Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana
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Cartografias dos estudos culturais - Uma versão latino-americana


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não antagônico às tradi-
ções, nem destinado a superá-las por alguma lei evolucionista
inverificável. Serve, em suma, para fazer-nos cargo, ao mesmo tem-
po, do itinerário impuro das tradições e da realização desencaixada,
heterodoxa, de nossa modernidade. (1989a, p. 190)
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García Canclini procura construir uma posição intermediá-
ria que nega tanto a postura que absolutiza uma pureza ilusória
quanto o relativismo acachapante pós-moderno, em que qualquer
sentido se desfaz. Há uma explícita tentativa de considerar tanto
as questões modernas quanto as pós-modernas, negociando um
espaço interpretativo entre esses dois discursos.
Nessa direção, sua análise de algumas práticas culturais aponta
para o surgimento de novas formas de subjetividade que, embora
desprovidas de qualquer noção totalizante, mantêm uma tensa
relação interrogativa com as sociedades, ou fragmentos delas, e
onde os novos atores sociais acreditam ver movimentos sócio-
culturais vivos e utopias praticáveis.
Isso sinaliza a crença do autor na temática das utopias e dos
projetos históricos e que estes ainda têm validade. \u201cAlguns de nós
entendem que a queda dos grandes relatos totalizadores não eli-
mina a busca crítica do sentido \u2013 ou melhor, dos sentidos \u2013 na
articulação das tradições e da modernidade. E que a renovação do
tratamento desta questão deve partir do reconhecimento da plura-
lidade semântica que se dá não somente na arte culta e no popular,
mas nos seus entrecruzamentos inevitáveis e na sua interação com
a simbólica massiva\u201d (1988b, p. 56).
Paulatinamente, a reflexão de García Canclini passou a inte-
ressar-se cada vez mais pelos processos de consumo cultural que já
eram assinalados na década de 80 como relevantes para reavaliar as
políticas culturais e desenhar novas políticas verdadeiramente de-
mocráticas, isto é, que construíssem espaços para o reconhecimen-
to e o desenvolvimento coletivo, mas, também, proporcionassem
condições reflexivas para que fosse avaliado o que obstrui esse reco-
nhecimento (1989b, p. 148). O que se observa nesse movimento é
um deslocamento em direção à importância do mercado e seu
poder na estruturação e constituição das identidades, desbancan-
do a influência do Estado, destacada em outros períodos, no pro-
cesso do consumo.
É difícil rastrear os conceitos e idéias fundamentais dos se-
cundários no livro de García Canclini \u2013 Consumidores e cidadãos
(1995b). Ele expõe uma diversidade de questões para pensar e,
além disso, a sua forma de apresentação não é linear, articulando
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numa série de ensaios um leque de problemáticas em torno do
consumo, identidade cultural e cidadania.
Vemos aí a retomada e atualização de uma série de questões
que foram sendo expostas em textos anteriores. Metodologica-
mente, García Canclini continua insistindo no trabalho de com-
plementação entre antropologia, sociologia, comunicação e outras
áreas do campo das ciências humanas.
Uma das idéias-chave é de que os problemas do consumo não
podem ser vistos apenas como relacionados à eficiência comercial,
aos negócios, à publicidade, ou ainda, como uma questão de gos-
tos pessoais. Entender como as mudanças na maneira de consumir
foram alterando as formas de exercer a cidadania e a construção da
identidade é a provocação que García Canclini propõe.
Para alcançar tal objetivo, traça o novo cenário sócio-cultural
contemporâneo e repassa algumas questões como: o esfacelamen-
to da oposição entre o próprio e o alheio; a assunção do global,
mediado pela cultura local; a necessidade de definir novas políti-
cas culturais em tempos de integração cultural e globalização; a
crença numa sociedade civil rearticulada de forma diferente da-
quela dos anos 70/80, entre outras.
