Lanna-Cap6
56 pág.

Lanna-Cap6


DisciplinaGestão de Recursos Hídricos298 materiais2.318 seguidores
Pré-visualização24 páginas
0,51 7,56 7,56 57,36
054 0,06 0,03 0,04 2,11 0,15 2,27 2,27 57,36
Totais 4725,37 1871,39 2465,743 166.479,41 9.572,64 176.052 176.052
Médias 3,882 71,399 71,399 60,55
Alternativa 2: Estrutura de cobrança baseada nos custos médios do suprimento da água
Esta estrutura de cobrança estabelece a cobrança de cada 1000 m3 de água pelo seu custo médio
de suprimento, calculado na Tabela 9, incluindo os custos correspondentes de operação, manutenção e
administração. Porém, como o valor resultante poderá ultrapassar a capacidade de pagamento dos usuári-
os, particularmente os de menor porte, busca-se estabelecer um esquema de subsídios cruzados, compu-
tados como função da área potencialmente irrigável, no caso de usuário irrigante. A estrutura computaci-
onal será:
A. Eduardo Lanna (1999) Gestão das Águas
Capítulo 6 - Instrumentos de gestão das águas: cobrança
154
$ = S1 . A + $a . V (15)
onde $ é o valor da cobrança, S1 é um fator variável com cada usuário dado em unidades monetárias por
hectare, responsável pela inserção dos subsídios cruzados, A é a área desenvolvida em hectares, $a é o
custo médio de oferta de cada 1000 m3 de água, estimado de acordo com o que foi apresentado previa-
mente na Tabela 9, e V é o volume de água captado pelo usuário em 1000 m3.
Quando S1 for nulo o usuário pagará um preço unitário pela água igual ao seu custo médio, não
existindo subsídio nem sobre-cobrança. A estimativa dos valores S1 para cada usuário dependerá do que
seja suposto ser sua capacidade de pagamento e de se haverá subsídios diretos ao uso de água na bacia
como um todo. Caso não haja subsídio direto, mas sejam necessários subsídios cruzados, a cobrança mé-
dia por volume de água, dada pela divisão do somatório das cobranças pelo volume total de água forneci-
do, deverá ser igual ao custo médio da água. Para que isto seja viável S1 deverá ser livre, assumindo valores
negativos, situação em que haverá subsídio ao correspondente usuário, e valores positivos, quando ocor-
rerá sobre-cobrança.
No caso do valor de S1 para dado usuário ser positivo ele pagará duas parcelas: uma fixa, propor-
cional à área desenvolvida, potencialmente irrigável, e a outra variável, proporcional ao consumo de água.
Esta última parcela terá um preço unitário igual a custo médio, estimulando o uso eficiente.
No caso do valor de S1 ser negativo o usuário pagará a percola referente ao consumo de água da
mesma forma que no caso anterior. A parcela que depende da área desenvolvida e de S1 entrará como um
abatimento fixo da cobrança. Caso a soma das duas parcelas for positiva o estímulo ao uso eficiente da
água permanecerá como antes. O usuário que economizar 1000 m3 deixará de pagar $a, o seu custo médio.
Caso o abatimento supere a parcela positiva surge o problema da cobrança negativa que pode ser
interpretada como um crédito a receber e não como uma dívida a pagar. Existem problemas legais, insti-
tucionais e políticos para se efetuar o pagamento deste crédito. Ele poderá entrar como um subsídio na
forma de assistência técnica, de isenção de impostos, etc. Outra alternativa é que havendo cobrança nega-
tiva o usuário nada paga mas também nada recebe. Isto anulará o estímulo ao uso eficiente da água até o
ponto em que a cobrança se torna positiva. Ou seja, o usuário com cobrança negativa só estará disposto a
racionalizar o uso da água quando o montante de uso atingir um valor tal em que o valor da segunda par-
cela da equação 6 igualar ao da primeira parcela de abatimento. Este aspecto poderá ser considerado
apropriado, porém, se o valor de S1 for dimensionado de forma que apenas consumidores que devam ser
estimulados a aumentar o uso de água, por questões sanitárias, sociais ou econômicas, sejam contempla-
dos com cobranças negativas.
Esta estrutura tem a característica de fazer incidir no usuário o custo médio da água, ou qualquer
