Trabalho e capitalismo  uma visão psicanalítica
13 pág.

Trabalho e capitalismo uma visão psicanalítica


DisciplinaTeorias e Sistemas Psicológicos I849 materiais14.191 seguidores
Pré-visualização6 páginas
que este pode lhe proporcionar de gozo e satisfação, 
nada mais. Ele se isola, e só, solitário, goza, mergulhado, como o Tio Patinhas, na banheira de 
moedas, adorando sua moeda número 1, ou como Bush, num poço de petróleo. 
O viés perverso do capitalismo atual pode ser observado acompanhando-se o desenrolar 
da formulação de Marx, para quem o dinheiro é uma mercadoria e, enquanto tal, uma mercadoria 
que se torna um objeto-fetiche. Mas, como se dá o processo de transformação de um objeto em 
mercadoria? Uma vez estabelecido seu valor em uma relação simbólica, o que se passa para que 
esta mercadoria adquira a imagem de um valor intrínseco a si, levando ao que Marx chamou de 
fetichismo da mercadoria? E, consequentemente, como o dinheiro se torna um objeto-fetiche? 
 
26 
 
 
 
http://www.uva.br/trivium/edicao1/artigos-tematicos/2-trabalho-e-capitalismo.pdf 
 
O dinheiro: um equivalente geral privilegiado 
De acordo com Marx, qualquer mercadoria poderia vir a representar o valor de outra. 
Ocorre que algumas mercadorias historicamente ocuparam essa posição de forma privilegiada, 
como foi o caso dos metais preciosos, substituídos em seguida pelo dinheiro. No decorrer do 
tempo, este se tornou um equivalente geral, suporte material de uma função viabilizadora da troca 
entre quaisquer mercadorias. 
Assim, o dinheiro é apenas um equivalente entre outros possíveis, que cede sua 
materialidade para representar o valor de outra mercadoria. Entretanto, aos poucos, o valor de uso 
do dinheiro passa a ser especificamente o de suportar o valor de outras mercadorias, adquirindo, 
assim, o monopólio da representação de valor, o que acaba por favorecer a fetichização da 
mercadoria: devido à sua qualidade de conferir valor a tudo o que é trocado/tocado por ele, ele 
próprio passa a ser valorizado (3). 
Ao ter como valor de uso uma função de representação de valor, o dinheiro passa a ser 
tido \u2013 ele próprio \u2013 por \u201dvalor\u201d. Ele passa a ter \u201dvalor em si\u201d, como se tivesse uma propriedade 
que lhe fosse inerente: o valor de todas as mercadorias, independentemente da relação entre os 
elementos da estrutura. Ele oculta, dessa forma, toda relação que suporta a estrutura da qual ele é 
apenas um elemento. Não é à toa que ele passa a ser tão cobiçado, pois parece ter um valor quase 
natural, o que o torna um objeto fetiche: \u201ctodos sabem que a mercadoria é fruto do trabalho, mas 
mesmo assim...\u201d (MANONI, 1973). 
 
As dimensões do valor 
Segundo Marx, o valor é resultado da intervenção do homem sobre a matéria, logo, valor 
é valor-trabalho e é ele que possibilita que haja troca. Portanto, o valor não é um traço do objeto, 
mas decorre do quantum de trabalho sobre ele aplicado. Assim, a força de trabalho agrega valor 
ao mesmo tempo em que produz um resto, um excedente do qual o capitalista usufrui. 
A descoberta marxista é resultado de uma análise da estrutura do valor, o qual foi 
subdivido em dois: valor de uso e valor de troca, o que permite articular quantidade e qualidade. 
O primeiro viabiliza que a mercadoria seja trocada no mercado, por dinheiro ou outra mercadoria, 
permitindo a equivalência; e o segundo permite o seu consumo. Assim, valor de troca estaria 
vinculado à quantidade, e se realizaria no mercado; o valor de uso, à qualidade, à pura diferença, 
e se realizaria no consumo. Essa distinção entre quantidade/qualidade, valor de troca/valor de uso 
proporciona a Marx uma abordagem objetiva da estrutura do valor da mercadoria, o que 
demonstra que o valor da mercadoria não é intrínseco a esta, pois resulta de uma estrutura 
simbólica. 
Uma vez quantificado, o valor pode ser mensurado a partir da equivalência do tempo de 
produção durante o qual uma determinada quantidade de trabalho é empregada. Pois, se a troca 
tem como condição que haja uma diferença entre qualidades, esta diferença precisa ser passível 
de equiparação, e, para tanto, é necessário que seja traduzida em quantidade. 
 
