DJi - Conceito  Concepção  Função Ético-Social e Objeto do Direito Penal ou Criminal
25 pág.

DJi - Conceito Concepção Função Ético-Social e Objeto do Direito Penal ou Criminal


DisciplinaDireito Penal I67.302 materiais1.085.798 seguidores
Pré-visualização10 páginas
tem
reconhecido a tese da exclusão da tipicidade nos chamados delitos de
bagatela, aos quais se aplica o princípio da insignificância, dado que à lei
não cabe preocupar-se com infrações de pouca monta, insuscetíveis de
causar o mais ínfimo dano à coletividade (Nesse sentido: REsp 234.271,
ReI. Min. Edson Vidigal, DJU, 8-5-2000, p. 115; REsp 235.015, ReI.
Min. Edson Vidigal, DJU, 8-5-2000, p. 116.).
 Na hipótese de crime de descaminho de bens, em que o débito
tributário e a multa não excederem determinado valor, a Fazenda Pública
se recusa a efetuar a cobrança em juízo, nos termos da Lei n. 9.579/97,
sob o argumento de que a irrisória quantia não compensa a instauração
de um executivo fiscal, o que levou o Superior Tribunal de Justiça a
considerar atípico o fato, por influxo do princípio da insignificância (Cf.
STJ, 5ª Turma, REsp 287.770, ReI. Min. Gilson Dipp, DJU, 8-5-2000,
p. 118; 6ª Turma, REsp 285.728, ReI. Min. Vicente Leal, DJU, 8-5-
2000, p. 173) De acordo com o art. 20 da Lei n. 10.522, de 19 de julho
de 2002, as execuções fiscais da União de débitos iguais ou inferiores a
R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais) serão arquivadas pela
Procuradoria da Fazenda Nacional, sem cobrança, dada a insignificância
do valor da dívida. Com isso, entendemos que referido montante passou
a servir de parâmetro para se considerar atípica a sonegação fiscal de até
R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais) (Atualmente, esse valor sofreu
nova modificação, de forma que serão arquivados os autos das
execuções fiscais de débitos inscritos como Dívida Ativa da União
inferiores a R$ 10.000,00 (dez mil reais) (cf. art. 20 da Lei n.
10.522/2002, com a redação determinada pela Lei n. 11.033/2004).
Mantido o raciocínio, atualmente, a sonegação fiscal de até R$
10.000,00 (dez mil reais) passa a ser atípica, em face do princípio da
insignificância.).
 Não se pode, porém, confundir delito insignificante ou de bagatela com
crimes de menor potencial ofensivo. Estes últimos são definidos pelo art.
61 da Lei n. 9.099/95 e submetem-se aos Juizados Especiais Criminais,
sendo que neles a ofensa não pode ser acoimada de insignificante, pois
possui gravidade ao menos perceptível socialmente, não podendo falar-se
em aplicação desse princípio.
 O princípio da insignificância não é aplicado no plano abstrato.
 Não se pode, por exemplo, afirmar que todas as contravenções penais
são insignificantes, pois, dependendo do caso concreto, isto não se pode
revelar verdadeiro. Andar pelas ruas armado com uma faca é um fato
contravencional que não pode ser considerado insignificante. São de
menor potencial ofensivo, submetem-se ao procedimento sumaríssimo,
beneficiamse de institutos despenalizadores (transação penal, suspensão
condicional do processo etc.), mas não são, a priori, insignificantes.
 Tal princípio deverá ser verificado em cada caso concreto, de acordo
com as suas especificidades. O furto, abstratamente, não é uma bagatela,
mas a subtração de um chiclete pode ser. Em outras palavras, nem toda
conduta subsumível ao art. 155 do Código Penal é alcançada por este
princípio, algumas sim, outras não. É um princípio aplicável no plano
concreto, portanto.
 Com relação à aplicação desse princípio, nos crimes contra a
administração pública, não existe razão para negar incidência nas
hipóteses em que a lesão ao erário for de ínfima monta. É o caso do
funcionário público que leva para casa algumas folhas, um punhado de
clips ou uma borracha, apropriando-se de tais bens. Como o Direito
Penal tutela bens jurídicos, e não a moral, objetivamente o fato será
atípico, dada a sua irrelevância. No crime de lesões corporais, em que se
tutela bem indisponível, se as lesões forem insignificantes, como mera
vermelhidão provocada por um beliscão, também não há que se negar a
aplicação do mencionado princípio.
