[TESE] ANDREA_CONCEICAO_PIRES_FRANCA
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As leis num tal regimen não são normas ditadas por um Poder 
Legislativo autônomo, independente e soberano, depois de um 
debate racional e consciencioso entre os membros de Congresso 
Nacional e das Assembléias Legislativas, mas são, pelo contrário, 
ordens imperativas emanadas da vontade incontestável e soberana 
do órgão, individual ou coletivo, que encarna a ditadura. 
A força organizada do Estado coloca-se à disposição do órgão, 
individual ou coletivo, da ditadura, para fazer cumprir todas as ordens 
dele emanadas, pôr no cárcere os cidadãos recalcitrantes e a 
esmagar qualquer oposição, sistematizada ou não. 
A Magistratura, desprovida de qualquer estabilidade e vitaliciedade, 
não poderá obstar as prisões arbitrárias nem acudir, com medidas 
adequadas, àqueles que no território nacional, brasileiros e 
estrangeiros, tiveram os seus direitos lesados, negados ou proscritos 
pelo órgão, individual ou coletivo, que encarna a ditadura. 
Pois bem, o regimen acima descrito, que é ditatorial em sua 
substância e nas suas aparências, é o regimen que vigora, 
presentemente, na Pátria Brasileira. 
Com efeito, o órgão que representa a ditadura é o Presidente da 
República, e a classe que o apoia para exercer e manter a sua 
ditadura é a Força Armada, constituída pelo Exército, Marinha e 
Aeronáutica. 
A leitura serena e isenta do ATO INSTITUCIONAL N.º5, de 3 de 
dezembro de 1968, comprova, impressionantemente, esta afirmação. 
A art. 1º mantém a Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as 
Constituições Estaduais, mas com as modificações que a seguir 
estabelece. 
Com este texto o Presidente da República proclama-se Poder 
Constituinte, isto é, único Poder Soberano, diante do qual toda a 
Nação deve dobrar-se. 
No art. 2º o Presidente da República estabelece que poderá decretar 
o recesso no Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e 
das Câmaras Municipais, recesso que durará até que ele volte a 
convocá-los. 
No § 1º desse artigo, o Poder Executivo chama a si a função 
legislativa em todas as matérias atribuídas às Constituições, federal e 
estaduais, e à Lei Orgânica dos Municípios, durante o recesso acima 
referido. 
No § 2º estatui que os Senadores e os Deputados federais e 
estaduais, e os Vereadores só perceberão a parte fixa dos seus 
subsídios. 
Pelo art. 3º o Presidente da República pode intervir nos Estados e 
Municípios, sem as limitações previstas na Constituição, nomeando 
os Interventores, que exercerão as funções e atribuições que lhes 
couberem, como se Governadores e Prefeitos fossem. 
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Estatui o art. 4º que o Presidente da República, ouvido o Conselho de 
Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, 
poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos, pelo 
prazo de 10 anos, e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e 
municipais, sem que lhes sejam dados substitutos. 
O art. 5º prescreve que a suspensão dos direitos políticos, implica na 
cassação de privilégio de foro, na suspensão de direito de votar e ser 
votado, na proibição de atividades ou manifestações de natureza 
política e na aplicação, quando necessário, da liberdade vigiada, da 
proibição de freqüentar determinados lugares, e domicílio coacto. 
O art. 6º suspende as garantias constitucionais ou legais da 
vitaliciedade inamovibilidade, estabilidade e exercício em funções por 
prazo certo. 
O § 1º deste artigo confere ao Presidente da República o direito de 
demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer 
titulares das garantias referidas no artigo, assim como empregados 
de autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista, 
bem como demitir, transferir para a Reserva ou reformar militares ou 
membros das Polícias militares, sendo certo, ainda, que o § 2º deste 
artigo estende a aplicação de todas estas medidas aos Estados, 
Municípios, Distrito Federal e Territórios. 
Portanto, a ação do Presidente da República abrange, quanto a estes 
poderes ditatoriais, todo o território nacional. A autonomia dos 
Estados e dos Municípios desapareceu integralmente ante a vontade 
soberana do Presidente da República. 
