[TESE] ANDREA_CONCEICAO_PIRES_FRANCA
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A ditadura já era ditadura. São Paulo: LCTE Editora, 
2006, p171. 
154 THOMPSON, E. P. Costume em Comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São 
Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.32. 
155 MOTTA, Rodrigo Pato Sá. Introdução à História dos Partidos Políticos Brasileiros. Belo 
Horizonte \u2013 MG: Ed. UFMG, 1999, p.108. 
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 Ironico o discurso de Costa e Silva, que revela intenções que entram em 
choque com o processo de institucionalização da violência que já vinha sendo 
efetuado desde 1964: "A paz [...] será assegurada, quer queira, quer não queiram os 
agitadores. Eles pedem sangue, mas o país prosseguirá sem sangue porque não 
estamos com a idéia de violência. Nós queremos a paz; queremos o trabalho e a 
democracia real; a democracia respeitada, acatada com autoridade para dar ao 
povo156 aquilo que ele precisa" (Costa e Silva, 31/03/68) 157. 
Nove meses depois desse discurso se escancarava, como diriam Almeida e 
Weis, o "tempo de tortura, desaparecimentos e assassinatos"158. 
 Mário César Flores diz que o regime buscava justificar esse tipo de atuação 
violenta na defesa da Segurança Nacional 159. Todos os direitos assegurados pela 
Constituição deixavam de ser válidos para aquele que ousasse ameaçar a 
Segurança Nacional, o que vai contra qualquer regra da democracia nos termos que 
conhecemos atualmente: \u201cEquivocam-se os que confundem democracia com 
desordem, pois não é possível governar o caos. Tanto as ditaduras quanto as 
democracias, por isso mesmo necessitam de ordem para governar. Inobstante, nas 
ditaduras tal ordem é proveniente e mantida pela força e nas democracias decorre a 
lei, do ordenamento jurídico, igualmente aplicável a todos, segundo a 
Constituição\u201d160. 
 Aparentemente, diante dos tantos protestos contra o regime, não se vivia uma 
ordem fundada na soberania popular, além do mais os militares no poder não 
haviam sido eleitos por voto direto. Na prática era preciso abrir os ouvidos a um 
 
156 Neste discurso de Costa e Silva está implícita na \u201cnecessidade do povo\u201d uma questão 
unânime. Naquele momento ele desconsiderava qualquer possibilidade de distinção entre as 
pessoas: o povo é uno e homogêneo. Voltando à teoria organicista, o povo é um corpo regido 
pelas mesmas necessidades e comandado pela cabeça, que são os militares. Cabe a eles 
comandar o comportamento e as ações desse corpo chamado sociedade. 
157 VALLE, Maria Ribeiro do. 1968: O diálogo é a violência - Movimento estudantil e ditadura 
militar no Brasil. Campinas \u2013 SP: Ed. UNICAMP, 1999, p.53. 
158 ALMEIDA, M. H. T. de; WEIS, L. "Carro Zero e Pau-de-arara: o cotidiano da oposição de 
classe média ao regime militar", in: SCHWARCZ, L. M. (org.). História da Vida Privada. São 
Paulo: Companhia das Letras, 1998, v.4, pp.146-147. 
159 FLORES, Mário César. Bases para uma política Militar. Campinas \u2013 SP: Editora da Unicamp, 1992, 
pp. 58-59. 
160 CONTREIRAS, Hélio. Militares: confissões: Histórias Secretas do Brasil. Rio de Janeiro: 
Mauad, 1998, p.18. 
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otimismo falseado 161 , enquanto os olhos deveriam manter-se fechados para as 
práticas governamentais. Caso contrário, o sujeito era taxado de subversivo e 
conseqüentemente perseguido pelo sistema repressivo dos ditadores. 
 Vigoravam simultaneamente duas ordens juridicamente incompatíveis: a 
ordem Constitucional e a ordem Institucional. Dentro desse paradoxo, destacaram-
se alguns episódios - a Constituição de 1967 emendada em 1969 e a imposição dos 
Atos Institucionais, em especial o AI-5. O que os militares fizeram em 1969 foi na 
realidade outorgar uma nova Constituição, promulgada por Médici oito dias antes de 
o Congresso se reunir para elegê-lo 162 . Essa emenda aumentou ainda mais a 
concentração de poder nas mãos do Executivo, que, como já não bastasse, podia 
governar por decretos-lei. 
A Ordem dos Advogados do Brasil, regional São Paulo, no ano de 
1978, enviou um documento ao presidente Ernesto Geisel, contendo 
propostas de emendas constitucionais, visando ao restabelecimento 
da normalidade democrática no país: \u201cÉ estarrecedor o rol das 
medidas de exceção ora vigentes. Além dos dezessete atos 
institucionais e cento e trinta atos editados a partir de 1964, quase mil 
leis excepcionais foram baixadas sob os mais variados pretextos e 
objetivos.\u201d163 
É importante esclarecer que havia dois tipos de decreto: o constitucional e o 
institucional. O primeiro era expedido com aprovação do Congresso Nacional. O 
segundo sem a aprovação do Congresso, o que acabava por conferir ao último um 
caráter de outorga. Os dois só poderiam ser expedidos pelo chefe do Executivo nos 
três níveis (União, estado e município). O segundo tipo de decreto acumulava a 
função tanto do poder Executivo quanto do Legislativo e por isso foi consagrado 
decreto-lei, diferenciando-se assim do primeiro. 
 
