Anulação negócio jurídico
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Anulação negócio jurídico


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EXMO. SR. JUIZ DE DIREITO DA ... VARA CÍVEL REGIONAL DA LEOPOLDINA DA COMARCA DA CAPITAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
		TADEU BORGES, brasileiro, separado, comerciante, portador do RG nº 999, CPF nº 123, domiciliado na Rua Cachambi, 77, Méier, Rio de Janeiro, RJ, CEP ..., vem, por meio de seu advogado, com escritório localizado (endereço completo), propor a presente
AÇÃO DE ANULAÇÃO DE NEGÓCIO JURÍDICO 
pelo rito ordinário em face de JEAN TORRES, brasileiro, solteiro, engenheiro, portador do RG nº..., inscrito no CPF sob o nº..., domiciliado na Rua José Chaves, 21, Ramos, Rio de Janeiro,RJ, CEP..., pelos fatos e motivos adiante expostos:
DOS FATOS
		O autor separou-se consensualmente de Mirian Borges em 05/04/2007, sendo certo que nos autos da ação de separação consensual restou acordado o valor dos alimentos mensais a serem pagos a Júlio César Borges, menor impúbere, filho do casal, conforme comprova a certidão de nascimento em anexo.
		Inadimplente das prestações alimentícias desde dezembro de 2008, o autor tomou ciência, no dia 03/02/09, através de sua ex-esposa, de que fora proposta ação de execução de alimentos, tendo sido, inclusive, expedido mandado de prisão em face do demandante, informação esta ratificada pelo seu advogado e comprovada pelo documento em anexo.
		É de se esclarecer que o débito perfaz, hoje, o valor de R$ 9.000,00 (nove mil reais).
		O autor, relatando ao réu, seu amigo, a situação angustiante que o afligia, e demonstrando todo o seu desespero, informou-lhe que o único bem que possuía era um veículo Fiat Siena 2002, avaliado hoje em R$ 28.000,00 (vinte e oito mil), mas que não conseguiria vendê-lo pelo seu valor real de mercado a tempo de realizar o pagamento.
	Diante da angústia do autor, o réu ofereceu-lhe a quantia de R$ 9.000,00 (nove mil reais) pelo veículo e, premido pela necessidade de não se ver preso, o demandante aceitou a proposta, firmando compromisso de compra e venda do veículo, pois seria a única forma de quitar o débito imediatamente.
		Passados alguns dias, após recuperar-se do susto que a decretação de prisão civil lhe causara e refletindo melhor sobre o negócio celebrado, o autor procurou o réu objetivando receber o complemento do valor do veículo, o que foi prontamente recusado pelo comprador.
		Desta feita, transtornado diante da recusa do réu em conferir justo equilíbrio ao negócio celebrado, não restou outra alternativa ao autor senão escudar-se perante o Poder Judiciário. 
	
DOS FUNDAMENTOS
		Como é de curial sabença, o negócio jurídico é todo ato decorrente de uma vontade auto-regulada, onde uma ou mais pessoas se obrigam a efetuar determinada prestação jurídica colimando a consecução de determinado objetivo. Como em todo ato jurídico, os efeitos do negócio jurídico são previamente instituídos pelas normas de direito, porém, os meios para a realização destes efeitos estão sujeitos à livre negociação das partes interessadas, que estabelecem as cláusulas negociais de acordo com suas conveniências, desde que não transgredidos os limites legais.
		Por constituir o impulso criador dos negócios jurídicos, a declaração de vontade deve ser juridicamente eficaz e, para isso, deve ser livre e incondicionada no seu nascimento e correta na sua expressão. 
Todavia, podem ocorrer defeitos no seu processo formativo, no caso de o agente ter falsa noção das pessoas, dos objetos ou dos demais elementos do ato que pratica, ou defeitos na sua declaração, se houver divergência entre o que o agente quer e o que efetivamente declara. A lei considera, ainda, que o fato de estarem presentes determinadas circunstâncias de fato que exerçam notável influência sobre a vontade do agente também implica na formação defeituosa do negócio jurídico.
Inevitável reconhecer que o negócio jurídico do caso concreto encontra-se maculado por um dos defeitos do negócio jurídico, qual seja, a lesão (art. 157, CC). Isso porque, por um lado, celebrou o autor o negócio jurídico sob premente necessidade, assim entendida como o fundado temor de ter sua liberdade cerceada e, por outro lado, aproveitou-se o réu dessa situação de inferioridade em que se colocou a vítima, auferindo lucro desproporcional e anormal. 
Nesse sentido, oportunas as palavras de Sílvio de Salvo Venosa (vol. 2, 2008) sobre a parte prejudicada na lesão: 
\u201cEsse agente perde a noção do justo e do real, e sua vontade é conduzida a praticar atos que constituem verdadeiros disparates do ponto de vista econômico. É evidente que sua vontade está viciada, contaminada por pressões de naturezas variadas\u201d.
Inconteste que, em situações tais, há gritante afronta aos princípios da boa-fé e da função social do contrato (arts. 421 e 422, CC). E, como acertadamente leciona Francisco Amaral (AMARAL, Francisco. Direito Civil Introdução. Ed. Renovar. 2003, p. 371), fere-se, ainda, o princípio da autonomia da vontade, posto que \u201ca lesão faz presumir um vício do consentimento\u201d, e o princípio da justiça contratual, em razão da \u201cdesproporção das prestações\u201d.
		Mister se faz consignar que não se trata, aqui, de ameaçar a segurança jurídica do que foi pactuado mas, sim, de evitar que um contrato gere vantagens exageradas para uma das partes a partir de um sacrifício desproporcional e injusto da outra.
Constatada a configuração do instituto da lesão, não pode ser outro o destino do negócio jurídico celebrado senão o da declaração de anulação (art. 171, II, CC) como comprova o julgado a seguir:
Anulação de escritura pública. Art. 157 do Código Civil. Evidente lesão no negócio jurídico. Autores inexperientes que foram enganados na transferência de área rural para a empresa que formou com o outro sócio. Desproporção evidente entre as prestações recíprocas que configura a lesão, defeito de negócio jurídico que autoriza a anulação. Preço da propriedade que não se comprovou ter sido feito e que foi fixado em valor muito aquém da realidade. Apelante que não comprovou suas alegações. Art. 333, II, do CPC. Sentença de procedência que anulou o negócio jurídico que está correta. Recurso improvido. (Tribunal de Justiça de São Paulo, 4ª Câmara de Direito Privado, Apelação Cível nº 07/08/2008, Relator: Maia da Cunha, Julgado em 15/10/2008)
Por derradeiro, é de se esclarecer que a anulação do negócio jurídico somente não ocorrerá se for oferecido suplemento suficiente, conforme estabelece o art. 157 §2º, CC.
DO PEDIDO
Diante do exposto, requer:
1) A citação do réu;
2) A procedência da presente ação com a conseqüente declaração de anulação do negócio jurídico celebrado entre as partes ou seja o réu condenado a pagar ao autor o valor de R$ 19.000,00 referentes à diferença do valor do veículo;
A condenação do réu ao ônus da sucumbência.
PROVAS
Requer, para provar o alegado, a produção de todos os meios de prova admitidos em direito, na amplitude do art. 332, CPC, especialmente as de caráter documental (art. 397, CPC), bem como o depoimento pessoal do réu, sob pena de confesso (art. 343 caput e §2°, CPC).
VALOR DA CAUSA
Para os efeitos legais e fiscais, dá-se à causa o valor de R$ 28.000,00 (vinte e oito mil reais).
Pede deferimento,
Rio de Janeiro, 06 de março de 2009.
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Advogado OAB/....