Lanna-Cap5
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Lanna-Cap5


DisciplinaGestão de Recursos Hídricos298 materiais2.306 seguidores
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a usos com pequenas derivações rela-
tivamente às disponibilidades de água de acordo com critérios a serem definidos pelo órgão estadual
com atribuição de realizar a outorga.
Deve ser salientado que a precariedade está presente em todas as modalidades de uso privativo
acima elencadas, pois é sempre possível a revogação por motivo de interesse público. Contudo, se houver
prazo de validade estabelecido no instrumento de outorga, cria-se para o particular uma expectativa de
estabilidade e o conseqüente direito de compensação de natureza pecuniária, em caso de revogação ante-
cipada. Portanto, sob o ponto de vista de flexibilidade, o órgão encarregado da outorga deveria preferir a
alternativa de autorização que, devido à sua precariedade, não atribui direitos específicos ao usuário de
água. Este último, entretanto, deverá preferir uma modalidade que lhe dê garantias, particularmente quan-
do realiza grandes investimentos na infra-estrutura de uso de água.
Na sistemática de outorga geralmente adotada, as demandas são classificadas como prioritárias e
não-prioritárias. As prioritárias são usualmente projetadas para um dado horizonte de planejamento, cerca
de 10 a 20 anos. Os montantes obtidos são reservados, ou seja, não são objeto de outorga para outras de-
mandas a não ser as prioritárias. A vazão excedente pode então ser outorgada às demandas não prioritári-
as, de acordo com as solicitações, até que seja esgotada.
As demandas consideradas prioritárias no Brasil são o "consumo humano e a dessedentação ani-
mal" de acordo com os fundamentos da lei 9.433/97 da Política Nacional de Recursos Hídricos. Igual-
mente prioritária poderá ser considerada a vazão ecológica ou seja, aquela que deve ser mantida no rio
para atender às demandas ambientais. Os demais usos que vierem a solicitar outorgas poderão ser conside-
rados não-prioritários, e atendidos de acordo com ordem com que forem demandados, a não ser que as
políticas públicas estabelecidas por um Plano de Bacia Hidrográfica estabeleça o contrário. Por exemplo, o
poder público poderá determinar que certo montante de vazão em dada seção fluvial fique reservado para
atendimento ao uso industrial, priorizando desta forma o atendimento a este uso em detrimento dos de-
mais.
Critérios alternativos de outorga do uso da água
Uma proposta de classificação de critérios de outorga é apresentada na Tabela 3. Duas classes po-
dem enquadrar os critérios apresentados na literatura: o da vazão referencial e o da priorização das de-
mandas. A segunda classe permite sub-divisões que serão analisadas a seguir.
A. Eduardo Lanna (1999) Gestão das Águas
Caítulo 5 - Instrumentos de Gestão das Águas: Outorgas
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Tabela 3 - Proposta de classificação de critérios de outorga
Classes de outorga Sub-classes Tipos
Vazão referencial
Natureza da demanda
Natureza e quantidade supridaPelo tipo de demanda
Expressão econômica, política e outras
Priorização das demandas
Pela garantia de suprimento
Critério da vazão referencial
Neste critério, uma vazão referencial do curso de água, que pode ser relacionada a uma situação
crítica de abastecimento, é utilizada. Tem sido geralmente adotada a média das vazões de 7 dias consecuti-
vos da estiagem com 10 anos de tempo de retorno ou a 7Q10. Esta vazão é estabelecida como o limite para
o total das outorgas. Supõem-se que neste total se encontre prevista a "vazão ecológica", a ser mantida no
leito do rio para proteção do ecossistema, geralmente adotada como um percentual da vazão referencial.
Como a outorga é nestes casos dirigida a condições de estiagem, ela limita severamente a expansão
dos sistemas de uso de água. Simultaneamente, os usuários podem verificar que na maior parte do tempo
as vazões remanescentes são superiores à vazão ecológica estipulada, criando uma impressão de desperdí-
cio de água. Com efeito, o uso é limitado a uma fração da 7Q10, situação que ocorrerá nos 7 dias mais críti-
cos do ano que ocorre, em média, uma vez a cada 10 anos. Também em média, nas sequências iguais ou
superiores a 7 dias dos outros nove anos - e mesmo nos 358 dias restantes do ano crítico - o suprimento
poderia ser aumentado. Devido a isto, as entidades responsáveis pela outorga são submetidas a pressões
por parte dos usuários para revisá-las.
