Lanna-Cap1
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Lanna-Cap1


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não apenas a implementação
de programas setoriais não integrados e de caráter transitório. Um modelo que aumente a eficácia da geração
e emprego de instrumentos legais, ao contrário de produzir uma legislação caótica. Enfim, há necessidade de
um Modelo de Gerenciamento das Águas com a capacidade de abordar como um todo os problemas e
oportunidades de desenvolvimento (crescimento econômico, eqüidade social e sustentabilidade ambiental),
gerando e aplicando com eficiência os instrumentos legais e econômicos necessários, integrando e
articulando as instituições públicas, privadas e comunitárias interessadas, dentro de uma concepção sistêmica,
e por isto multi e inter-setorial, do gerenciamento.
A. Eduardo Lanna (1999) Gestão das Águas
Capítulo1 - Aspectos conceituais da Gestão das Águas
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Este modelo pode ser obtido com a segunda orientação do modelo econômico-financeiro, que visa ao
desenvolvimento integral da bacia hidrográfica. O problema desta opção, já comentado previamente, é a
necessidade de criação de entidades multi-setoriais de grande porte que concorrem pelo espaço político e
administrativo com as demais entidades públicas setoriais atuantes na bacia. Isto dificulta muitas vezes a
necessária articulação interinstitucional e com usuários e comunidade.
Modelo Sistêmico de Integração Participativa
Trata-se do modelo mais moderno de Gerenciamento das Águas, objetivo estratégico de qualquer
reformulação institucional e legal bem conduzida. Ele é caracterizado pela:
· publicização das águas, pela qual o Estado assume seu domínio, legal ou para efeitos práticos;
· descentralização de seu gerenciamento, através da qual o Estado, sem abrir mão de seu domínio sobre
a água, permite que o seu gerenciamento seja realizado de forma compartilhada com a sociedade,
mediante a participação de entidades especialmente implementadas;
· adoção do planejamento estratégico na unidade de intervenção da bacia hidrográfica;
· utilização de instrumentos normativos e econômicos no gerenciamento das água, de acordo com
diretrizes do planejamento estratégico.
Um bem estratégico como a água, na medida em que seja abundante, pode ser tratado como um bem
livre, ou seja, qualquer um pode usá-lo na quantidade que necessite sem causar problemas aos demais
usuários. Esta situação vigia no passado, antes que o uso da água assumisse as proporções que hoje apresenta
nas regiões mais desenvolvidas. Quando este bem se torna escasso há necessidades de serem estabelecidas
formas de controlar desta apropriação. Uma delas é permitir o estabelecimento de direitos de propriedade e
de comercialização sobre a água deixando ao mercado o seu controle. Devido a diversos problemas de
obtenção de eficiência social neste tipo de controle, devidamente analisados nos textos de Economia
Ambiental, uma outra forma de controle é adotada, isoladamente ou em conjunto com a anterior. Nela, o
Estado assume o domínio da água. Isto ocorre no Brasil, de forma constitucional, e na França, para efeitos
práticos.
Diante das dificuldades que um controle centralizado poderia acarretar o Estado, apesar de manter o
domínio sobre a água, descentraliza o seu gerenciamento permitindo a participação da sociedade através de
entidades especialmente implementadas. Para tanto é estabelecida uma concepção sistêmica, na forma de
uma matriz institucional de gerenciamento, responsável pela execução de funções gerenciais específicas, e
pela adoção de três instrumentos:
· Instrumento 1. Planejamento estratégico por bacia hidrográfica. Baseado no estudo de cenários
alternativos futuros, estabelecendo metas alternativas específicas de desenvolvimento sustentável
(crescimento econômico, eqüidade social e sustentabilidade ambiental) no âmbito de uma bacia
hidrográfica. Vinculados a estas metas são definidos prazos para concretização, meios financeiros e os
instrumentos legais requeridos.
· Instrumento 2. Tomada de decisão através de deliberações multilaterais e descentralizadas.
