Lanna-Cap6
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Lanna-Cap6


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ao efeito da estrutura de cobrança proposta no sistema
fundiário da bacia. Devido aos subsídios que os proprietários de pequenas área desenvolvidas obtém po-
derá ser prevista uma tendência à desconcentração fundiária, na medida em que o efeito de cobrança su-
pere em relevância as economias de escala obtidas pelas grandes propriedades.
A cobrança durante períodos de seca intensa, quando as demandas de água somente poderão ser
supridas de forma parcial, também não foram consideradas. Esta questão deve ser criteriosamente anali-
sada devido, entre outros fatores, aos problemas sociais, políticos e econômicos que um sistema de co-
A. Eduardo Lanna (1999) Gestão das Águas
Capítulo 6 - Instrumentos de gestão das águas: cobrança
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brança acarretará quando haja necessidade de se cessar o suprimento ao usuário no meio de uma estação
de cultivo.
Bacia do rio Piracicaba, Capivari e Jundiaí
De acordo com CONEJO (1993) e MAKIBARA (1995) esta bacia tem 11.020 km2 no estado de
São Paulo, representando 91% da área total. Apresenta 75 núcleos urbanos com uma população em 1993
de cerca de 3.500.000 habitantes. A projeção populacional para o ano 2010 é de 5.200.000 habitantes. É a
região hidrográfica com os mais altos índices de desenvolvimento e crescimento demográfico-econômico
do Brasil. A indústria e o comércio são os principais responsáveis pela dinâmica econômica. Existe tam-
bém atividade agrícola, com irrigação, em alguns casos. Atividades destacadas quanto ao potencial polui-
dor são as indústrias químicas e petroquímicas, de celulose e papel, e usinas de açúcar e álcool. A bacia
apresenta sérios problemas de qualidade de água e também de quantidade.
O estudo realizado por CONEJO (1993) nesta bacia estimou a receita gerada e o impacto global
nos pagantes de um sistema de cobrança pelo uso da água concebido para gerar receitas suficientes para
promover a expansão da oferta de água e o tratamento de efluentes. A Tabela 25 condensa os resultados
do estudo. Adotou-se um sistema que cobraria US$ 20 por mil m3 de consumo de água doméstico e para
irrigação e US$ 30 por mil m3 por consumo industrial, e US$ 20 ou US$ 40 por tonelada de DBO5 res-
pectivamente para lançamentos domésticos e industriais. As receitas geradas e o impacto global nos usuá-
rios de água são apresentados. Os impactos são dados em termos de percentuais da produção global de
cada tipo de usuário. Embora não seja medida a disposição a pagar os pequenos percentuais mostram que
o sistema de cobrança não teria grande impacto nos usuários, tomados como um todo.
Em outro estudo (MAKIBARA, 1995) um programa de investimentos foi apresentado para a
bacia tendo por horizonte o ano 2010, com previsão de implantação de sistemas de esgotos, tratamento
de efluentes industriais, de resíduos sólidos, a regularização de vazões e outras atividades afins. Ele atinge
um valor de investimento de US$ 1.255.140.000, com custos anuais de operação e manutenção de US$
59.037.000.
Os usuários a serem onerados com a cobrança seriam: captações urbanas de água, que repre-
sentam 80% da demanda doméstica; captações industriais de água, que representam 90% da demanda in-
dustrial; captações dos irrigantes, representando 50% da demanda deste segmento; 80% das cargas polui-
doras urbanas; 95% das cargas poluidoras industriais; 100% do volume faturado de esgoto urbano, one-
rando a respectiva tarifa.
Outros fatos significativos é que a cidade de Jundiaí é abastecida pelo rio Atibaia, fora da bacia e
que o sistema Cantareira da SABESP promove uma captação nesta bacia para a cidade de São Paulo, com
uma vazão de 31 m3/s.
A base de referência para o sistema de cobrança foram os Custos Incrementais Médios da água
considerando os investimentos estimados para adequá-la às demandas. Adotou-se um período de análise
de 20 anos e taxa de 12% ao ano.
