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DJi - Democracia representativa e democracia semidireta

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Na democracia liberal e individualista,
surgem como órgãos de expressão da opinião pública, veículos que a representam, e também para orientá-
la. Dissolvidos os órgãos naturais de representação da sociedade, isto é, os agrupamentos intermediários da
família do Estado, então aparecem os partidos para substituí-los. Pois aí está o de que muitos se esquecem.
Por que não substituir a representação partidária pela representação corporativa? A representação feita
através dos partidos é inexpressiva e fictícia. Os quadros partidários não correspondem à organização
natural das sociedades que visam representar. Há casos que poderiam ser apontados como exceções, por
exemplo, o da Inglaterra. Entretanto, não devemos nos esquecer de que os partidos ingleses se acham
intimamente ligados a determinadas classes ou a grupos sociais. Como se poderia compreender o
desenvolvimento do Partido Trabalhista sem a base sindical do `trade-unionismo1? E o Partido Conservador
não tira a sua força do elemento aristocrático?".
 As aberrações e abusos cometidos em nome da chamada democracia representativa ensejaram uma série
de providências saneadoras do Estado moderno, p. ex., a vinculação do parlamentar ao seu partido, em
nome da fidelidade partidária. Na democracia partidária, a função do partido político é preparar a decisão
popular, formulando um programa de governo e designando candidatos que se vinculam, obrigatoriamente, a
tal programa. Deputados e senadores serão mandatários de seus partidos. O parlamentar, portanto, não
decide mais por si próprio. Ele se sujeita ao programa partidário. Isto marca, de certa forma, um retorno ao
mandato imperativo, pois o deputado pode ser desligado de seu partido caso se desligue da linha de conduta
que lhe for traçada. A Constituição soviética de 1977 era bastante clara a esse respeito, em seu Art. 107:
"Os deputados têm obrigação de prestar contas de sua atividade e do trabalho do Soviete aos seus eleitores,
coletivos e organizações que tenham promovido sua candidatura.
 O mandato dos deputados que não tenham justificado a confiança dos eleitores poderá ser revogado a
qualquer momento, por decisão da maioria dos eleitores, na forma da lei".
 À medida que o velho mandato representativo começa a ceder terreno, o mandato imperativo passa a
recuperar uma pequena parcela do antigo prestígio. Assim, a exemplo da Constituição soviética, a
Constituição da Tchecoslováquia adota o mandato imperativo, à luz do que dispõe seu Art. 4º, in verbis: "O
povo soberano exerce os poderes do Estado através dos corpos intermediários eleitos pelo povo,
fiscalizados pelo povo e responsáveis perante o povo".
 A terceira espécie de democracia é a democracia semidireta, assim nominada porque, ao lado da natureza
representativa de seu sistema político, nela se admite a utilização esporádica da intervenção direta dos
governados em certas deliberações dos governantes. Esta intervenção compreende, basicamente, os
seguintes institutos: plebiscito, referendo, iniciativa popular, veto popular e recalL. Plebiscito: a expressão
plebiscito denomina uma consulta prévia que se faz à coletividade, a fim de que esta se manifeste a respeito
de sua conveniência ou não. Os governantes consideram oportuna a medida, mas, antes de efetivá-la,
consideram necessário que o povo se manifeste antes. O termo plebiscito deriva de plebs, plebe, tendo
origem na Lex Hortensia (séc. IV a.C.), que concedeu aos plebeus o direito de participar do processo
político na antiga Roma republicana. Modernamente, por intermédio de plebiscito, o povo francês
manifestou-se durante a Grande Revolução, sendo, aliás, o instituto adotado por Napoleão Bonaparte para
obter o aval popular das mudanças constitucionais de seu governo, quando garantiu o apoio das maiorias
para suas medidas, no que foi imitado por Napoleão III. Hitler realizou vários plebiscitos, destacando-se