Dois âmbitos são, então, cruciais na análise de García Can-
clini: na cultura destaca-se o consumo e na política é a própria
noção de cidadania que necessita ser revista. No início do livro a
posição do autor fica claramente expressa: \u201cHomens e mulheres
percebem que muitas das perguntas próprias dos cidadãos \u2013 a que
lugar pertenço e que direitos isso me dá, como posso me informar,
quem representa meus interesses \u2013 recebem sua resposta mais atra-
vés do consumo privado de bens e dos meios de comunicação de massa do
que das regras abstratas da democracia ou pela participação coletiva
em espaços públicos\u201d (1995b, p. 13, grifo meu).
A própria política tornou-se errática e submetida às regras
do espetáculo onde as decisões são tomadas em função das sedu-
ções do consumo. Por essa razão, García Canclini dirige-se à cida-
dania, entendida como \u201co núcleo daquilo que na política é relação
social\u201d, sem desvinculá-la do consumo. Ao repensar a cidadania em
conexão com o consumo e como estratégia política, procura-se uma
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forma de articular o poder de organização do Estado com o do
mercado. \u201cPrecisamos de uma concepção estratégica de Estado e
do mercado que articule as diferentes modalidades de cidadania
nos velhos e nos novos cenários, mas estruturados de maneira
complementar\u201d (1995b, p. 24).
Segundo a ótica de García Canclini, os próprios meios de
comunicação de massa que foram responsáveis pelo aparecimento
das massas na esfera pública foram mudando e deslocando o exercí-
cio da cidadania e o desenvolvimento do espaço público em dire-
ção às práticas de consumo. \u201cDevemos nos perguntar se ao consumir
não estamos fazendo algo que sustenta, nutre e, até certo ponto,
constitui uma nova maneira de ser cidadãos. Se a resposta for po-
sitiva, será preciso aceitar que o espaço público transborda a esfe-
ra das interações políticas clássicas\u201d (1995b, p. 31).
E o autor não se furta de elaborar uma proposta onde o con-
sumo não seja comandado pelas forças do mercado, mas faça par-
te de interações sócio-culturais complexas. \u201cVincular o consumo
com a cidadania requer ensaiar um reposicionamento do merca-
do na sociedade, tentar a reconquista imaginativa dos espaços
públicos, do interesse do público. Assim o consumo se mostrará
como um lugar de valor cognitivo, útil para pensar e atuar signi-
ficativa e renovadoramente, na vida social\u201d (1995b, p. 68).
Do ponto de vista da análise, as alterações que vão ocorren-
do no plano histórico têm suas equivalências em termos de concei-
tos. Numa determinada situação, conceitos específicos são
produtivos e em outra, são descartáveis. Esse processo está expres-
so no abandono da noção de popular que se tornou inadequada para
abarcar os múltiplos cruzamentos culturais contemporâneos. As-
sim, o popular foi substituído pela idéia de sociedade civil. Porém,
esta também foi tornando-se inapreensível, pois passou a indicar as
mais díspares manifestações de grupos, organizações não-governa-
mentais, empresas privadas e mesmo indivíduos. Na opinião de
García Canclini, o termo sociedade civil passou a ser \u201coutro con-
ceito totalizador a negar o heterogêneo e desintegrado conjunto de
vozes que circulam pelas nações\u201d (1995b, p. 34). Por essa razão,
agora o ponto de vista centra-se na idéia de consumidor-cidadão.
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A definição sobre quem somos nós, os latino-americanos,
continua demarcando um espaço importante na reflexão de García
Canclini. Se antes as identidades se definiam pelas relações com o
território, tentando expressar a construção de um projeto nacio-
nal, atualmente configuram-se no consumo, dependem daquilo
que se possui ou daquilo que se pode chegar a possuir.
O rádio e o cinema e, particularmente no caso brasileiro, a
televisão, contribuíram, na primeira metade deste século, para a
organização da identidade e do sentido de cidadania nas socie-
dades nacionais, na América Latina. Os meios massivos acaba-
ram unificando os padrões de consumo e proporcionando uma
visão nacional.
Essa identidade foi construída através de relatos fundadores,
apropriação de um território e defesa desse mesmo território das
invasões estrangeiras. Tudo isso com o fim de nos diferenciarmos
dos outros. No final do século XX, isto se transformou. Esse tipo
de construção identitária começou a se esboroar nos anos 80. \u201cOs
referentes