Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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mas novos espaços de conflito e expressões
de nova subjetividade em gestação\u201d. E, de forma ainda mais con-
tundente, conclui a seção, afirmando: \u201cQuando a crítica da crise
\u2018convoca\u2019 à crise da crítica é o momento de redefinir o campo
mesmo de debate\u201d (1987a, p. 70).
No entanto, percebe-se em alguns textos posteriores à DMM
a matização dessa crítica8. Javier Protzel, no aniversário de dez
anos de De los medios a las mediaciones, lançava essa pista: \u201cPrecisa-
mente o descompasso do processo da modernidade latino-america-
na e a desierarquização dos relatos e das artes [...] dão continuidade
a uma reflexão que passa a ocupar-se da condição pós-moderna.
Mais ainda, a dupla evidência da formação de uma cultura latino-
americana moderna articulada pela mediação de massa, por um
lado, e a da cidade como teatro de operações de hibridação, por
outro, passam a ser os referentes para abordar a desterritoriali-
zação das culturas e uma nova relação entre o público e o priva-
do\u201d (PROTZEL, 1998, p. 43).
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Ao recuperar novamente alguns teóricos alinhados com o
que se denomina pós-modernidade, Martín-Barbero vai começar
a observar que se delineia a emergência de um novo paradigma,
caracterizado pelo fluído e circular em oposição ao mecânico e
linear. A superação desse pensamento linear está fazendo possível
reconhecer novos espaços e modos de relação, assim como uma
nova sensibilidade. \u201cEssa nova sensibilidade se traduz numa nova
percepção do poder que não aparece localizado num único pon-
to desde o qual irradia, mas disperso e transversal; nova valori-
zação do local enquanto espaço da proximidade, isto é, onde se
faz efetiva a diferença; e, no cotidiano como \u2018lugar\u2019 onde se luta e
se negocia permanentemente a relação com o poder\u201d (MARTÍN-
BARBERO, 1988, p. 13).
Embora mostre ainda reticências e críticas em relação a esse
paradigma, vai propor como programa, citando García Canclini,
que se assuma \u201csem nostalgias nem estremecimentos\u201d que é na
\u201cAmérica Latina onde se realiza com ênfase um dos traços desta-
cados pelo pós-modernismo na cultura atual: ser a pátria do pasti-
che e da bricolagem, onde se citam ironicamente todas as épocas
e estéticas\u201d (MARTÍN-BARBERO, 1988, p. 15).
É importante situar esse movimento no pensamento de Mar-
tín-Barbero em sintonia com a descrição das novas dinâmicas
culturais, identificadas por ele próprio e que estariam caracteri-
zando as sociedades latino-americanas atuais. Aqui, podem ser
apontadas as situações correntes mais determinantes. A primeira
delas diz respeito ao modo como as indústrias culturais estão re-
organizando as identidades coletivas e as formas de diferenciação
simbólica, esmaecendo cada vez mais as demarcações entre culto
e popular, tradicional e moderno, o próprio e o alheio. Na verda-
de, essa situação somente veio a se intensificar na última década.
Uma segunda dinâmica trata da ação simultânea dos meios
massivos que hibridizam mas, também, separam, \u201caprofundam e
reforçam as divisões sociais, refazem as exclusões que vêm da
estrutura social e política, legitimando-as culturalmente\u201d (MAR-
TÍN-BARBERO, 1990a, p. 9). Martín-Barbero, ainda, reitera esse
aspecto: \u201c[\u2026] falar em identidade regional ou local implica falar
não só de costumes e tradições orais, de cerâmicas e ritmos musi-
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cais, mas, também, de marginalização social, de expoliação eco-
nômica e de exclusão nas decisões políticas, isto é, do \u2018desenvolvi-
mento desigual\u2019 de que estão feitos esses países\u201d (1990a, p. 13). É
importante ressaltar esse lado da questão para que, mais tarde, tal
posicionamento não se confunda com uma postura multicultura-
lista que reconhece como politicamente correto as diferenças cul-
turais, sem destacar as desigualdades sociais implicadas.
E, por último, é identificado o surgimento de culturas ou
subculturas não-ligadas à memória territorial. Mais recentemen-
te, esse autor tem se preocupado cada vez mais com as \u201cmemó-
rias desterritorializadas\u201d, isto é, com aquelas relacionadas com
uma cultura de massa global (da TV, do vídeo, da música e do
cinema) que dificilmente podem ser vistas em relação a um ter-
ritório definido, pois estão ligadas ao mercado transnacional.