A Tabela 26 apresenta algumas das simulações apresentadas. Supõe-se que a captação da SA-
BESP pelo sistema Cantareira poderia não participar do sistema de cobrança ou participar com 100% do
volume, nos dois extremos. Dois programas de investimento são considerados: apenas o de recuperação
ambiental e todos, incluindo o aumento de disponibilidade de água. Na coluna das captações são apre-
sentados os valores de cobrança aos usuários urbanos, industriais e irrigantes, em US$/1000 m3. Na colu-
na da poluição, apresenta-se o valor de cobrança para efluentes urbanos e industriais, em US$ por 1000
m3 de água fornecida e faturada. A coluna do esgoto público mostra o valor incremental a ser cobrado dos
usuários dos sistema públicos de esgotos. A última coluna apresenta a participação do estado de São Pau-
lo, na forma de subsídios diretos.
Os dez casos analisados correspondem a diferentes alternativas, com menor ou maior número
de pagantes. No caso 1 haveria cobrança apenas dos usuários dos sistemas públicos de esgotos, o que
acarretaria um ônus excessivo, com acréscimo de cerca de 60% na tarifa atual de água (US$ 287 sobre US$
500 /1000 m3). Os casos vão gradualmente acrescentando outros participantes ao sistema de cobrança até
a situação que todos pagam (6 a 10).
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Tabela 25 - Impacto global de um sistema de cobrança pelo uso da água na bacia do rio Piracicaba, SP
Cobrança pelo uso da água bruta Cobrança pela assimilação de esgotos Totais
Setor usuário Consumo
em 1989
(m3/s)
Cobrança
(US$/mil
m3)
Receitas
(106
US$/ano)
Lançamentos
(ton DBO5
/dia)
Cobrança
(US$/ton)
Receita
(106 US$/ano)
Receita total
(106 US$ / ano)
Indicador
(106 US$/ano)
Impacto (1)
(%)
Doméstico 9,1 20 5,7 76 20 5,5 11,2 10.828 (2) 0,10
Industrial 20,4 30 19,3 77 40 11,2 30,5 15.098(3) 0,20
Irrigação 6,1 20 5,8 -- -- -- 5,8 600(4) 0,97
Exportação(5) 31,0 20 19,5 -- -- -- 19,5
Total 66,6 50,3 153 16,7 67,0 -- --
1 Impacto econômico = receita total como porcentagem do indicador econômico; 2 Ingressos comerciais anuais; 3 Valor da produção industrial anual; 4 Valor da
produção agropecuária anual; 5 Para região metropolitana de São Paulo.
Tabela 26 - Simulação da cobrança pelo uso de água na bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí
Captação de água
US$/mil m3
Poluição
US$/ton DBO
Esgoto público
US$/1000 m3
Subsídios do
Estado
106 US$
Caso % cobrada
da SABESP
Programa de in-
vestimentos
Urbana Industrial Irrigação Urbana Industrial
1 -- só esgotos -- -- -- -- -- 287 --
2 50 só esgotos 55 -- -- 327 -- 72 --
3 50 só esgotos 44 57 -- 196 -- 57 --
4 50 só esgotos 44 57 -- 196 139 43 --
5 50 só esgotos 44 57 38 196 139 29 --
6 50 só esgotos 39 47 38 196 139 31 26
7 50 todos 44 63 44 223 150 34 59
8 0 todos 88 63 44 223 150 34 59
9 100 todos 29 63 44 223 150 34 59
10 100 todos 29 63 44 223 150 47 30
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Capítulo 6 - Instrumentos de gestão das águas: cobrança
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No caso 10 o sistema da SABESP paga 100% da água captada e o Estado participa com 30 mi-
lhões de dólares de subsídios. O impacto desta alternativa nos usuários de água é: uso urbano: aumento de
cerca de 6% da tarifa atual; uso industrial: cerca de 13% da tarifa de água do consumidor residencial; irri-
gação: cerca de 2,5% do valor da produção; poluição urbana: aumento de 15% da tarifa atual de esgotos;
poluição industrial: cerca de 10% da tarifa de esgotos urbanos residenciais; parcela atribuída à tarifa nor-
mal de esgotos: acréscimo de cerca de 9%.
Bacia do rio dos Sinos
A simulação do uso de instrumentos de gerenciamento de recursos hídricos nesta bacia, promo-
vida pelo Conselho de Recursos Hídricos/RS (1996), foi referenciada em capítulo anteriro. Além do estu-
do do enquadramento e da outorga foi promovido o estudo da cobrança pelo uso da água (PEREIRA,
1996). Dois tipos de cobrança foram considerados: o preço 3 (uso da água bruta) e o 4 (lançamento de
efluentes). Em qualquer dos casos a motivação da cobrança foi o de arrecadar recursos para os investi-
mentos em medidas mitigadoras da poluição da bacia. Não foi considerada a