Implementação da negociação social, baseada na constituição de um Comitê de Bacia Hidrográfica no
qual participem representantes de instituições públicas, privadas, usuários, comunidades e de classes
políticas e empresariais atuantes na bacia. Esse comitê tem a si assegurada a análise e aprovação dos
planos e programas de investimentos vinculados ao desenvolvimento da bacia, permitindo o cotejo dos
benefícios e custos correspondentes às diferentes alternativas.
· Instrumento 3. Estabelecimento de instrumentos normativos e econômicos. Tendo por base o
planejamento estratégico e as decisões, são estabelecidos os instrumentos normativos pertinentes e
formas de estímulo à racionalização do uso da água e de captação de recursos financeiros necessários para
implementação de planos e programas de investimentos.
No que diz respeito ao planejamento estratégico por bacia hidrográfica, deve ser entendido que os
interesses de uso, controle e proteção das águas provêm de diversos setores. Há necessidade de serem
conhecidos, ou pelo menos hipotetizados, os diversos planos setoriais de longo prazo, quantificando e
A. Eduardo Lanna (1999) Gestão das Águas
Capítulo1 - Aspectos conceituais da Gestão das Águas
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hierarquizando as intenções de uso, controle e proteção de forma que seja possível a elaboração de um plano
multi-setorial de longo prazo que buscará articular os interesses entre si e estes com as disponibilidades dos
recursos hídricos. Como no planejamento de longo prazo não há possibilidade de obtenção de previsões
confiáveis, estabelece-se a necessidade de formulação de cenários alternativos de uso, controle e proteção das
águas que servirão de base para os planos setoriais. Não é possível estabelecer-se o cenário mais provável de
ocorrer. Em uma sociedade, demandas e valores mudam, e assim não será encontrada em qualquer
momento uma solução final para os problemas. O planejamento deve ser um processo contínuo de
julgamentos e decisões para atender a novas situações em um futuro incerto. Sendo assim, muitas decisões
que comprometeriam o atendimento de determinados setores na ocorrência de dado cenário deverão ser
evitadas e o Gerenciamento das Águas deverá privilegiar aquelas decisões que preservem opções futuras de
uso, controle e proteção. De acordo com TONET E LOPES (1994) "o comportamento passivo, de
aguardar a manifestação da demanda para então procurar atendê-la, deixa a organização vulnerável,
compromete a eficiência e muitas vezes inviabiliza soluções rápidas e práticas, exigindo maior montante de
recursos para corrigir desvios que poderiam ser evitados. No ambiente mutável é preciso antecipar-se às
demandas; quando há ... grupos de interesses conflitantes é preciso, ainda, antecipar-se à própria necessidade
para poder atendê-la no menor tempo possível ..."
O planejamento estratégico contrasta com os programas circunstanciais do modelo econômico-
-financeiro por considerar unificadamente os problemas de desenvolvimento (crescimento econômico,
eqüidade social e sustentabilidade ambiental) da bacia no longo prazo. Como conseqüência, são previstos os
programas de estímulo econômico e os instrumentos legais requeridos para atendimento das demandas
econômicas, sociais e ambientais.
O segundo instrumento prevê o estabelecimento de uma forma de negociação social no âmbito da
unidade de planejamento formada pela bacia hidrográfica. Essa negociação não é preconizada apenas como
forma de democratizar o Gerenciamento das Águas. Nem deve ser confundida com uma tentativa de se
estabelecer o assembleísmo na tomada de decisões. Ou seja, qualquer decisão sendo obrigatoriamente
tomada em uma assembléia de representantes dos interessados. Seu propósito vem de duas constatações
importantes e que se constituem em grandes dificuldades para um gerenciamento eficiente: a multiplicidade
de interesses em jogo e a eficácia do sistema legal.
Dificuldades de lidar com a multiplicidade de interesses
O uso e a proteção das águas é promovido por um grande número de entidades, de caráter público ou
privado.