Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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uma reflexão que promete imprimir
sua marca neste novo milênio.
Em outras palavras, ao ler e reler a produção de Martín-
Barbero identificam-se momentos de ruptura e momentos de con-
tinuidade. Assim, em 1978, o eixo da reflexão centrava-se nos
discursos, mas a importância do sujeito-receptor estava mencio-
nada, embora permanecesse como pano de fundo. Em 1987, a
experiência desse sujeito assume o papel de protagonista, preen-
chendo todo o espaço. Contudo, a questão transnacional, aborda-
da na última parte do seu livro, serve como elo para repensar as
mediações em tempos de globalização e descentramento cultural,
tema central em 1997.
Na sua produção, especialmente a da segunda metade dos
anos 90, dois lugares são decisivos para a análise cultural da co-
municação: a televisão (sobretudo a publicidade, os videoclipes e
a dramaturgia) e a cidade e suas implicações na construção das
identidades, deslocando interesses anteriores, centrados, por
exemplo, na telenovela. E, nos últimos textos de 97/98, talvez já
esteja em estado embrionário uma rota diferente. No entanto
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nesse último estágio somente podem ser vislumbradas as conti-
nuidades e rupturas, tendo como contraponto DMM (1987).
O propósito, aqui, é reconstituir alguns momentos dessa tri-
lha, sem perder de vista o eixo do tema da identidade. Como
muitas das sugestões teóricas de DMM já foram devidamente re-
cuperadas em outras partes deste trabalho, parte-se de breves ob-
servações encontradas ainda naquele livro para tentar elucidar
possíveis rupturas que despontam nos textos seguintes.
Os processos políticos e sociais vividos na América Latina
nos anos 70 e 80 mexeram profundamente com algumas certezas
teóricas, com a \u201crazão dualista\u201d e com esquematismos correntes
na época que confrontavam rural/urbano, popular/erudito, Euro-
pa-Estados Unidos/América Latina, universal/local, etc. Ao colo-
car as fronteiras desses termos em xeque, foi possível confrontar-se
com outra \u201cverdade cultural desses países: a mestiçagem, que não
é somente fenômeno racial do qual viemos, mas trama contempo-
rânea de modernidade e descontinuidades culturais, de formações
sociais e estruturas de sentimento, de memórias e imaginários
que remexem o indígena com o rural, o rural com o urbano, o
folclore com o popular e o popular com o massivo\u201d (MARTÍN-BAR-
BERO, 1987a, p. 10).
É nesse contexto e a partir desse ponto de vista que é possível
identificar um sentido contraditório, heterogêneo e descontínuo
para a modernidade latino-americana. Martín-Barbero indica três
planos primordiais para a visualização desse modo dependente de
acesso à modernidade: da assincronia entre formação do Estado e
da nação; do modo \u201cdesviado\u201d como as classes populares se in-
corporam ao sistema político e à formação dos estados nacionais;
e, por último, do papel político que os meios de comunicação
desempenham na nacionalização das massas populares.
Assim, o primeiro esforço de construir a modernidade na
América Latina esteve ligado com a idéia de Nação, e os meios de
comunicação foram decisivos na formação e difusão da identidade
nacional. Nesse momento, articulava-se um movimento econômi-
co de entrada das economias nacionais no mercado internacional e
um projeto político de constituição da nação mediante a criação de
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uma cultura, de uma identidade nacional ou, nos termos da época,
de um \u201csentimento nacional\u201d. Dessa forma, os meios vão proporci-
onar às populações afastadas do \u201ccentro\u201d uma experiência de inte-
gração, de tradução da idéia de nação em vivência cotidiana.
Na perspectiva de Martín-Barbero, a modernidade latino-
americana enquanto experiência coletiva, está estreitamente vin-
culada a expansão das indústrias culturais. Ao contrário da
modernidade ilustrada, em que a cultura do livro era o eixo, aqui,
é, principalmente o rádio, o cinema, a televisão, seu suporte. \u201cA
modernidade fala na América Latina, de uma maneira peculiar,
da compenetração e da cumplicidade entre a oralidade \u2013 como
experiência cultural primária da maioria das pessoas \u2013 e a visualida-
de eletrônica. [\u2026] As maiorias em nossos países aceitam e se apro-
priam da modernidade sem deixar sua cultura oral, sem passar pelo
livro, com tudo o que isso implica de escândalo e desafio para
nossos modelos de cultura\u201d (MARTÍN-BARBERO,1995b, p. 169).