 Finalmente, a insignificância nos delitos patrimoniais não leva em conta
a capacidade econômica do ofendido, mas o valor do bem em si mesmo.
Assim, o furto de um automóvel jamais será insignificante, mesmo que,
diante do patrimônio da vítima, o valor seja pequeno quando cotejado
com os seus demais bens.
b) Alteridade ou transcendentalidade: proíbe a incriminação de atitude
meramente interna, subjetiva do agente e que, por essa razão, revela-se
incapaz de lesionar o bem jurídico. O fato típico pressupõe um
comportamento que transcenda a esfera individual do autor e seja capaz
de atingir o interesse do outro (altero).
 Ninguém pode ser punido por ter feito mal só a si mesmo.
Não há lógica em punir o suicida frustrado ou a pessoa que se açoita, na
lúgubre solidão de seu quarto. Se a conduta se esgota na esfera do
próprio autor, não há fato típico.
 Tal princípio foi desenvolvido por Claus Roxin, segundo o qual "só
pode ser castigado aquele comportamento que lesione direitos de outras
pessoas e que não seja simplesmente pecaminoso ou imoral. À conduta
puramente interna, ou puramente individual - seja pecaminosa, imoral,
escandalosa ou diferente -, falta a lesividade que pode legitimar a
intervenção penal" (Nilo Batista).
 Por essa razão, a autolesão não é crime, salvo quando houver intenção
de prejudicar terceiros, como na auto-agressão cometida com o fim de
fraude ao seguro, em que a instituição seguradora será vítima de
estelionato (CP, art. 171, § 2º, V).
No delito previsto no art. 16 da Lei n. 6.368/76 - Art. 28, Crimes e
Penas - Atividades de Prevenção do Uso Indevido, Atenção e
Reinserção Social de Usuários e Dependentes de Drogas - Sistema
Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas - Sisnad - Medidas para
Prevenção do Uso Indevido, Atenção e Reinserção Social de Usuários e
Dependentes de Drogas - Normas para Repressão à Produção não
Autorizada e ao Tráfico Ilícito de Drogas - Crimes - L-011.343-2006,
poder-se-ia alegar ofensa a este princípio, pois quem usa droga só está
fazendo mal a própria saúde, o que não justificaria uma intromissão
repressiva do Estado (os drogados costumam dizer: "se eu uso droga,
ninguém tem nada a ver com isso, pois o único prejudicado sou eu").
 Tal argumento não convence.
 A Lei n. 6.368/76 - revogada - L-011.343-2006 não tipifica a ação
de "usar a droga", mas apenas o porte, pois o que a lei visa é coibir o
perigo social representado pela detenção, evitando facilitar a circulação
da substância entorpecente pela sociedade, ainda que a finalidade do
sujeito seja apenas a de uso próprio. Assim, existe transcendentalidade
na conduta e perigo para a saúde da coletividade, bem jurídico tutelado
pela norma do art. 16.
Interessante questão será a de quem consome imediatamente a
substância, sem portá-Ia por mais tempo do que o estritamente
necessário para o uso. Nesta hipótese o STF decidiu: "não constitui delito
de posse de droga para uso próprio a conduta de quem, recebendo de
terceiro a droga, para uso próprio, incontinenti a consome" (STF, 1ª
Turma, HC 189/SP, j. 12-12-2000, DJU, 9-3-2001, p. 103, Phoenix n.
14, maio/2001, órgão informativo do Complexo Jurídico Damásio de
Jesus.). Neste caso não houve detenção, nem perigo social, mas
simplesmente o uso. Se houvesse crime, a pessoa estaria sendo castigada
pelo Poder Público, por ter feito mal à sua saúde e a de mais ninguém.
Não se pode confundir a conduta de portar para uso futuro com a de
portar enquanto usa. Somente na primeira hipótese estará configurado o
crime do art. 16 da Lei de Tóxicos - Art. 28, L-011.343-2006. Quem
detém a droga somente durante o tempo estritamente necessário em que
a consome limita-se a utilizáIa em prejuízo de sua própria saúde, sem
provocar danos a interesses de terceiros, de modo que o fato é atípico
por influxo do princípio da alteridade.
 O princípio da alteridade veda também a incriminação do pensamento
(pensiero non paga gabella) ou de condutas moralmente censuráveis, mas
incapazes de penetrar na esfera do altero.
 O bem jurídico tutelado pela norma é, portanto, o interesse de
terceiros, pois seria inconcebível