[TESE] ANDREA_CONCEICAO_PIRES_FRANCA
204 pág.

[TESE] ANDREA_CONCEICAO_PIRES_FRANCA


DisciplinaIntrodução à Arquivologia73 materiais2.387 seguidores
Pré-visualização43 páginas
econômicos e sociais brasileiros. 
 
32 SILVA, Golbery do Couto e Silva. Conjuntura Política Nacional. O Poder Executivo. Geopolítica 
do Brasil. Brasília: UNB, 1981, p.24. 
33 _____ \u201cOs Exércitos estão reunidos\u201d, in:Revista Veja, de 25 de setembro de 1968, 23. 
34 ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). Bauru-SP: EDUSC, 
2005, p.29. 
32 
 
 Também foi dentro da ESG que foi moldada a Doutrina de Segurança 
Nacional. Esta forjada sob as bases de uma \u201cguerra total\u201d, cujo pilar central era a 
bipolaridade e a heterogeneidade do sistema internacional do pós-guerra. A 
definição do inimigo estabelecida pela Doutrina parte do pressuposto que este não 
precisaria estar armado, mas apenas \u201cenvenenado ideologicamente pelo marxismo-
leninismo\u201d. 
Hoje ampliou-se o conceito de guerra (...) a todo espaço territorial dos 
Estados beligerantes, absorvendo na voragem tremenda da luta a 
totalidade do esforço econômico, político, cultural e militar de que era 
capaz cada nação, rigidamente integrando todas as atividades em 
uma resultante única visando à vitória e somente à vitória, 
confundindo soldados e civis, homens, mulheres e crianças nos 
mesmos sacrifícios e em perigos idênticos e obrigando à abdicação 
de liberdades seculares e direitos custosamente adquiridos, em mãos 
do Estado, senhor todo poderoso da guerra(...).35 
 
 Maria Helena Moreira Alves tem razão quando diz que a Doutrina de 
Segurança Nacional tem sido a justificativa mais corrente para a imposição de um 
regime autoritário no Brasil. Porém talvez seja prudente relativisarmos outra 
afirmação da autora, que diz que esta doutrina não \u201cpressupõe o apoio das massas 
para legitimação do poder do Estado, nem tenta obter este apoio.(...). Todavia, a 
Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento efetivamente prevê que o 
Estado conquistará certo grau de legitimidade graças a um constante 
desenvolvimento capitalista e a seu desempenho como defensor da nação contra a 
ameaça dos \u201cinimigos internos\u201de da \u201cguerra psicológica\u201d 36 . Para a autora as 
dissensões de classe produzidas pelo medo de um \u201cinimigo interno\u201d desconhecido 
são a válvula de escape para as ações repressivas do Estado serem toleradas. O 
controle da sociedade se dá pelo terror. O que nos perguntamos é o seguinte: mas 
se o terror é suficiente para produzir essa legitimidade \u201cesperada\u201d, porque a 
necessidade de manter certas instituições de cunho democrático, como o Congresso 
Nacional, por exemplo, ou as eleições \u2013 mesmo que indiretas? Porque a 
 
35 SILVA, Golbery do Couto. Conjuntura política nacional, o poder Executivo e geopolítica do 
Brasil. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1981, p.24. 
36 ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). Bauru-SP: EDUSC, 
2005, p.31. 
33 
 