outro custo referencial, qualquer que seja a situação, a não ser quando a soma das duas parcelas for nega-
tiva, e portanto nada haver a pagar. O usuário-pagador sempre terá economias idênticas ao custo médio
da água ao diminuir seu consumo.
Existem várias alternativas para a função que calculará o valor da componente de cobrança S1.
Algumas delas serão exploradas a seguir.
Função S1 linear
Neste caso o valor de S1 será obtido de uma função linear crescente que tem a área desenvolvida
como argumento. Portanto:
S1 = a . A - b (16)
onde a e b são parâmetros a serem calculados, de acordo com duas condições:
1 - a condição de que a cobrança média é igual ao custo médio da água, caso ocorram apenas subsídios
cruzados;
2 - outra condição qualquer.
A. Eduardo Lanna (1999) Gestão das Águas
Capítulo 6 - Instrumentos de gestão das águas: cobrança
155
O sinal negativo de b na equação acima é adotado para fazer com que os usuários com pequenas
áreas desenvolvidas tenham um fator S1 negativo, conforme necessidade exposta acima. A cobrança de
um usuário será calculada por:
$ = (a . A - b) . A + $a . V (17)
Uma alternativa para a condição 2 anterior é arbitrar um valor de área desenvolvida (potencial-
mente irrigável) A* que sendo totalmente irrigada (100%) deverá resultar em uma cobrança nula. Isto
pode ser obtido substituindo-se o valor de S1 na equação 16 na equação 17:
$ = ( a . A* - b ) . A* + $a . V = 0 (18)
Se V, o volume consumido no intervalo de tempo, guardar uma relação constante com a área irri-
gada igual a ta, já que a área irrigada é igual à desenvolvida, vem:
(a . A* - b) . A* + $a . ta . A* = 0 ou
a . (A*)2 + (- b + $a . ta) . A* = 0 ou
a = ( b - $a . ta) / A* (19)
Esta equação permite a substituição de a em na equação 8 resultando:
$ = {[(b - $a . ta) / A*] . A - b } . A + $a . V (20)
Nesta equação todos os termos são conhecidos, exceto b, que será ajustado iterativamente até ser
cumprida a condição 1, de que a cobrança média por volume seja igual ao custo médio de oferta da água.
Aplicação à bacia do Rio Curú da estrutura referenciada à custos médios de oferta da água e função S1 li-
near
Para esta aplicação supôs-se que o custo médio da água na bacia do Curú ($a) é de US$ 30,008. O
valor de ta , a taxa de água a ser aplicada por hectares irrigados é de 0,5 l/s. Finalmente, a área desenvolvi-
da que sendo totalmente irrigada deverá ter cobrança nula (A*) foi adotada como 2 ha. A Tabela 23 apre-
senta os resultados obtidos.
Nota-se que por força da função que estima S1 ser linear e a situação fundiária dos irrigantes da
bacia do Curú mostrar grande concentração de terras em poucas propriedades, que apenas 2 proprietários
são fortemente onerados e os demais, incluindo proprietários médios, são subsidiados, pagando valores
inferiores a US$ 30 por 1000 m3. A existência de sobre-cobrança e subsídios pode ser identificada pela
ocorrência de S1 positivo e negativo, respectivamente, ou cobranças médias para um usuário maior ou
menor que US$ 30 por 1000 m3 na última coluna da Tabela 23.
O valor de a para que a área de 2 ha tenha cobrança nula é de 0,08. O valor de b para forçar uma
cobrança média de US$ 30 por 1000 m3 é 39,685. A arrecadação mensal obtida por este esquema é de
US$ 74.017,00. Verifica-se que este sistema onera fortemente os maiores usuários, estabelecendo valores
muito baixos para os demais.
 
8 É suficientemente documentado que a agricultura irrigada tradicional da região Nordeste do Brasil não gera renda sufi-
ciente para que este valor possa ser absorvido pelo agricultor. Apesar disto, e apenas para efeitos de análise, este valor de
referência para a cobrança será adotado neste e nos demais exemplos.
A. Eduardo Lanna (1999) Gestão das Águas
Capítulo 6 - Instrumentos de gestão das águas: cobrança
156
Tabela 23 - Estrutura de cobrança referenciada a custos médios com função S1 linear
$ = (a . A -_b) . A + $a . (ta . A)
DADOS DA SIMULAÇÃO
Consumo de água por hectare (ta):0,5 (l/s) = 1,3176 (1000m3/s)
Custo médio da água ($a): 30 (US$/1000m3)
Área com cobrança nula (A): 2,00 (ha)
PARÂMETROS