Teoria Geral do Processo - FGV
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prática de injustiças graves.
Por tudo isso, mas também por um fator positivo que é o aumento da 
consciência de direitos, resultante da multiplicação de organizações comuni-
tárias e do trabalho de divulgação e esclarecimento realizado por militantes 
dos Direitos Humanos, cresceu muito no Brasil, nos últimos anos, a neces-
sidade de advogados que dêem apoio às camadas mais pobres da população, 
prestando informações, aconselhando, promovendo o acesso aos direitos ou 
a defesa dos direitos que estiverem sendo negados ou ofendidos. Foi preci-
samente para isso, para tornar efetivos os direitos assegurados a todos pela 
Constituição e pelas leis do País, que o constituinte de 1988 decidiu criar a 
Defensoria Pública, declarando-a \u201cinstituição essencial à função jurisdicio-
nal do Estado\u201d e dando-lhe a incumbência de fornecer orientação jurídica 
e de promover a defesa dos direitos dos necessitados. Para dar mais força às 
Defensorias Públicas, a Constituição assegurou-lhes autonomia funcional e 
administrativa, o que lhes dá a possibilidade de agir sem sofrer interferências 
ou coação.
Um passo importante já foi dado, com a criação das Defensorias. É preci-
so agora que elas sejam tratadas como serviços essenciais, que as Defensorias 
Públicas tenham efetiva independência, número su\ufb01 ciente de Advogados e 
instalações condizentes com suas responsabilidades e necessidades, para que 
cumpram com e\ufb01 ciência suas relevantes funções sociais.
Esses temas serão tratados no V Congresso Nacional de Defensores Públi-
cos, que acontece entre 30 de agosto e 2 de setembro, em São Paulo. Como 
é lógico e evidente, um direito só existe realmente quando pode ser usado. 
O desconhecimento dos direitos e a impossibilidade de usá-los ou defendê-
los afetam gravemente a situação social das pessoas e facilitam ou estimulam 
ofensas à dignidade humana e impedem a criação de uma sociedade justa.
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Anexo IV: Polêmica sobre a independência funcional dos membros da magistratura. 
Artigo publicado na revista eletrônica Consultor Jurídico, 30.11.2006.
Beija-mão jurídico
Juízes ainda têm de pedir bênção aos escalões superiores
por Rogério Medeiros Garcia de Lima
Não renego o orgulho por ter abraçado a carreira da magistratura. Em 
meio às crises que assolam os Poderes constituídos, sobressai o Judiciário 
como o mais imaculado dentre eles. Os episódios de corrupção, que envol-
vam juízes e servidores, são estatisticamente bastante inferiores aos veri\ufb01 ca-
dos no âmbito do Executivo e Legislativo, em todas as esferas federativas. 
Têm sido rotineiramente apurados e punidos.
Ives Gandra da Silva Martins já escreveu \u201cPoder Judiciário, o Poder Uni-
versitário e as Forças Armadas na Revisão Constitucional\u201d, in A Reengenha-
ria do Estado Brasileiro, Editora RT, 1995, p. (121):
\u201cDos três poderes, de longe, o melhor é o Poder Judiciário. É um poder téc-
nico e não político. É um poder que fala nos autos e não pela imprensa. É um 
poder em que a seleção de seus componentes se faz em demorados concursos, à 
luz dos conhecimentos jurídicos do candidato e de sua idoneidade\u201d.
Os juízes brasileiros trabalham arduamente. A dedicação insana a milhares 
e milhares de processos sob suas jurisdições não propicia tempo para re\ufb02 eti-
rem sobre si próprios. Não percebem a contradição entre o poder externo e o 
poder interno de que desfrutam.
Desde que ingressei na carreira da magistratura, há 17 anos, senti o res-
peito que usufrui o juiz de Direito nas comunidades. A legislação nos atribui 
enorme gama de poderes para desempenharmos o árduo mister jurisdicional. 
Julgamos autoridades integrantes dos Poderes Executivo e Legislativo, pode-
rosos agentes econômicos e grandes proprietários rurais.
Exercemos poder de Polícia nas audiências, para concitar à ordem as par-
tes e advogados. Mandamos conduzir coercitivamente testemunhas recalci-
trantes. A nossa poderosa caneta pode assinar decretos de prisão, seqüestro de 
bens e separação de corpos.
Todavia, somos \ufb01 guras diminutas perante as instâncias superiores. Para 
disputarmos promoções por merecimento ou mesmo uma singela remoção, 
temos de nos submeter ao famoso \u201cbeija-mão\u201d perante os ilustres desembar-
gadores integrantes dos órgãos especiais.