 
 
27 
 
 
 
http://www.uva.br/trivium/edicao1/artigos-tematicos/2-trabalho-e-capitalismo.pdf 
 
A estrutura do valor 
Tal qual o significante não pode representar a si mesmo, mas sim um sujeito para outro 
significante, a mercadoria tem seu valor representado em outra que lhe cede o corpo simbólico 
para tanto. Senão vejamos: determinada mercadoria A está disponível no mercado para troca ou 
compra, assim como dada mercadoria B. O fato de essas mercadorias estarem no mercado 
implica que possuem valor de uso (qualidades), materialidades diferentes, ao mesmo tempo em 
que possuem alguma equivalência. 
O valor da mercadoria A é representado por um equivalente, mercadoria B, que ao 
oferecer seu corpo como suporte material para a representação do valor de A, lhe confere, assim, 
um lugar simbólico. O que autoriza tal equivalência entre A e B é a estrutura da qual fazem parte 
e que aponta para um terceiro elemento que permite que seja estabelecida a relação entre aqueles, 
ou seja, que a estrutura opere: o tempo de trabalho que ambas necessitaram para serem 
produzidas. 
Ao introduzir o trabalho como terceiro elemento da estrutura, Marx torna as diferenças 
redutíveis. Ou seja, ele não acaba com as diferenças, mas permite a relação na diferença por meio 
de uma equivalência. A irredutibilidade da qualidade inviabilizaria a troca: é a estrutura da forma 
de valor que permite que haja relação entre diferenças sem que estas sejam reduzidas ou 
apagadas. Assim, é o trabalho enquanto sobra que sustenta a relação entre os dois primeiros 
elementos. Ele é o próprio resto da operação de valor que, ao fazer a equivalência entre A e B, 
põe a estrutura para trabalhar. É, portanto, o próprio operador da estrutura. 
A operação de formação do valor dissecada por Marx se aproxima da operação 
significante, da estrutura dos discursos, tal qual nos são apresentados por Lacan. Se um 
significante (S1) é o que representa o sujeito para outro significante (S2), tem-se que estes dois 
elementos significantes apontam para um terceiro \u2013 o sujeito \u2013, bem como para o surgimento de 
um resto nessa operação \u2013 o objeto a. A partir da correlação entre a forma do valor e a operação 
significante, ou seja, entre a estrutura do valor e a estrutura dos discursos, pode-se associar mais-
valia e objeto mais-gozar - a mais-valia é o mais-gozar, o resto da operação. 
 
O fetichismo da mercadoria 
Zizek (1996) aponta uma diferença entre o fetichismo da mercadoria desenvolvido por 
Marx e a relação de fetiche entre os homens que se dava na relação de vassalagem em que o 
senhor tinha a propriedade do servo. Esse tipo de relação fetichista, segundo o autor, se daria nas 
sociedades pré-capitalistas, nas quais a relação senhor-escravo predominava. Já o fetichismo da 
mercadoria se passa em sociedades capitalistas, cuja produção é voltada para o mercado. Nessas 
últimas, haja vista a vigência da liberdade contratual, não mais se falaria em servidão de um 
homem a outro. Assim, o fetichismo da relação de servidão entre os homens seria substituído por 
um fetichismo entre os objetos. 
O fetichismo da mercadoria surgiria como artifício a ocultar a relação social, o laço 
responsável por sua produção, o que aponta para a diferença da função do fetiche para Freud: \u201cno 
marxismo, o fetiche oculta a rede positiva de relações sociais, ao passo que, em Freud, o fetiche 
oculta a falta (\u2018castração\u2019) em torno da qual se articula a rede simbólica\u201d (ZIZEK, 1996, p.327). 
28 
 
 
 
http://www.uva.br/trivium/edicao1/artigos-tematicos/2-trabalho-e-capitalismo.pdf 
 
Para Freud, é o fetiche que desmente a castração, isto é, oculta a falta de gozo na estrutura, a 
mesma que leva à produção contínua de mais-valia. 
Essa passagem da relação entre homens para relação entre coisas é constatada no matema 
lacaniano do discurso do capitalista pela inexistência de um vetor entre agente e outro \u2013 a qual