DJi - Democracia representativa e democracia semidireta
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Democracia Representativa e Democracia Semidireta
 Justificada, em parte, pelos excessos do absolutismo na França, a liberal democracia, a par de inegáveis
conquistas no campo da liberdade e da propriedade individuais, fundamentou aberrações doutrinárias de
malévolos efeitos. São figuras de realce no pensamento liberal-individualista John Locke (1632-1704) Jean-
Jacques Rousseau (1712-1778) e Emmanuel Joseph Siéyes (1748-1836). Locke, na verdade, um dos
escritores da ideologia iluminista, iniciada na Inglaterra por volta de 1680 e fundamentada em
rígidoracionalismo oriundo, em especial, de Thomas Hobbes. Seus preceitos básicos poderiam ser resumidos
em três: a) o guia infalível da sabedoria é a razão; b) inexiste o pecado original: o homem é levado à
corrupção pelo próprio poder político; c) a vida do homem em liberdade absoluta, na própria natureza, é
preferível à vida em civilização que, com suas ultrapassadas concepções criadas para manter o poder do
clero e da monarquia absoluta, se torna insuportável. Em sua obra Segundo Tratado do Governo Civil,
Locke procura fundamentar a forma de governo parlamentar introduzida na Inglaterra pela Revolução de
1688, condenando o absolutismo.
 No seu modo de ver, os homens viviam, originalmente, em liberdade e igualdade absolutas, numa
sociedade anárquica, isto é, desprovida de poder, imperando a lei da natureza. Para melhor alcançar seus
objetivos individuais, resolveram, mediante um pacto voluntário, instituir a sociedade política, outorgando a
esta um poder de mando destinado a executar referida lei natural. A comunidade teria, contudo, direito de, a
qualquer momento, rebelar-se contra os possíveis excessos dos governantes. A única função do Estado
seria, portanto, manter a ordem, preservando a liberdade individual; era, portanto, relegada a um segundo
plano toda idéia de progresso e de bem-estar social. Já se disse que, se Locke tivesse de optar entre a
desordem e o despotismo, escolheria, sem dúvida, a primeira hipótese.
 Rousseau, por sua vez, um dos corifeus da Revolução Francesa, dizia em sua obra O Contrato Social: "O
homem nasce livre e em toda parte se acha aprisionado". Como Locke, Rousseau afirma que o homem surge
num estado de liberdade absoluta, o chamado estado de natureza, no qual também a felicidade seria
absoluta. Quando surge a vida em sociedade, o homem perde tal liberdade e se corrompe. Estas idéias de
Rousseau se acham situadas especialmente em O Contrato Social, Discurso sobre a Origem da
Desigualdade entre os Homens e Nova Heloísa. O homem, diz ele, é um bom selvagem, sua natureza é sã,
mas a sociedade o corrompe. Ora, é a liberdade dos bons tempos que o faz bom: portanto, a sociedade
política conveniente é aquela que garante a mais ampla autonomia individual, é aquela que reduz ao mínimo
os vínculos sociais e a pressão exercida pela sociedade sobre o homem. Perdida a liberdade natural, a
restauração do caráter do homem se faz com a liberdade civil, ideal maior do Estado. A liberdade passa,
então, a ser um fim em si mesma, e a própria sociedade nada mais é que um objeto de um contrato, fruto da
vontade e não de uma inclinação natural. A própria família somente se mantém em razão de laços contratuais.
O individualismo, aliás, reduz o casamento a um contrato e, como tal, dependente de um acordo de
vontades, que podem dissolvê-lo livremente; daí, o divórcio.
Já estamos vendo que, tanto para Locke como para Rousseau, a liberdade é o bem supremo do ideal
democrático.
 Rousseau vai ao ponto de afirmar que o homem, naturalmente independente, não pode participar da vida
em sociedade a não ser conservando sua soberania pessoal. Por isso, Rousseau era adversário ferrenho da
chamada democracia representativa, por ser contrária à lei natural a preposição de que a maioria governa a
minoria. Só pode haver democracia, dizia Rousseau, onde houver deliberações tomadas diretamente pela
comunidade, sem intermediários.