Os outorgados terão garantia de que suas demandas serão supridas igual ao complemento da pro-
babilidade de ocorrência de situações mais críticas que a da vazão referencial. Por exemplo, se esta vazão é
a 7Q10, haverá a garantia de que os suprimentos serão efetivados em períodos consecutivos de 7 dias em 9
entre 10 anos, ou seja, em 90% dos anos, em média.
Critérios de priorização das demandas
Nesta classe podem ser inseridos vários critérios. Eles tem em comum a propriedade de que de-
mandas podem ser outorgadas além de qualquer vazão referencial, de acordo com critérios a serem esta-
belecidos pelos decisores. As demandas com maior prioridade, abastecimento doméstico, por exemplo, se-
rão inicialmente supridas, enquanto houver água disponível na seção fluvial e no intervalo de tempo. Após
este suprimento, a vazão remanescente será usada para suprir as demandas com segunda prioridade, irriga-
ção, por exemplo. Esta sistemática prosseguirá até o ponto em que a vazão é esgotada, ou em que são su-
pridas todas as demandas. Como a vazão ecológica é uma destas demandas garante-se que a água disponí-
vel será suprida de acordo com as prioridades atribuídas.
Esta alternativa não estabelece, como a da vazão referencial, uma garantia específica de supri-
mento ao outorgado. Para controle e deliberação do usuário esta garantia deverá ser estimada pelo órgão
gestor e informada explicitamente no documento de outorga. Usos com menor prioridade poderão apre-
sentar baixas garantias que inibam as suas implantações em bacias congestionadas. A efetivação ou não
destes novos usuários não apresenta problemas para os usuários com maior prioridade, já que a água esta-
rá reservada para estes. Em situações de escassez, usuários com menor prioridade deverão restringir seus
usos em uma seção fluvial e a montante desta, se houver necessidade de liberação de água para os usuários
com maior prioridade.
O problema poderá ocorrer quando usuários com tipos de uso mais prioritários deslocarem da
bacia aqueles com menor prioridade. Seria a situação de que o aumento da população determine que maio-
res montantes de água sejam assegurados ao seu abastecimento, reduzindo a garantia do suprimento a ou-
tros tipos de usuários. Isto determinará a revogação dos termos iniciais da outorga o que, dependendo do
seu tipo, concessão ou licença, poderá gerar demandas de indenização. Portanto, para estabelecer uma
maior flexibilidade no gerenciamento quantitativo da água em uma bacia estes critérios de outorga exigem
em paralelo a fixação de regras claras para orientação das partes envolvidas. Isto somente será viável na
medida em que a sistemática de outorga for produto de um plano de bacia hidrográfica, onde os usos de
água sejam compatibilizados no tempo e no espaço.
A. Eduardo Lanna (1999) Gestão das Águas
Caítulo 5 - Instrumentos de Gestão das Águas: Outorgas
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Os montantes reservados a cada demanda, com diferentes prioridades, podem ser estabelecidos
por várias formas, analisadas a seguir. Pelo menos duas grandes classes podem ser identificadas: o tipo de
demanda e a garantia de suprimento.
A - Pelo tipo de demanda: nesta alternativa, as demandas serão classificadas através de uma tipificação
que seria estabelecida por diferentes atributos, como a natureza do uso, a quantidade consumida, a sua ex-
pressão econômica, etc. Prioridades diversas seriam atribuídas a cada tipo, o que resultaria em diversas ga-
rantias para os seus suprimentos.
Várias alternativas podem ser estabelecidas de acordo com a tipificação que for realizada. Algu-
mas alternativas são comentadas a seguir:
A.1 - Pela natureza de demanda: a cada natureza de demanda seria atribuída uma prioridade, de acordo
com o que dispõem as normas legais, as determinações