Teoria Geral do Processo - FGV
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Teoria Geral do Processo - FGV


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conseguiram explicar 
com que fundamento se provocava a 
atividade do Estado-juiz nos casos em 
que a sentença fosse pela improcedên-
cia do pedido do autor e nem a ação de-
claratória negativa julgada procedente 
se nesta se afi rma inexistência de rela-
ção jurídica. Segundo a teoria abstrata, 
o direito de ação seria aquele capaz de 
provocar a atuação do Estado-juiz. Ação 
é o direito de se obter um provimento 
jurisdicional e todos possuem o direito 
de provocar a atividade jurisdicional.
37 GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMAR-
CO, Cândido Rangel; CINTRA, Antônio 
Carlos de Araújo. Teoria Geral do Pro-
cesso. 14. ed., São Paulo: Malheiros, 
1998, p. 251.
NOTA AO ALUNO
Como visto nas primeiras aulas do curso, a Ciência Processual é relativa-
mente nova,se comparada com outros ramos da Ciência Jurídica, como por 
exemplo o Direito Civil. Assim, os diversos institutos que hoje são analisados 
pelos processualistas eram concebidos de outra forma.
Até meados do século XIX, prevalecia entre os estudiosos do Direito a 
teoria civilista ou imanentista da ação. Esta, era tida como manifestação do 
próprio direito material após sua violação ou como o direito de perseguir em 
juízo aquilo que nos é devido (ius persequendi in judicio quod sib debetur). Esta 
concepção da ação, segundo a qual seria ela uma qualidade de todo o direito, 
levava a inevitáveis conclusões: a) não há ação sem direito; b) não há direito 
sem ação; c) a ação segue a natureza do direito material32. Entre os adeptos 
desta teoria podemos citar o notável Clóvis Beviláqua, um dos idealizadores 
do \ufb01 nado Código Civil de 1916, onde,no art. 75, era possível encontrar a 
seguinte regra: \u201ca todo direito corresponde uma ação, que o assegura\u201d.Neste 
período, onde a ação não tinha conteúdo autônomo, o direito processual 
era visto como mero apêndice do direito privado, característica fundamental 
desta fase sincrética. Vale observar que nessa época também não se visualizava 
uma distinção entre relação jurídica de direito material (ex: credor e dever) e 
relação processual (autor-juiz-réu).
No ano de 1868, o alemão Oskar von Bülov lançou sua obra \u201cTeoria dos 
Pressupostos Processuais e das Exceções Dilatórias (em alemão Die Lehre von 
den Processeinreden und die Processvorausserzungen), onde desenvolveu e 
sistematizou a idéia de que o processo seria uma relação jurídica autônoma. 
Na mesma época, \ufb02 oresceram teorias acerca da natureza do direito de ação, 
tendo a noção imanentista sido superada na segunda metade do século XIX, 
na famosa polêmica Windscheid e Muther.33 Assim, surge a noção de ação 
como um direito autônomo que, encampada com as idéias de Bülow acerca 
do processo, percebeu-se que o destinatário dela é o Estado e não o sujeito 
passivo da relação material e, ademais, seus objetos seriam distintos.
É importante observar que estes dois novos conceitos (processo como re-
lação jurídica e ação autônoma do direito material) foram essenciais para o 
enriquecimento da Ciência Processual ocorrido ao longo do século XX.
Ao longo do desenvolvimento desta fase cientí\ufb01 ca da ciência processual, 
diversas teorias buscaram explicar qual seria a natureza do direito de ação. 
Entre essas, podemos destacar: teoria concretista34, teoria do direito potesta-
tivo de agir35, teoria abstrata do direito de agir36 e teoria eclética da ação37.
Hoje, prevalece em nossa doutrina a denominada \u201cteoria eclética da ação\u201d: 
o direito de ação é tido como existente ainda que o demandante não seja 
titular do direito material que a\ufb01 rma existir. No mais, esta teoria, atribuída a 
Liebman, aponta a existência de categoria estranha ao mérito da causa, que 
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FGV DIREITO RIO 85
38 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. 
Legitimação para agir. Indeferimento 
da petição inicial. In Temas de Direito 
Processual (Primeira Série). São Paulo: 
Saraiva, 2.a ed., 1988, p. 199.
39 JARDIM, Afrânio Silva. Direito Proces-
sual Penal. 8ª ed. Rio de Janeiro: Foren-
se, 1999, p. 99
são as denominada condições da ação, verdadeiros requisitos de exigência do 
direito de agir. Nesse passo, o direito de ação só existe se o autor preencher 
tais requisitos. Esta teoria foi consagrada em nosso Código de Processo Civil, 
art. 267, VI.
