Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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de partida não é apenas a comuni-
cação e seus efeitos na cultura e identidade nacional, mas,
também, a própria problemática da identidade nacional e de outras
identidades culturais, e qual a importância que as práticas rela-
cionadas à comunicação têm na sua constituição.
IDENTIDADES CULTURAIS:
UMA DISCUSSÃO EM ANDAMENTO
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De uma maneira geral, o debate sobre as identidades oscila
basicamente entre duas grandes matrizes: \u201cessencialismo\u201d e \u201ccons-
trução social\u201d. A primeira posição é caracterizada por compreen-
der a existência de grupos e/ou comunidades através de uma
categoria inerente e inata aos mesmos, e a segunda posição, por
atribuir a sua presença como um produto social.
Para Larrain (1996, p. 13), esses dois posicionamentos assu-
mem a denominação de teorias racionalistas ou universalistas e,
em oposição às primeiras, estão as historicistas.
As primeiras sublinham a identidade de metas e semelhança de
meios no curso da história, as segundas acentuam as diferenças
culturais e descontinuidades históricas. As primeiras não enten-
dem as diferenças e julgam o \u2018outro\u2019 a partir de uma perspectiva
totalizante e universalista; olham a história como uma série de
etapas que todos têm que percorrer. As segundas destacam as dife-
renças e descontinuidades e olham o \u2018outro\u2019 a partir da perspectiva
da sua especificidade cultural única; não entendem a base comum
de humanidade entre culturas.
Porém, ambas as posições correm o risco de tornarem-se
preconceituosas. A universalista ao enfatizar a verdade absoluta e
continuidade histórica, descuida da especificidade do \u201coutro\u201d e
tende a julgar as outras culturas sob princípios da sua própria; e a
historicista, ao reiterar a especificidade, pode desenvolver uma
construção do \u201coutro\u201d como inferior. \u201cDuas formas de racismo
resultam desses extremos: enquanto as teorias universalistas po-
dem não aceitar o \u2018outro\u2019 porque não sabem reconhecer e aceitar
sua diferença, as teorias historicistas podem recusar o \u2018outro\u2019 por-
que este é construído como um ser tão diferente que chega a
aparecer como inferior\u201d (LARRAIN, 1996, p. 57).
Enfim, as teorias que enfatizam as especificidades históricas
desenvolvem uma concepção de identidade cultural associada à
noção de existência de uma essência que marca diferenças irre-
conciliáveis entre povos e nações. Dessa forma, concebem a iden-
tidade cultural de maneira a-histórica. Já aquelas que acentuam a
história como progresso universal tendem a reduzir as identida-
des culturais a manifestações de um processo histórico universal.
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Se as teorias racionalistas contêm o perigo do etnocentrismo
(falta de respeito ao outro), totalitarismo (falta de respeito à
diferença), universalismo (falta de respeito às especificidades lo-
cais e espaciais) e a-historicidade (falta de respeito à especificida-
des históricas e temporais), o historicismo contém o perigo do
particularismo racista (acentuação da diferença), essencialismo
(identidade cultural como um espírito imutável), relativismo (a
verdade é impossível) e irracionalismo (ataque à razão). (LAR-
RAIN, 1996, p. 85)
A problematização das identidades culturais estará evi-
denciada, aqui, através da incursão no pensamento da tríade
de autores, eixo central deste livro: Stuart Hall, Jesús Mar-
tín-Barbero e Néstor García Canclini. Embora essas trajetó-
rias intelectuais mostrem coincidências, opto por realizar
uma ramificação da temática, construindo três narrativas in-
dividualizadas.
Antes de adentrar no debate da constituição das identida-
des, é preciso fazer apenas referência ao contexto mais geral
onde essa temática assume importância. Assim, a primeira con-
dição é reconhecer a desestabilização gerada pela modernida-
de nessa discussão, assim como as implicações da problemática
da pós-modernidade e seu interesse na (re)construção das iden-
tidades.1 A segunda condição para compreender a preocupa-
ção contemporânea em torno das identidades é apontar, como
pano de fundo, a existência da globalização.2 Contudo, a defi-
nição e o endosso a um posicionamento a esse respeito fazem
parte dos caminhos que cada autor percorre, assim, esses te-
mas serão abordados, pelo menos indiretamente, em cada uma
das narrativas.