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Não é franqueada aos juízes de primeiro grau a participação em delibera-
ções administrativas dos tribunais. O humorista José Simão criou anedota, 
segundo a qual o marido traído é o penúltimo a saber. O último a saber 
passou a ser uma famosa autoridade da República. Na verdade \u2014 diriam os 
magistrados \u2014 o desditoso cônjuge é o antepenúltimo a ter ciência. O pe-
núltimo é a citada autoridade brasileira. O último a saber das coisas é o juiz 
das instâncias inferiores.
Recentemente, vários magistrados atuaram nas eleições para presidente da 
República, governadores, senadores e deputados. Enquadraram diversos po-
líticos nos rigores da legislação eleitoral. Da atuação enérgica da magistratura 
decorreu a sucumbência, nas urnas, de notórios e ultrapassados \u201ccoronéis\u201d 
regionais. A Justiça Eleitoral age para assegurar aos eleitores o voto livre e 
consciente.
Mas, diz o ditado, \u201ccasa de ferreiro, espeto de pau\u201d. No âmbito dos tribu-
nais, os juízes de primeira instância ainda têm de \u201cpedir bênção\u201d aos escalões 
superiores. Não podem escolher os dirigentes dos tribunais. Não lhes é garan-
tido o elementar direito à informação sobre a administração institucional. Os 
leões, aos olhos da sociedade, são frágeis camundongos, aos olhos das cúpulas 
judiciárias.
Eugenio Raúl Za\ufb00 aroni, hoje juiz da Suprema Corte da Argentina, apon-
tou as mazelas (in Poder Judiciário \u2014 Crises, Acertos e Desacertos, Editora 
RT, trad. Juarez Tavares, 1995, pp. 88/89):
\u201cA lesão à independência interna costuma ser de maior gravidade do que a 
violação à própria independência externa. (...) Os corpos colegiados exercem 
uma ditadura interna e se divertem aterrorizando seus colegas. Abusam de seu 
poder cotidiano. Através desse poder vertical, satisfazem seus rancores pessoais, 
cobram dos jovens suas frustrações, rea\ufb01 rmam sua titubeante identidade, desen-
volvem sua vocação para as intrigas, desprendem sua egolatria etc., morti\ufb01 cando 
os que, pelo simples fato de serem juízes de diversa competência, são considera-
dos seus \u2018inferiores\u2019. Deste modo, desenvolve-se uma incrível rede de pequenez 
e mesquinharias vergonhosas\u201d.
Desse quadro desalentador, resulta uma classe intrinsecamente desunida. 
Infelizmente, a maioria dos magistrados está mais preocupada com interesses 
pessoais imediatos. A ausência de critérios na promoção por merecimento cria o 
\u201ca\ufb01 lhadismo\u201d entre desembargadores e juízes. Estes últimos necessitam lisonjear 
freqüentemente os primeiros. Ao nível da primeira instância, o convívio entre 
juízes não é nada solidário. Veri\ufb01 ca-se permanente por\ufb01 a de vaidades pessoais: é 
a cultura da rivalidade entre potenciais adversários nas futuras promoções. Se o 
colega estiver em apuros com algum noticiário negativo, mesmo injusto, tanto 
melhor. Menos um concorrente na corrida rumo à toga de desembargador.
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Maquiavel, em O Príncipe, ensinou que o governante não precisa possuir 
todas as qualidades recomendáveis a um chefe de Estado. Basta que aparente 
possuí-las. Os juízes tendem a se tornar maquiavélicos nesse sentido. Mais do 
que em ter as qualidades do bom magistrado, estarão preocupados em apa-
rentar possuí-las. Por exemplo, realizam obras suntuosas em prédios forenses, 
promovem festas feéricas ou se apegam ao recebimento de comendas e con-
decorações, em busca de notícias elogiosas na mídia. Muitas vezes a e\ufb01 ciente 
prestação jurisdicional \ufb01 ca ao largo de tanto aparato.
Eis in\ufb02 uência bastante nociva na administração da justiça. Preteridos in-
justamente
Luiz
Luiz fez um comentário
2010
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Iran
Iran fez um comentário
Hoje é domingo, preciso sair, volto amanhã para aproveitar muito desse precioso trabalho do Passei Direto. TGP é a espinha dorsal da atividade processual. Valeu.
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ELYELSON
ELYELSON fez um comentário
Muito obrigado pela Divina Nobreza da sua parte.
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denys
denys fez um comentário
ótima apostila!
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Carolina
Carolina fez um comentário
mto bom!!!
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