necessidade de incitar a imprensa a divulgar para um futuro próximo uma devolução 
do cargo de chefe de Estado aos civis? Se a Doutrina de Segurança Nacional não 
tenta alcançar este apoio, porque as ações repressivas acontecem quase sempre na 
clandestinidade, porque o Estado não pode aparecer como mandante direto das 
ações repressivas? Neste caso a imprensa não precisaria ser censurada! 
Desse modo, podemos perceber que há sim um jogo duplo e que a Doutrina 
de Segurança Nacional, assim como a política desenvolvimentista fazem parte de 
uma ideologia construída dia-a-dia, em função dos acontecimentos. Essa doutrina, 
assim como qualquer outra não foi implantada no Brasil como um pacote fechado, 
ela se comportou de acordo com as situações. Como já dissemos anteriormente, a 
Doutrina de Segurança Nacional não pode ser analisada como uma doutrina 
Universalista. As ideologias se concretizam nas práticas sociais e estão inseridas e 
são sustentadas por aparelhos institucionais, logo a doutrina em questão teve como 
principal função a manutenção de determinada estrutura social e a de representação 
falseada do real, configurando os interesses de grupos sociais determinados. O que 
dá a ela a necessidade sim de um discurso legitimador, que se configurou de acordo 
com as práticas sociais, as tradições e os anseios da população em momentos 
específicos. 
 Assim a Doutrina de Segurança Nacional traduzia-se na intervenção estatal 
para planejar o desenvolvimento econômico acelerado, ou seja, na política 
desenvolvimentista, e no estabelecimento de um consenso que excluía 
fundamentalmente a discordância com relação ao combate às idéias comunistas. 
Partindo dessa noção ideológica de pilares norte-americanos é que os militares 
veriam em João Goulart um perigo eminente. E também é a partir dessa doutrina 
que se estabeleceriam os governos militares subsequentes ao golpe. 
 Alain Rouquié toca direto no cerne da questão e diz que nas origens da 
doutrina da ESG que \u201cencontra-se a interiorização e a racionalização dos valores da 
guerra fria nos anos cinqüenta\u201d37. E para tanto, é esta doutrina que deu ao Exército a 
 
37 ROUQUIÉ, Alain. O Estado Militar na América Latina. São Paulo: Alfa-Omega, 1984, p.333. 
34 
 
função de definir os \u201cobjetivos nacionais permanentes\u201d e também é ela que justificou 
em certa medida a usurpação de poder por parte desses. 
 João Quartim de Moraes aponta para os postos chave do SNI. De acordo com 
ele é importante entender que após 1964, com a mudança de cada presidente 
mudava-se o corpo de oficiais, isso por esse órgão ser muito poderoso politicamente. 
\u201cO primeiro diretor, Golbery do Couto e Silva, foi, como o seu presidente, Castelo 
Branco, estreitamente identificado com a ESG e com a política de participação ativa 
com os Estados Unidos nas políticas hemisféricas e anticomunistas\u201d38. 
 Esse mesmo autor diz que a doutrina da Escola Superior de Guerra tornou-se 
a ideologia oficial do regime militar brasileiro por trazer um fundamento teórico ao 
movimento contra-revolucionário de 1964 39 . Dessa forma podemos concluir que 
apesar de não agir diretamente nas decisões tomadas desde o golpe, os EUA 
trabalharam arduamente no campo ideológico, conseguindo no Brasil, 
principalmente com o governo de Castelo Branco um aliado no bloco Ocidental. 
Essa aliança é visível na política externa e na relação entre esses dois países. 
Tanto Moniz Bandeira, quanto Miyamoto & Gonçalves mostram que os EUA, ou 
melhor, o presidente Lindon Johnson manteve uma ininterrupta correspondência 
com o presidente Castelo Branco, mantendo-o informado dos problemas 
estratégicos militares tanto no Vietnã quanto em São Domingos, na Republica 
Dominicana. Nesse último caso o Brasil chegou a tomar a liderança da intervenção 
militar, seguindo os passos da diplomacia dos EUA. Já no caso do Vietnã, apesar do 
\u201cpedido\u201d velado do presidente Johnson, através do embaixador Lincoln Gordon, para 
que o Brasil enviasse efetivo militar para contribuir com o \u201cesforço norte americano 
de pacificação\u201d, a resposta foi não. Para Luis Viana Filho40, essa foi uma decisão 
coerente com a postura apresentada pela ESG, afinal, a maior preocupação do 
Brasil deveria ser com os territórios que, se de alguma forma viessem a ser 
dominados por regimes hostis, poderiam trazer perigo à segurança do país. 
 
38 MORAES, João Quartim de. Liberalismo e Ditadura no Cone Sul. Campinas: IFCH/UNICAMP, 
2001, pp.42-43. 
39 Idem, p.51. 
40 FILHO, Luis Viana. O Governo Castelo Branco. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, p.443. 
35 
 
 É perceptível todo um trabalho político-ideológico que vinha sendo feito desde 
o fim da Segunda Guerra Mundial, e que de certa forma influenciou muito para a 
tomada de decisão dos militares, então seguidores de uma doutrina com bases 
norte-americanas (política desenvolvimentista e anti-comunista). Essa influência, ou 
melhor, relação, mantida entre Estados Unidos e Brasil, se estende pelo menos