Trabalho e capitalismo  uma visão psicanalítica
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Trabalho e capitalismo uma visão psicanalítica


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evidencia que não há laço social \u2013, que é substituído por uma seta que parte do objeto em direção 
ao sujeito, que no discurso do capitalista não é agente, mas servo do capital. Portanto, tomado por 
coisa. 
 
\u2193\u2193
a
S
S
$ 2
1
 
Percebe-se que esta relação entre objetos é um sintoma cuja verdade recalcada é a antiga 
relação de servidão homem-lobo-do-homem, o que mostra que a \u201cliberdade de contratação\u201d é 
uma falácia, na medida em que não há que se falar em liberdade quando ao outro não é dada 
outra escolha, senão ser explorado na produção de um gozo a mais para o capitalista às custas do 
seu próprio corpo (4). 
Ora, se o escravo atual é tido por objeto pelo capitalista, tal qual o escravo o era pelo 
senhor feudal, há que se sinalizar, entretanto, essa diferente condição: se anteriormente o escravo 
era o objeto de gozo \u2013 com o que o próprio escravo gozava de sua posição de objeto, pois a 
relação de escravidão era, então, uma relação pessoal entre senhor e escravo \u2013, na atualidade o 
escravo ainda é tido como objeto, porém, um mero parafuso da engrenagem de gozo, em que não 
há relação com o senhor-moderno. 
Ele é um objeto que produz objetos de gozo para um senhor que desfruta desse gozo e 
com o qual ele não tem o menor contato \u2013 e muitas vezes nem mesmo o conhece. Assim, o 
trabalhador é duplamente privado, pois não goza dos objetos que produz, nem de sua posição 
masoquista de objeto, pois ele não mais é um objeto de gozo, mas, sim, um objeto produtor de 
objetos de gozo. 
Ainda que isso não fique evidente na escrita do discurso do capitalista por Lacan, é 
preciso salientar que, comparando-se o discurso do capitalista (discurso do mestre moderno) com 
o discurso do mestre (antigo), vê-se que a única alteração que foi feita, na verdade, foi a 
supressão da disjunção entre produto e verdade. 
Essa alteração no discurso é precisamente o que demarca a tentativa do discurso do 
capitalista de eliminar o impossível e, com isso, reintroduzir o gozo produzido (a) onde havia a 
verdade da castração ($) transformando o sujeito do significante em sujeito do gozo. A esse 
respeito, Maria Anita Carneiro Ribeiro propõe que o discurso do capitalista implica na foraclusão 
da castração e, consequentemente, na foraclusão do laço social: 
 
Ora, se é a foraclusão o que caracteriza o discurso do capitalista, o que ele produz e 
sustenta não é o laço social baseado na lei edipiana do pai. São antes relações 
esquizofrênicas e esquizofrenizantes que vêm como produto deste discurso; ao foracluir 
a castração, este foraclui o próprio laço social (RIBEIRO, 1999, p.167). 
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http://www.uva.br/trivium/edicao1/artigos-tematicos/2-trabalho-e-capitalismo.pdf 
 
 
Se nas sociedades pré-capitalistas o homem era tomado por objeto-fetiche, escravo do 
senhor, na contemporaneidade, o capitalismo o coloca como objeto, mas um objeto muito 
particular, produtor de objetos-fetiche, o que nos leva ao questionamento: se nas sociedades 
dominadas pelo discurso do mestre era o escravo que, posto a trabalhar, gozava, será ainda o 
trabalhador reduzido a objeto quem goza no discurso do capitalista? E quanto ao capitalista, será 
que ele goza, ou faz semblante de quem goza? 
A formação do sintoma se daria, segundo Zizek (1996), com o recalque da relação de 
servidão que se dá na passagem do sistema feudal para o capitalista. Age-se, então, como se os 
sujeitos fossem realmente livres, como se livremente cedessem sua força de trabalho, contratado 
de livre e espontânea vontade, ocultando, dessa forma, a relação de dominação. É a serviço da 
ocultação da dimensão de exploração do outro tomado como mercadoria que opera a ideia 
ilusória de liberdade e livre contrato. 
A relação de dominação de um homem sobre o outro, de fetichismo entre os homens, que 
fora recalcada, retorna na relação do homem com o objeto, a qual ganha proeminência. Se a 
relação de servidão era marcada pelo tratamento do servo como propriedade do senhor, como 
objeto deste, é essa verdade recalcada que se mostra na relação entre as coisas e emerge no 
sintoma (ZIZEK, 1996). 
É o valor \u2013 o trabalho necessário para que a mercadoria surja enquanto tal \u2013 que é velado 
no fetichismo da mercadoria. A dimensão simbólica do valor (trabalho) é negada e ocultada pela 
dimensão imaginária do dinheiro (comercialização), como se o preço fosse inerente ao objeto. 
Decorre disso uma impregnação do imaginário, do objeto: tudo tem seu preço, tudo é comprável, 
inclusive o homem, que se tornou, a partir daí, uma mercadoria. 
 
