Indenizatória CDC com tutela
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Indenizatória CDC com tutela


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EXMO. SR. JUIZ DE DIREITO DO .... JUIZADO ESPECIAL CÍVEL DA COMARCA DE NOVA IGUAÇU \u2013 RJ
CEZAR ROBERTO, 63 anos, (nacionalidade), (estado civil), aposentado, portador do RG nº ....., inscrito no CPF sob o nº ....., residente na Rua Pirapora, nº88, casa, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, RJ, CEP ....., vem propor a presente
AÇÃO INDENIZATÓRIA COM PEDIDO DE TUTELA ANTECIPADA
pelo rito especial da Lei 9.099/95, em face de CEDAE - COMPANHIA DE ÁGUAS E ESGOTOS DO RIO DE JANEIRO, inscrita no CNPJ sob o nº ......, estabelecida na Rua Debret, nº121, Centro, Rio de Janeiro, RJ, CEP....., pelos fatos e motivos adiante expostos:
DA PRIORIDADE NO TRÂMITE DA AÇÃO 
Mister se faz consignar, a priori, que se encontra acostado aos presentes autos documento probatório de que o autor conta com mais de sessenta anos e, por esse motivo, nos termos do art. 71 da Lei n. 10.741/2003 \u2013 Estatuto do Idoso, goza de prioridade na tramitação do feito.
DOS FATOS
A despeito de ser pessoa de baixa renda, aposentado pelo INSS, percebendo mensalmente 1 (um) salário mínimo e possuindo gastos com medicamentos devido a problemas de saúde, o autor sempre honrou com o pagamento de suas faturas de água.
Contudo, em XX/XX/2009 o autor foi surpreendido com a visita de um representante da empresa ré, o qual alegou falta de pagamento de algumas contas referentes ao ano de 1995, razão pela qual teria que efetuar a interrupção do fornecimento de água em sua residência, caso o pagamento não fosse imediatamente efetuado.
O valor cobrado pela ré na ocasião era de R$ 550,00 (quinhentos e cinqüenta reais), referente às contas de janeiro, fevereiro e março de 1995, período em que o autor nem mesmo residia no local, fato este comprovado pela cópia da certidão do registro de imóveis competente em anexo, na qual se constata que o imóvel somente foi adquirido em 2002.
Por se tratar de contas com mais de 10 anos, o autor solicitou ao representante da ré um prazo para que pudesse averiguar, perante a antiga proprietária do imóvel, a efetiva procedência das alegadas dívidas não pagas. Contudo, o funcionário foi taxativo, afirmando que se não fosse realizado o pagamento imediato, a suspensão do fornecimento de água seria efetivada naquele instante.
Ainda visando evitar a suspensão do fornecimento de água, o autor procurou arguir sua hipossuficiência econômica, entretanto, o funcionário foi inflexível e procedeu à interrupção dos serviços da empresa.
Como não podia ficar sem água, o autor viu-se compelido a contrair um empréstimo para quitar sua suposta dívida com a ré. Entretanto, mesmo tendo efetuado o pagamento das faturas em XX/XX/2009, até a presente data, ou seja, há mais de 15 (quinze) dias, a ré não efetuou o restabelecimento do serviço.
Não bastasse o empréstimo contraído, o autor ainda foi obrigado a desembolsar mais R$ 80,00 (oitenta reais), referentes a 2 (dois) carros-pipa.
Diante do exposto, não restou outra alternativa ao autor senão escudar-se perante o Poder Judiciário.
DOS FUNDAMENTOS	
4.1 DA INEGÁVEL APLICAÇÃO DO CDC AO CASO EM VOGA
Indubitavelmente, a hipótese dos autos retrata uma relação de consumo, posto que, conforme se depreende da leitura do art. 3º caput e §2º da Lei 8.078/90, a ré constitui fornecedora que desenvolve atividade de prestação de serviços referentes ao produto \u201cágua\u201d, sendo o autor usuário final, nos termos do art. 2º da legislação consumerista.
A jurisprudência é sólida nesse sentido:
SERVIÇO PÚBLICO. FORNECIMENTO DE ÁGUA. RELAÇÃO DE CONSUMO. MULTA DE MORA. PERCENTUAL. 
A prestação do serviço público de água está sujeita às normas do Código de Defesa do Consumidor. 
A multa pelo inadimplemento não pode superar o limite previsto no artigo 52, § 1º, do CDC. 
Negado seguimento ao recurso. 