aquele que ensejou a anexação (Anschlüss) da Áustria à Alemanha, em 1938. Após a Segunda Guerra
Mundial, os governantes franceses usaram largamente o plebiscito. Embora adotando, tradicionalmente, a
democracia representativa, o constitucionalismo brasileiro ensejou a participação popular direta em 1963,
mediante um plebiscito no qual o eleitorado refugou o regime parlamentarista de governo, que havia sido
adotado em 2 de setembro de 1961, por intermédio da Emenda Constitucional 4, manifestando-se
favoravelmente, por conseqüência, à volta do regime presidencialista, o que ocorreria com a Emenda 6, de
23.1.1963. A CF prevê, em vários dispositivos, o plebiscito: arts. 14, I, 18, §§ 3º e 4º, 49, XV, e, nas DT,
o Art. 2º, assim: "Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e
secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I - plebiscito. Art. 18... § 3º Os Estados
podem incorporar-se entre si, subdividir-se ou desmembrar-se para se anexarem a outros, ou formarem
novos Estados ou Territórios Federais, mediante aprovação da população diretamente interessada, através
de plebiscito, e do Congresso Nacional, por lei complementar. § 4º A criação, a incorporação, a fusão e o
desmembramento de Municípios preservarão a continuidade e a unidade histórico-cultural do ambiente
urbano, far-se-ão por lei estadual, obedecidos os requisitos previstos em lei complementar estadual, e
dependerão de consulta prévia, mediante plebiscito, às populações diretamente interessadas. Art. 49. É da
competência exclusiva do Congresso Nacional... XV - autorizar referendo e convocar plebiscito.
 Referendo: o referendo é o mecanismo da democracia semidireta pelo qual os cidadãos são convocados
para se manifestar a respeito da conveniência, ou não, de medida já tomada pelos governantes. Nisto, difere
do plebiscito. Dá-se o nome de referendo, também, à manifestação popular sobre a entrada em vigor de leis
já elaboradas pelo Parlamento. Trata-se, então, de ratificação popular a algo que já está feito.
 Iniciativa popular: eis o mais significativo instituto da democracia semidireta. Realmente, de todas as
instituições da democracia semidireta, a que mais atende às exigências populares de uma participação efetiva
do processo político é a iniciativa das leis pelo próprio povo. Como assinala Georges Burdeau, a iniciativa
popular obriga o Parlamento a legislar, porque, se um determinado número de cidadãos o exige, um projeto
de lei determinado será exposto à Assembléia, que deverá examiná-lo e emitir um parecer (A Democracia,
Lisboa, Publicações Europa-América, 1962, p. 133). Na iniciativa popular o povo exerce apenas um direito
de petição "reforçado", pelo qual pressiona o parlamento a reparar um projeto de lei sobre determinado
assunto, bem como a discuti-lo e a votá-lo. No caso, os cidadãos não legislam, mas fazem com que se
legisle. Lembra Salvetti Netto que o Legislativo não está obrigado a acatar a iniciativa popular, a moção,
enfim. A iniciativa popular foi empregada pela primeira vez nos EUA, no Estado de South Dakota (1898), e
no Oregon (1904).
 Ressurgiu, depois, na Constituição de Weimar, na Venezuela e na Itália. O Art. 71, in fine, da Constituição
italiana de 1947, determina que 50.000 eleitores podem obrigar o Parlamento a discutir um projeto de lei
oriundo de iniciativa popular. A iniciativa popular é encontrada, também, no Art. 86, alínea g, da
Constituição de Cuba, que autoriza o seu exercício por um mínimo de 10.000 cidadãos.
 Como acentua John Naisbitt em sugestiva monografia: "Os projetos de lei originados das comunidades e
os plebiscitos são as ferramentas da nova democracia. Estes instrumentos criam acesso direto à decisão
política, como desejam cidadãos informados e educados... A diferença entre os projetos de lei originados da
comunidade e os plebiscitos é que os primeiros aparecem na votação através de ação direta do cidadão, e
os plebiscitos são uma maneira de os cidadãos aprovarem ou não a ação do legislativo. O primeiro projeto
de lei estadual originado da