Psicanálise, perversão e capitalismo 
A perversão é a busca do gozo e a transformação do $ em a, e é nesse sentido que ela é o 
avesso do amor, que só encontra espaço onde a perversão é suspensa,(5) pois o amor é 
precisamente a valorização do outro enquanto sujeito. O amor se dirige ao outro como sujeito em 
suas mais ínfimas particularidades, idiossincrasias, singularidades. É o que formula Lacan ao 
asseverar: \u201cSó o amor permite ao gozo condescender ao desejo\u201d (LACAN, 2005, p.197). O amor 
valoriza precisamente a subjetividade e é por isso que ele está no cerne da prática da psicanálise, 
aonde ele surge na relação entre analista e analisando sob a forma de transferência, um dos quatro 
conceitos fundamentais da psicanálise, e, particularmente, um dos dois conceitos fundamentais da 
clínica psicanalítica. 
A transferência, define Lacan, é o amor que se dirige ao saber (LACAN, 1985). E se o 
amor se dirige ao saber, isso se dá na medida mesma em que o sujeito se sente escutado: ao 
pretender escutar tudo o que o sujeito tem a dizer, a psicanálise, como experiência, centra sua 
atenção precisamente naquilo que o ser humano possui de absolutamente novo e que o distingue 
de todos os outros seres vivos: a linguagem. 
A psicanálise se opõe veementemente ao discurso capitalista e à perversão, no que ela 
pretende resguardar o lugar do sujeito e abrir o espaço para sua fala. Se para o capitalismo o 
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http://www.uva.br/trivium/edicao1/artigos-tematicos/2-trabalho-e-capitalismo.pdf 
 
homem é um objeto e seu lema é \u201cninguém é insubstituível\u201d, para a psicanálise, ao contrário, o 
homem é um sujeito e a decorrência lógica disso é que \u201cninguém é substituível\u201d. A psicanálise 
considera que o sujeito tem algo a dizer que ninguém mais poderia dizer em seu lugar e o que ela 
almeja é dar ouvidos a essa voz única e seu ato de dizer. E se a psicanálise valoriza imensamente 
a produção artística da humanidade em geral, e a poesia em particular, é porque ela sabe que cada 
sujeito é de fato um poeta que tem um certo poema a dizer. A psicanálise considera que o sujeito, 
no que é convidado a expressar-se e falar de seu sofrimento, de suas inibições, de seus sintomas e 
de suas angústias, ao encontrar palavras para fazê-lo, constrói um poema único, e cada análise é a 
escrita desse poema único. 
Assim, se o discurso do analista permite a emergência do sujeito, ele surge como \u201ca única 
saída para a ausência de saída do discurso do capitalista\u201d (ALBERTI, 2000, p.46), pois o 
capitalismo perpetra uma ilusão ao tentar denegar a estrutura simbólica que subjaz à forma do 
valor. Essa própria denegação aparece no matema do discurso capitalista no que este promove a 
própria alteração da estrutura: \u201celes sabem que não é possível um discurso sem laço social, mas 
mesmo assim... propõem um discurso que não promove laço\u201d. Promove-se, dessa forma, a 
perversão do laço que reconhece e nega os limites da estrutura, do impossível: o capitalista sabe 
que não é possível gozar tudo, porém, rompe os limites ao gozo, levando o sujeito à crença de 
que é possível gozar, e mais-ainda, e sempre (6). 
A lei que vale é a lei do capital, e a meta de vida é tornar-se rico, pois a riqueza é erigida 
como Bem Supremo. Surge um apelo ao gozo que autoriza um \u201cvale-tudo\u201d, em cujo ringue tudo 
é possível, até mesmo