 Num dos mais valiosos capítulos de seu O Contrato Social (Livro Terceiro, Cap. XV), Rousseau é
bastante claro e incisivo a esse respeito: "Logo que a função pública deixa de ser a principal atividade dos
cidadãos, que se preocupam mais com o dinheiro do que com sua própria pessoa, o Estado se encontra à
beira do colapso. É preciso combater? Pagam a mercenários e ficam em casa. É preciso ir ao parlamento?
Nomeiam deputados e continuam a ficar em casa. Inércia e dinheiro ensejam soldados para dominar a pátria
e deputados para a venderem.
(...)
 Num Estado verdadeiramente livre, os cidadãos fazem tudo com a força de seus braços, nada com o
ouro; não pagam para se desobrigar de suas obrigações, mas para as cumprirem.
(...)
 Num Estado bem dirigido, todos freqüentam as assembléias; mas com um mau governo ninguém se
interessa pelo que nelas se delibere.
Todos estão certos de que jamais a vontade geral prevalecerá, mesmo porque as ocupações particulares
ocupam todo o tempo. Boas leis criam outras melhores; más leis acarretam outras piores. E quando alguém
diz: Que me importa o Estado?, este está perdido.
(...)
 A soberania não pode ser representada, pois não admite alienação.
 Ela pode ser expressa pela vontade geral, e esta não admite representantes, ou é ela ou não é, não há
meio-termo. Os deputados não são e nem podem ser representantes do povo; são, quando muito, elementos
de uma comissão e não podem concluir nada em definitivo.
 Toda lei que o povo, em pessoa, não aprove, é nula, jamais será uma lei. O povo inglês pensa que é livre,
porém está enganado; só é livre durante a eleição dos membros do parlamento; logo que estes são eleitos,
passa a ser escravo e nada é. Nos poucos momentos em que usufrui da liberdade, utiliza tão mal esta que
bem merece perdê-la".
 Se Rousseau é inimigo figadal da democracia chamada representativa, Siéyes será o grande inspirador
desta. Emmanuel-Joseph Siéyes (1748-1836) foi um abade que teve uma vida política destacada.
 Deputado do povo, presidente da Constituinte francesa revolucionária, foi adversário de Robespierre.
Apoiou Bonaparte no golpe do 18 Brumário, mas não conseguiu que seu projeto de Constituição fosse
adotado. Exilado, voltou para a França em 1830.
Siéyes escreveu dois explosivos panfletos, considerados tão importantes para a Revolução Francesa como o
Manifesto Comunista, de Marx e Engels, para a Revolução Soviética. Estes dois panfletos se intitulam Ensaio
sobre os Privilégios, no qual Siéyes incrimina, como contrária à natureza, a própria idéia de privilégio e Que é
o Terceiro Estado?, obra da qual se serve para combater a pluralidade de estamentos do ordenamento
constitucional monárquico, propondo a unidade da nação e do chamado Terceiro Estado (opovo), elemento
mais numeroso e mais significativo economicamente. Nesta segunda obra, com efeito, afirma que a soberania
do Estado reside em a nação. A nação não é o conjunto de homens reais, concretos, efetivamente existentes
em dado momento histórico, mas sim o conjunto daqueles que viveram, que vivem e que viverão.
 A idéia de nação em Siéyes confunde-se, aparentemente, com todo o Terceiro Estado. Que era, afinal, o
Terceiro Estado na França pré-revolucionária? Era o terceiro estamento social, antecedido pela nobreza e
pelo clero. Não havia, com efeito, classes sociais na França, no sentido moderno que atribuímos à expressão
classe social, pois uma sociedade estruturada em classes admite a mobilidade social, e isto não ocorria então,
sendo os três estados estanques, estratificados. Quem integrava um estamento inferiornão podia galgar um
estamento privilegiado. Aliás, as palavras casta, estamento, estado, estratificação trazem consigo um
semantema (radical) st, de origem indo-européia, que significa, exatamente, imutabilidade, permanência,
denotando a rigidez das sociedades estruturadas em estamentos.
Clero e nobreza eram dotados de privilégios com