Técnicas argumentativas
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Técnicas argumentativas


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^ íngoVoese 
2. PM: Todo político c corrupto e clave ser condenado.9 
PM: Ora, João é político. 
Tese: Logo, João deve ser condenado. 
Observe-se que, quando a PM é de cunho ideológico (como, por 
exemplo, em outros enunciados, tais como Todo homem é infiel por natu-
reza, A mulher é inferior ao homem, O branco 6 superior ao negro etc), 
as dificuldades de sustentação da tese se localizam em fazer passar por 
veross ími l a P M , o que v em determmadas circunstâncias históricas e c u l -
funrrs, pode ser mais ou menos difícil. 
A escolha de uma presunção jurídica como PM também pode 
orientar a argumentação, como nos casos em que é importante reforçar a 
relação entre qualidade do ato é qualidade do caráter do autor, ou quando 
o argumentador que, atuando ria defesa, busca valer-se das vantagens da 
dúvida parabeneficiar o acusado. 
Na argumentação jur íd ica , realizam-se, pois, após a estruturação 
do silogismo - e que i n c l u i a escolha das referências - que servirá de* 
r**. ápoío , várias atividades (especialmente de parafrasageni e de definição) 
\u2022 ; nue podem $er mais insistentes e trabalhosas ora num, ora em outra parte 
4o rac ioc ín io , compreendendo ora a construção de uma versão verossímil , 
(para o que se recorre a provas, Indícios e técnicas argumentativas), ora a 
V> uti l ização de técnicas argumentativas apropriadas, além da alocação de 
estratégias cujos efeitos intetVirão no estabelecimento das melhores con-
d ições de sucesso. 
Enfim, resumindo: o silogismo orienta a estruturação lógica do 
raciocínio, fixando uma combinação de lugares e relações entre as partes 
de modo que haja coerência, cõegão e congruência, ou seja, o modelo 
lógico é orientação para a sustentação de uma jus t i f ica t iva , para o que é 
fundamental ter argumentos que produzam os efeitos desejados. 
Quando, porgm, as provas e os indícios que se referem ao fato 
em julgamento forem insuficientes para a construção da versão desejada, 
como se pode alocar os argumentos necessários à sustentação dt? jra lese'* 
O enunciado de cunho ideológico sempre revela uma generalização,,ft?2 -;u v : * q i b « A r 
uTodopolítico é corrupta' deveria \u2014 pnntnttò sef ídèoíógíco - tomar r '-: tf>..^ 
político que é corrupto". 
TÉCNICAS A R G U M E N T A T I V A S 
Entende-se por técnica argumentativa a produção de argumen¬
tos que tomam como orientação não o que é pertinente ao fato em avalia¬
ção, mas, relações lóg icas , circunstâncias e situações de outras esferas das 
atividades humanas e que, por pressuposição, têm condições para exer¬
cer força de convencimento: é quase comp se as técnicas argumentativas 
representassem um recurso que empresta prestígio e valores duma deter¬
minada prática para transformá-los em argumentos - no caso do Di re i to -
ju r íd icos . 
Ass im, por exemplo, considera-se como verdadeiro, dentro da 
lógica, que, se a = b t então t ambém é verdade que b = a\ ou, então, se a 
= b e b = c, então, a = c. Os efeitos que produzem os dois tipos de rela¬
ções lógicas (reciprocidade e transitividaçle) serão aproveitados, devido 
ao prestígio que tem o saber lóg ico , pela argumentação jur ídica, especial-
mente no caso de fragilidade de provas e indícios: a.construção de uma 
versão que interesse à sustentação da tese requer a substituição das i n -
cógnitas a, b e c por valores que serão trabalhados como se pudessem 
estabelecer as mesmas relações lógicas. Mais : as inferências e as dedu¬
ções que resultam das propriedades que têm as relações lógicas serão uti¬
lizadas e aplicadas-aos valores sociais c aceitas como argumentos'impor-
tantes no julgamento jur ídico. 
Outras técnicas para produzir argumentos, e que podem servir 
de exemplo ilustrativo para explicar o processo, são as que buscam apoio, 
quer seja no pressuposto de que o ponto de vista da pessoa de prestígio 
social é importante, quer seja na concepção de que a compàYação de fatos 
pode ajudar a interpretar e julgá-los melhor, quer seja, ainda, na definição 
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da importância da história, da educação e das e m o ç õ e s na conduta dos 
ind iv íduos etc. 