Nessa direção, têm-se tornado tema constante de suas reflexões
certas culturas juvenis \u201ctachadas com freqüência de antinacio-
nais porque não têm raízes num território determinado. No
entanto, elas não são tanto antinacionais, mas uma nova forma
de perceber a identidade. São identidades com temporalidades
mais curtas e precárias, que tem uma flexibilidade que lhes
permite aglutinar ingredientes de diferentes mundos culturais\u201d
(SCHLESINGER E MORRIS, 1997, p. 63).
Na emergência das culturas \u201csem memória territorial\u201d é que
se evidencia uma outra ordem ou forma de organização promovi-
da pelos meios de comunicação, isto é, o movimento contraditó-
rio de globalização e fragmentação da cultura. \u201cOs meios de
comunicação, tanto o rádio como a imprensa e, aceleradamente,
a televisão, são hoje os mais interessados em diferenciar as cultu-
ras, seja por regiões, por profissões, por sexos ou pela idade. [\u2026]
De forma que a desvalorização do nacional não provém unica-
mente da desterritorialização que os circuitos de interconexão global
da economia e da cultura-mundo efetuam, mas da erosão interna
produzida pela liberação das diferenças, especialmente das regio-
nais e geracionais\u201d (MARTÍN-BARBERO, 1995b, p. 172).
Relacionada com essa dinâmica cultural, há uma revitalização
do local, uma emergência de relatos e imagens que revelam a diver-
sidade das culturas locais. E mesmo diante de uma impossibilidade
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de definir fronteiras precisas de uma cultura nacional, mantida
pela soberania do Estado, a noção de nacional ainda tem vigên-
cia, convertendo-se num \u201cespaço estratégico de resistência à do-
minação e uma mediação histórica da memória longínqua dos
povos, essa que faz possível o diálogo entre gerações\u201d (MARTÍN-
BARBERO, 1995b, p. 173).
É evidente [reflexão de Martín-Barbero] a ruptura com a proble-
mática de uma hegemonia cultural imposta de fora. A transnacio-
nalização é considerada como um fator de deslocamento, não de
homogeneização de culturas e, nesse contexto, é difícil ver como
se pode impor uma identidade coletiva dominante, no âmbito
nacional, por meio de medidas políticas públicas, adotadas pelo
Estado. (SCHLESINGER E MORRIS, 1997, p. 63)
Enfim, Martín-Barbero acaba pondo em questão a capacidade
de ação do Estado no que diz respeito ao campo da comunicação.
Embora, ao mesmo tempo, sustente que o espaço da nação e da
cidade constituem um espaço estratégico de resistência à domina-
ção global e, assim, lugares para se pensar sobre a identidade.
Ao revisar a abundante produção de textos de Martín-Barbero,
ficam evidentes repetições e reiterações de posicionamentos. De
outro lado, é impossível evitá-las, pois são elas que vão sinalizando
as continuidades na reflexão desse autor. Contudo, vão sendo reve-
ladas, também, observações pertinentes a mudanças ou intensifica-
ções de certas experiências sociais, priorizando-se, então, outros
espaços ou outros ângulos para sua abordagem analítica.
Nesse sentido, destaco agora o movimento que pode ser observa-
do nos textos posteriores à DMM, de aproximação com o pensamento
pós-moderno ou pelo menos com alguns de seus princípios. A partir
da dúvida sobre se pensamos a crise da modernidade e o que ela possa
ter de superável, isto é, sua reformulação, ou o que esse debate pressu-
põe de anúncio da pós-modernidade, Martín-Barbero (1992) recupera
ambas as direções dessa discussão. Em ambos os contextos, enfatiza
que o lugar estratétigo para pensá-los é a comunicação.
Na seqüência desse raciocínio vai observar que a crítica
das dinâmicas culturais vigentes não cabe mais nos termos da
modernidade.
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Um dos efeitos mais evidentes da crise que mina aquela [moder-
na] organização do mundo é a nova percepção do \u2018campo das
tensões\u2019 entre tradição e inovação, entre a grande arte e as culturas
do povo e das massas. Campo que já não pode ser captado