De outro lado, vale recuperar a insistência de Martín-Barbero
na \u201cnão-exterioridade do massivo no popular\u201d na constituição da
modernidade latino-americana. A noção de popular é revista, pas-
sando a estabelecer-se uma relação dinâmica entre o popular e o
massivo. Porém, na modernidade latino-americana, \u201cnão se con-
fundem memória popular e imaginário de massa, mas se abando-
na a conhecida ilusão essencialista de um estrato popular
incontaminado e autêntico\u201d (HERLINGHAUS, 1998, p. 18).
Todavia, Martín-Barbero insiste no registro em que a \u201cmo-
dernidade não-contemporânea\u201d da América Latina deve ser lida
para evitar mal-entendidos. Essa não-contemporaneidade é dis-
tinta da idéia de \u201catraso constitutivo\u201d, isto é, o atraso não é o
traço explicativo da diferença cultural.
[A modernidade não-contemporânea] é uma idéia que se mani-
festa em duas versões. Uma, pensando que a originalidade dos
países latino-americanos, e da América Latina como um todo, foi
constituída por fatores que escapam à lógica do desenvolvimento
capitalista. Outra, pensando a modernização como recuperação
do tempo perdido, e portanto identificando o desenvolvimento
com o definitivo deixar de ser o que fomos para afinal sermos
modernos. A descontinuidade que tentamos pensar aqui está
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situada em outra chave [\u2026]. Para poder compreender tanto o que
o atraso representou em termos de diferença histórica, mas não num
tempo detido, e sim relativamente a um atraso que foi historicamente
produzido [\u2026], quanto o que apesar do atraso existe em termos de
diferença, de heterogeneidade cultural, na multiplicidade de tempo-
ralidades do índio, do negro, do branco e do tempo decorrente de
sua mestiçagem. Só a partir dessa tensão é pensável uma modernida-
de que não se reduza a imitação e uma diferença que não se esgote
no atraso. (MARTÍN-BARBERO, 1987a, p. 165)
Não há imitação de outras trajetórias de modernidade \u2013 eu-
ropéia e/ou norte-americana, mas a tessitura da nossa própria
modernidade. A diferença, então, não é apenas aquela associada
com nosso subdesenvolvimento, mas que retém nesse processo de
\u201cconstituir-se e desconstituir-se essa contraditória mas ainda po-
derosa identidade\u201d (MARTÍN-BARBERO, 1992, p. 32, grifo meu).
Assim como, num primeiro momento, as indústrias culturais
desempenharam um papel integrador e organizador, hoje, embora
elas continuem interpelando os sujeitos, atuam mais como desorga-
nizadoras e reorganizadoras da experiência social. \u201cO processo que
vivemos hoje é não só distinto como, em boa medida, inverso: os
meios de comunicação são uns dos mais poderosos agentes da des-
valorização do nacional\u201d (MARTÍN-BARBERO,1995b, p. 172).
Hoje, os meios de comunicação agem como o dispositivo
mais poderoso na dissolução de um horizonte cultural comum
no âmbito da nação. Encarnam, assim, uma posição mediadora
na construção de outras identidades: das cidades, das regiões,
do espaço local, etc. \u201cAtravessando o movimento de homogenei-
zação que implica a globalização econômica e tecnológica, os
meios massivos e as redes eletrônicas veiculam um multicultura-
lismo que faz rebentar os referentes tradicionais de identidade\u201d
(MARTÍN-BARBERO, 1997c, p. 20).
Diante dessa situação, o modelo de sociedade implícito à
idéia de modernidade anteriormente descrita entra em crise e,
com ele, duas das suas categorias-chave: Estado nacional e espa-
ço público. A esfera pública vai corresponder fundamentalmente
ao espaço controlado pelos meios de comunicação de massa.
Essa concepção, por sua vez, traz profundas conseqüências para a
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compreensão do que é política. \u201cEsta veria esvaziar seus conteú-
dos substantivos para tornar-se refém da forma de comunicação
dos meios nos quais não cabem formas