós- marxismo
quem estará liderando quem? Se a noção de uma classe unificada
cujo papel histórico de agência e emancipação desaparece, então,
que papel será atribuído ao intelectual orgânico? Em nome de
quem ele ou ela está agindo?\u201d
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Apesar da aparente não-efetividade da idéia de \u201cintelectual
orgânico\u201d na atual conjuntura, Hall considera que essa noção deve
ser retida como guia da prática dos estudos culturais. No contex-
to atual, não há obrigatoriedade de \u201ccopiar\u201d esse tipo de posicio-
namento, mas de repensá-lo, observando como essa articulação
entre produção do conhecimento e o social pode ser assegurada,
em diferentes contextos e em um momento histórico distinto.
Contudo, sempre houve no pensamento de Hall um cuidado
especial em observar criticamente nuances entre a ação política
do intelectual e o trabalho acadêmico:
Eu volto às distinções críticas entre o trabalho intelectual e o aca-
dêmico: eles se sobrepõem, eles se aproximam, um alimenta o
outro, um proporciona os meios para realizar o outro. Mas não
são a mesma coisa. [...] Eu volto à teoria e à política, a política da
teoria. Não a teoria como o legado da verdade, mas como uma
série de conhecimentos contestados, localizados e conjunturais,
que devem ser debatidos de forma dialógica. Mas também como
uma prática que sempre pensa sobre suas intervenções em um
mundo onde ela faria alguma diferença e possa ter algum efei-
to.[...] Eu realmente penso que há toda a diferença do mundo
entre entender a política do trabalho intelectual e substituir o
trabalho intelectual por política. (HALL, 1996a, p. 274)
Também, a reflexão de Martín-Barbero mostra sinais eviden-
tes de uma preocupação semelhante. Em Comunicación masiva \u2013
Discurso y poder (1978), declarando princípios para uma prática
investigativa, Martín-Barbero reafirma a importância da história
e assume a existência de um posicionamento político na pesquisa,
mas que não se confunda com \u201cativismo\u201d. Porém, as exigências
concretas de posições relacionadas com um projeto político não
devem inibir a prática da crítica.
não é sobre os objetos e os métodos que se opta direta e imediata-
mente, mas sobre o projeto histórico que os mediatiza e dota de
sentido e eficácia. Sem cair na armadilha contrária, a de um politi-
cismo redutor que intenta suplantar o trabalho teórico com agi-
tação política. A proposta crítica consiste em assumir que \u2018somente
é científico, elaborador de uma verdade, um método que surja
de uma situação histórico-política determinada e que verifique
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suas conclusões em uma prática social de acordo com as proposi-
ções histórico-políticas nas quais se pretende inscrevê-las\u2019. (SCH-
MUCLER apud MARTÍN-BARBERO, 1978, p. 24)
Para finalizar, vale retornar a conexão que se estabelece entre
intelectuais e o interesse pela cultura popular. Essa ênfase no po-
pular expressa uma determinada opção política e teórica que, na
crítica de McGuigan, foi denominada de \u201cpopulismo cultural\u201d.
Ele é entendido como \u201ca suposição intelectual [\u2026] que as expe-
riências e práticas simbólicas das pessoas comuns são mais impor-
tantes analítica e politicamente do que Cultura com a letra
maiúscula C\u201d (1992, p. 4, grifo meu). Segundo o mesmo autor,
esse tipo de posicionamento implica em um julgamento de valor
decorrente de \u201csentimentos populistas\u201d.
Não há como negar que o popular, entendido à luz gramsci-
ana não mais como uma essência, mas como uma matriz cultural,
transformou-se num objeto privilegiado de análise dos estudos
culturais. Do ponto de vista dos autores em tela neste trabalho,
aproximar-se desse modo ao âmbito do popular significou exata-
mente desafiar certas noções associadas a sentimentalismos, resti-
tuindo a capacidade de agência aos sujeitos que, de formas diversas
e diferenciadas, compõem o espaço do popular.
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O nosso tempo, então, é o tempo da diferença fazendo o seu
jogo, o tempo da diferença proliferante.
Antônio Flávio Pierucci
Pensar em como se constituem as identidades culturais no
contexto do final deste milênio é o eixo deste capítulo, pois esta é
a temática central dos estudos culturais de hoje. Essa perspectiva
passa a ser evidente, sobretudo, como resultado da influência de
reflexões em torno de temas como identidade e cultura nacional,
raça, etnia, gênero, modernidade/pós-modernidade, globalização,
pós-colonialismo, entre os mais importantes, dentro do espectro
do campo dos estudos culturais.
De forma mais geral, esse debate torna-se um problema teó-
rico a partir da modernidade quando a identidade passa a ser
encarada como algo sujeito a mudanças e inovações. Esse tema
está relacionado com a discussão sobre o sujeito e sua inserção no
mundo; sobre os indivíduos e suas identidades pessoais \u2013 como
nos constituímos, percebemo-nos, interpretamos e nos apresenta-
mos para nós mesmos e para os outros; sobre o deslocamento do
indivíduo do seu lugar na vida social e de si mesmo. Esses movi-
mentos e questionamentos acabam gerando tensões, instabilidade
e ameaça aos modos de vida estabelecidos, conseqüentemente, a
identidade cultural torna-se foco de questionamento.
Essas breves referências revelam a amplitude de tal proble-
mática. Devido à sua extensão, esta reflexão circunscreve-se à abor-
dagem do papel dos meios de comunicação, seja na constituição
de identidades nacionais, seja na proliferação de novas identida-
des culturais. Porém, o ponto