Sem embargo, a referida teoria sofreu alguns aprimoramentos ao longo 
do tempo. José Carlos Barbosa Moreira38 a\ufb01 rma que estas condições são, na 
verdade, requisitos do legítimo exercício da ação, e não requisitos de existência 
do direito de ação. Este, é abstrato em sua essência, mas pode ser exercido de 
forma legítima ou abusiva (quando não presentes estes requisitos). Os requi-
sitos, conforme entendimento que prevalece em nossa doutrina, seriam (a) 
legitimação para agir (pertinência subjetiva para propositura da demanda), (b) 
interesse em agir (representado pelo binômio necessidade-adequação) e (c) pos-
sibilidade jurídica do pedido (melhor seria dizer da demanda, haja vista que não 
pode haver proibição no ordenamento de que seja feito determinado pedido 
ou que seja utilizada certa causa de pedir).
No Processo Penal, fala-se ainda em uma quarta condição: a justa causa. 
Em nosso sistema processual penal não se admite ação penal pública ou pri-
vada sem vir acompanhada de um suporte probatório mínimo (justa causa, 
art. 648, inc. I, CPP). De fato, como observa o Prof. Afrânio Silva Jardim, 
\u201ca simples instauração do processo penal já atinge o chamado status dignitatis 
do réu39\u201d. Esse lastro probatório mínimo é fornecido pelo inquérito policial 
ou pelas peças de informação que devem acompanhar a denúncia ou queixa 
(arts. 12,39, parágrafo 5º, e 46, parág. 1º do CPP).
No entanto, é na chamada Jurisdição Coletiva que o assunto deve receber 
especial atenção. Em efeito, foi necessário redimensionar o tradicional con-
ceito de legitimidade para que este fosse compatível com a tutela dos inte-
resses de grupo. Como se nota pela jurisprudência presente nesse material, o 
assunto ainda encontra inúmeras controvérsias em nossos tribunais.
Hoje, o direito de ação deve ser compreendido como verdadeiro direito 
fundamental. Direito fundamental processual, haja vista que, inúmeras ve-
zes, depende a concretização de outros direitos fundamentais como liberdade 
(ex: habeas corpus), educação (ex: mandado de segurança) ou meio-ambiente 
(ex: ação civil pública).
ESTUDO DE CASO:
Caso 1: Carlos \u201cpropõe ação\u201d em face de sua prima Ana, com intento de 
cobrar dívida decorrente de um contrato de mútuo. Conforme exposto por 
Carlos em sua petição inicial, Ana o procurou e pediu emprestado a quantia 
de R$ 40.000,00 para pagamento de delicada cirurgia que iria se submeter.
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Em sua contestação, Ana negou a existência do contrato. Após longa ins-
trução probatória, com a oitiva de diversas testemunhas, o juiz concluiu que 
o mútuo, na verdade, fora feito com Maria, irmã da Ana. Ficou claro, segun-
do as provas presentes nos autos, que Carlos optara por demandar Ana em 
razão da melhor condição \ufb01 nanceira desta e também pelo fato dela ter sido 
a bene\ufb01 ciada pelo tratamento, ainda que Ana não soubesse da existência do 
mútuo realizado por sua irmã (Maria) para lhe ajudar.
Deve o juiz julgar extinto o processo, sem resolução de mérito, por ilegi-
timidade passiva?
Caso nº 2:
\u201cRosana e José Roberto deixaram Bauru, interior de São Paulo, para ganhar a 
vida no Rio de Janeiro, no início dos anos 90. Perseguiam um sonho de consumo: 
morar perto da praia, ou \u201cbeijando o mar\u201d, como ela gosta de dizer. O casal se encan-
tou com o apartamento número 1507 do Edifício Palace II, erguido em área nobre 
da Barra da Tijuca. Os dois juntaram economias e, em 1996, investiram R$ 115 
mil na compra do imóvel \u201ccom vista eterna\u201d, como propagava a construtora Sersan. 
Dois anos depois, o sonho estava literalmente no chão. A família de Rosana e José 
Roberto
Luiz
Luiz fez um comentário
2010
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Iran
Iran fez um comentário
Hoje é domingo, preciso sair, volto amanhã para aproveitar muito desse precioso trabalho do Passei Direto. TGP é a espinha dorsal da atividade processual. Valeu.
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ELYELSON
ELYELSON fez um comentário
Muito obrigado pela Divina Nobreza da sua parte.
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denys
denys fez um comentário
ótima apostila!
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Carolina
Carolina fez um comentário
mto bom!!!
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