As técnicas podem, pois, ser consideradas recursos que se j u s t i -
f i c am a partir de pressuposições que devem ter aceitação acadêmica e/ou 
social , o que, no D i r e i t o , se toma por demais importante e sublinha o cui¬
dado que o argumentador deve ter na escolha dá técnica e das estratégias 
interativas que visam a estabelecer um acordo acerca das pressuposições 
subentendidas nos argumentos produzidos e ut i l izados . 
Em outras palavras, a construção da versão de um fato jurídico 
pode, quando apoiada em provas e indícios frágeis, valer-se de técnicas 
argumentativas, o que, na verdade, não envolve, num pr imeiro plano, o 
que está sendo ju lgado e permite dizer que provas e indícios são argu¬
mentos produzidos através da pesquisa e da interpretação do fato, ao 
contrário dos argumentos que são resultado das técnicas argumentativas e 
que apenas são aceitos como tais devido à pressuposição de que os "em-
p r é s t i m o s " são possíveis e úteis. 
A argumentação jurídica, embora d i f i r a dos conteúdos dos racio¬
cínios formais, busca pois, aproximar-se ou orientar-se por eles porque se 
pressupõe que a coerência, a coesão e a Acongruência possam c o n t r i b u i r 
com o poder de convencimento, de forma que, por. exemplo, na argu-
mcotaçSO jurídica, *Qucm crítica i{m argumento tenderá a pretender que 
o que tem à sua frente depende da lógica; a acusação de cometer uma 
falta de lógica é, em geral, por sua vez, uma argumentação quase-lógica. 
A pessoa se prevalece, com essa acusação, do prestígio do raciocínio 
rigoroso". (PERELMAN, 1996 a, p. 220) 
No presente trabalho, a distinção entre argumentos lógicos e 
quase- Iógicos que faz Perelman nãô receberá, p o r é m , considerações mais 
demoradas, porquanto se entende cjUe, na prática jurídica, especialmente 
quando se trata de valores, isso se toma bastante complexo, precisamente 
porque a argumentação jurídica, onde o objetivo não é nem demonstrar, 
nem descobrir verdades ou testar hipóteses, mas j u s t i f i c a r teses, pode 
ser caracterizada, em grandes traços» sempre como quase-lógica. 
O que importa, todavia, é observar que um raciocínio jur ídico, 
para poder usufruir do prestígio do. rigor lóg ico , precisa adotar procedi¬
mentos que deverão dar consistência e c red ib i l idade à prática, e Que po¬
dem ser de diferentes níveis: 
1. realizar interpretações que sejam aceitáveis e defensáveis, o 
que exige do argumentador um sistema de referência competente e 
abrangente; 
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2. procurar controlar a heterogeneidade lingüística, o que exige, 
por sua vez, habilidades do argumentador para definições c delimitações 
dos sentidos das palavras; 
3. adotar um modelo lógico como orientação. 
O estudo, pois, de diferentes técnicas argumentativas que po¬
dem ser úteis à prática jur íd ica enfatizará sempre os aspectos relaciona¬
dos à atividade lingüística e à orientação lógica, e destaca os seguintes: 
4.1 O A R G U M E N T O D A C O E R Ê N C I A 
Esse pr imeiro tipo de técnica vale-se do prestígio cio rigor lógi¬
co e requer, por isso, uma atividade intensa com e sobre a linguagem -
mais precisamente, de controle e de delimitação dos sentidos - para, as¬
sim, ut i l izar a coerência como argumento. 
A coerência - como já se enfatizou - é uma qualidade considera¬
da imprescindível a qualquer argumentação, pois não se aceita a contradi¬
ção dentro de um raciocínio, ou seja, não se deve afirmar algo e depois as¬
sumir uma outra idéia que negue a primeira afirmação. Para manter a coe¬
rência e utilizá-la como argumento, é preciso que se assuma um compro¬
metimento com uma referência socialmente aceita e tomá-la como orienta¬
ção rigorosa para a produção de sentidos que não apresentem contradições. 
E isso tem seus motivos: o prestígio do rigor lógico leva a que a 
contradição possa ser interpretada, uma vez, como falta de convicções 
claras e incapacidade