161 Carlos Fico, em Reinventando o Otimismo, revela todas as regras que regulamentavam o 
programa de propagandas do governo, que num âmbito geral apelavam para o espírito 
nacionalista e símbolos já cultuados por governos anteriores, sem necessariamente relacioná-los 
com o regime autoritário vigente. O que acabava criando no imaginário do brasileiro um falso 
otimismo, que em alguns momentos era confirmado pelo \u201cacaso\u201d, como a vitória da seleção 
brasileira na Copa do mundo de 1970 e o Milagre Econômico. 
162 SKIDMORE, Brasil: De Castelo a Tancredo. Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1988, pp.201-
202. 
163 CERVEIRA, Neusah. \u201cA Luta Armada contra a Insegurança Nacional\u201d: O PCR 1966/1968\u201d, in: 
SILVA, Marcos, (org.) Brasil, 1964/1968. A ditadura já era ditadura. São Paulo: LCTE Editora, 
2006. 
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A Constituição, como agrupamento de leis, tem por um de seus objetivos 
controlar o poder do Executivo. A partir do momento que ela reforça a soberania 
deste sobre o Legislativo e o Judiciário ela perde seu significado. No caso do regime 
militar no Brasil, é como se a legislação Institucional efetivamente ativa coubesse 
inteiramente dentro de uma legislação Constitucional, que supostamente seria prova 
da legitimação popular do governo vigente. No entanto, o que ocorreu na prática foi 
o subjugamento da ordem Constitucional à ordem Institucional. 
 A coexistência dessas duas ordens, teoricamente opostas, causava uma 
instabilidade que era refletida nos pormenores da vida social. Coisas tão 
indispensáveis para o ordenamento atual, como a presunção da inocência, a 
igualdade das partes, a persuasão racional do juiz, o livre convencimento motivado, 
a inadmissibilidade das provas obtida por meio ilícito, eram simplesmente ignorados 
pelo regime militar. 
 Como diria Rouquié: "Tanto a verticalidade das relações sociais como a 
distância, às vezes, sideral entre as ideologias institucionais e os comportamentos 
sociais configuram uma cultura política enganadora. As falsas aberturas do 
universalismo jurídico encobrem o particularismo das relações pessoais e da 
força"164. Relações estas, que em certa medida, são responsáveis pela constituição 
e efetivação desse sistema normativo implantado pelo regime militar. 
 Tomando-se a Constituição como exemplo para esboço, temos que, antes de 
ser um conjunto de leis, a Constituição é uma carta política. Dizer isso significa 
mostrar que esta é construída a partir de lógicas de intencionalidade. Só o fato de 
ser imposta uma nova Constituição, já causa um desestruturamento da ordem 
vigente, uma vez que este documento, juridicamente, é feito para não ser alterado. E 
se houver a necessidade de mudança para acompanhamento dos valores sociais, 
esta deve ser feita pelo civil, já que se consagra caracteristicamente de ordenamento 
deste nível. 
 
164 ROUQUIÉ, op. cit., p.50. 
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A partir do momento que o governo militar estabelece uma nova Constituição 
em 1967 e que, além disso, alterações nesta passam