O art. 8º habilita o Presidente da República decretar, após 
investigação, o confisco de bens de todos quantos tenham 
enriquecido ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública, 
inclusive de Autarquias, empresas públicas e sociedade de economia 
mista. 
O § Único deste artigo adotou uma regra de processo que 
desrespeita, fere e revoga um princípio universal referente ao ônus da 
prova. Se o atingido pelo confisco de seus bens provar que eles 
foram adquiridos legitimamente estes serão restituídos. Verifica-se, 
assim, que o Presidente da República, por simples suspeita ou pelos 
rumores correntes no meio político, confisca os bens do indiciado, 
cabendo a este provar que os adquiriu legitimamente, para que 
receba a restituição deles. 
O art. 9º confere ao Presidente da República o direito de suspender a 
liberdade de reunião e de associação e estabelecer a censura de 
correspondência, da imprensa, das tele-comunicações e das 
diversões públicas. 
É impossível, ante esta soma de poderes conferida ao Presidente da 
República pelo ATO INSTITUCIONAL N.º 5, ousar alguém, de boa fé 
e com serenidade, negar que o Brasil está sob um regimen ditatorial. 
Entra pelos olhos de quem quer ler com isenção que no Brasil destes 
dias só existe um Poder soberano: o Presidente da República. O 
Poder Legislativo, quer federal, quer estadual, quer municipal perdeu, 
de maneira clara, patente e absoluta, a sua soberania. O Presidente 
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da República fecha o Congresso, as Assembléias Legislativas e as 
Câmaras Municipais quando bem entender, e passa ele a exercer as 
funções legislativas atribuídas a estes órgãos eletivos. O Poder 
Judiciário desapareceu como poder, porque os seus membros, tanto 
federais quanto estaduais, podem ser demitidos ou aposentados pelo 
Presidente da República, por simples decreto de sua lavra. A 
soberania deste Poder foi destruída pelo ATO INSTITUCIONAL N.º 5 
que tirou a autonomia e a independência nas funções de seu cargo à 
vontade soberana do Presidente da República, que os aposentará, 
demitirá, removerá ou porá em disponibilidade sem prestar contas a 
ninguém deste seu ato. 
Advirta-se, por outro lado, que o art. 10 do referido ATO 
INSTITUCIONAL N.º 5, suspendeu a garantia do habeas-corpus nos 
casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem 
econômica e social e a economia popular. 
Isto significa que qualquer adversário dos governantes de hoje, 
militares e civis, pode ser posto no cárcere sem que a Magistratura, já 
amedrontada por falta de vitaliciedade, possa socorrer a este 
perseguido, restituindo-lhe prontamente a liberdade. A suspensão do 
habeas corpus e as ameaças de demissão ou aposentadoria dos 
Magistrados permitem que o Presidente da República e qualquer 
agente do Poder Executivo ponham na cadeia, sem a menor culpa, 
qualquer pessoa que habite o território nacional, seja brasileira ou 
estrangeira. O arbítrio das autoridades do País é, em matéria de 
liberdade de seus semelhantes, nacionais ou estrangeiros, total e 
incontrastável. Ninguém pode acudir eficientemente a uma pessoa 
que tenha sido privada da sua liberdade por mero capricho e sem 
nenhum motivo. 
Por fim, o art. 11 deste ATO INSTITUCIONAL N.º 5 aqui comentado 
exclui de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de 
acordo com o mesmo ATO INSTITUCIONAL, declarando que o 
mesmo acontece com os efeitos destes Atos. 
Assim, a Magistratura do País, te todos os graus e instâncias, quer a 
federal quer as estaduais, têm de cruzar os braços ante quaisquer 
atentados praticados pelo Presidente da República e por seus 
Agentes com fundamento no ATO INSTITUCIONAL N.º 5. Pode ser a 
cousa mais monstruosa, quer no que se refira às pessoas quer no 
que se refira aos bens, que tenha surgido com base no ATO 
INSTITUCIONAL N.º 5, não pode a Magistratura tentar anular ou 
modificar porque