(destaque nosso)
(Apelação Cível Nº 70024567943, Vigésima Segunda Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Maria Isabel de Azevedo Souza, Julgado em 26/06/2008)
Assim, por se tratar de relação de consumo, são invocáveis todos os princípios inerentes ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor, cujas normas têm caráter de ordem pública e interesse social (art. 1º), inderrogáveis pela vontade das partes. 
A esse respeito, é de se consignar a violação, no presente caso, de dois dos princípios norteadores das relações de consumo, a saber: o princípio da vulnerabilidade do consumidor e o da boa-fé objetiva.
No tocante ao princípio da vulnerabilidade do consumidor, insculpido no art. 4º, I da Lei 8.078/90, importa rememorar que o referido princípio, com vistas a assegurar a eqüidade e a justiça contratual, caracteriza o consumidor como ente vulnerável técnica, econômica e faticamente, sendo uma premissa básica o justo e equânime estabelecimento das relações de consumo. 
Assim é que a interrupção do fornecimento de água pela prestadora de serviço em razão do inadimplemento do consumidor configura-se como ato gritantemente arbitrário quando efetivada sem qualquer notificação prévia e sem que sejam assegurados o direito ao contraditório e à ampla defesa. Em tais circunstâncias, não há dúvidas de que o usuário do serviço, já vulnerável técnica, econômica e faticamente, é conduzido também às vulnerabilidades psíquica e física.
Do princípio da boa-fé objetiva, positivado no art. 4º, III do CDC, depreende-se a idéia de respeito, cooperação e lealdade que deve reger as relações contratuais, o que implica na imprescindibilidade do respeito às legítimas expectativas despertas na outra parte co-contratante. 
Em se tratando de contrato de fornecimento de água, o precitado princípio reporta ao padrão de comportamento que o consumidor espera da empresa fornecedora, qual seja, o cumprimento do princípio da continuidade do serviço, haja vista sua natureza de serviço público essencial.
4.2. DA ESSENCIALIDADE DO SERVIÇO PÚBLICO 
Cumpre salientar, ab initio, que o fornecimento de água é serviço público delegado nos termos do art. 175 da Constituição Federal. 
É de se notar, ainda, que o art. 10 da Lei 7783/89, enquadra o serviço público de tratamento e abastecimento de água como serviço essencial, sujeito ao princípio da continuidade do serviço público, insculpido no art. 22, Código de Defesa do Consumidor. 
Com efeito, considerando que a água potável é elemento essencial à boa qualidade de vida do ser humano, inconteste o caráter essencial do serviço público prestado pela concessionária-ré e, portanto, inconcebível a interrupção do seu abrupto fornecimento e ilegal o ato praticado pela concessionária.
A esse respeito, bem apropriados são os escólios de João Sardi Júnior (Princípio da Continuidade no Serviço Público. Disponível na internet: http://www.artigos.com/artigos/sociais/direito/principio-da-continuidade-no-servico-publico-1471/artigo. Acesso em 16 de março de 2009.): 
\u201c... ao interromper o fornecimento de um serviço público essencial pela prestadora não estará ela ferindo tão somente o artigo 22 (...) do Código de Defesa do Consumidor, estará ela desrespeitando a nossa Carta Magna pois nos incisos LIV e LV do artigo 5º (...), está expresso que nenhum cidadão será privado de seus bens sem o devido processo legal...\u201d 
Tal entendimento possui respaldo jurisprudencial, conforme se depreende da ementa do julgado a seguir:
MANDADO DE SEGURANÇA. CORTE DE FORNECIMENTO DE ÁGUA. ABUSIVIDADE. SERVIÇO ESSENCIAL. O fornecimento de água é serviço essencial que deve ser contínuo e não pode sofrer corte, ainda que haja falta de pagamento. O débito deve ser cobrado pelas vias judiciais, impondo-se reconhecer o direito líquido e certo do impetrante em receber o fornecimento de água, posto ser-lhe necessário à própria vida. Apelação não provida. Unânime (destaque nosso)
(TJDF - APC nº 19990110461302 - 1ª T.Civ. Rel. Des. Maria Beatriz Parrilha - DJU 14.08.2002 - p. 40)
ADMINISTRATIVO. RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. AUSÊNCIA DE PAGAMENTO DE TARIFA DE ÁGUA. INTERRUPÇÃO DO FORNECIMENTO. CORTE.
IMPOSSIBILIDADE. ARTS. 22 E 42 DA LEI Nº 8.078/90 (CÓDIGO DE PROTEÇÃO E DEFESA DO CONSUMIDOR). ENTENDIMENTO