Mesmo assim, vale dizer que a vinculação entre essas duas
problemáticas, recém citadas, tem ressonâncias políticas, econô-
micas e culturais. Dentro do âmbito cultural, a configuração das
identidades sofre profundas alterações. Em um mundo que pare-
ce dominado por um repertório cultural global, novas comunida-
des e identidades estão sendo constantemente construídas e
reconstruídas. É justamente uma reflexão sobre esse processo que
se apresenta a seguir.
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IDENTIDADE COMO DIÁSPORA
A experiência da diáspora que se desconecta do sentido estri-
to da dispersão dos judeus ou de outros povos por motivos políti-
cos ou religiosos, em virtude da perseguição de grupos intolerantes,
sintetiza, segundo Stuart Hall, a nova configuração que as identi-
dades culturais assumem hoje. \u201cVisto que a migração3 resultou
ser o evento histórico-mundial da modernidade tardia, a clássica
experiência pós-moderna revela-se ser a experiência diaspórica\u201d
(1996d, p. 490).
Essa idéia passa a enfatizar tanto o deslocamento espacial
quanto o temporal. Este último sentido refere-se à permanência
de uma ligação com o passado \u2013 mesmo que possa estar associado
à imagem de um passado em ruínas. Por essa razão, Hall vai
discutir a formação de novas formas de identidade ligadas ao re-
contar o passado através da memória e à afirmação da diferença.
Outra imagem que pode simbolizar o arquétipo da condição
atual e reforça a anterior é a do \u201cforasteiro familiar\u201d. Ele expressa
uma tensão entre elementos pessoais e estruturais, residindo aí seu
poder enquanto imagem criativa, mas que não perde suas especifi-
cidades. A trajetória pessoal de Hall é ilustrativa nesse sentido.
Tendo sido preparado pela educação colonial, eu conhecia a Ingla-
terra a partir de dentro. Mas eu não sou e nunca serei \u2018inglês\u2019. Eu
conheço ambos os lugares [Jamaica e Inglaterra] intimamente, mas
eu não sou completamente de nenhum desses lugares. E isso é exa-
tamente a experiência diaspórica, distante o suficiente para experien-
ciar o sentimento do exílio e perda, próximo o suficiente para entender
o enigma de uma \u2018chegada\u2019 sempre adiada (Idem).
Partindo ou não de seu caso pessoal, a identidade é uma
busca permanente, está em constante construção, trava relações
com o presente e com o passado, tem história e, por isso mes-
mo, não pode ser fixa, determinada num ponto para sempre,
implica movimento.
Eu penso [diz Hall] que a identidade cultural não está fixa, é sempre
híbrida. Mas é precisamente porque surge de formações históricas
muito específicas, de histórias específicas, de repertórios culturais de
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enunciação, que pode constituir-se em um \u2018posicionamento\u2019 [\u2018po-
sicionality\u2019] que nós chamamos, provisoriamente, identidade. [\u2026]
Então, cada um desses relatos de identidade está inscrito nas posi-
ções que assumimos e com que nos identificamos, e temos de viver
esse conjunto de posições de identidade em toda sua especificida-
de\u201d (1996d, p. 502).
Na tentativa de apresentar o desenrolar do debate que trata
de como estão sendo transformadas e produzidas diferentes e
novas posições de sujeitos no curso e desdobramento de uma
cultura global, de uma maneira mais ou menos cronológica, acre-
dito que é importante recuperar, ainda que de forma breve, a
reflexão de Stuart Hall sobre a natureza da identidade cultural
que pertence àquele momento histórico particular, marcado por
uma posição de liderança das nações no mercado mundial. Vale
lembrar que Hall vai pensar essa problemática a partir de um
lugar determinado, a partir do Reino Unido e, particularmente,
da Inglaterra, ou seja, um lugar que exerceu forte liderança mun-
dial mas, hoje, de certa forma tem menos realce devido ao seu
declínio econômico e político.
Circunscrita a um momento determinado, a identidade cul-
tural era, então, definida como fortemente centrada,