O curso de introdução à economia
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O curso de introdução à economia


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esse hábito, isso poderá ser feito com campanhas educativas (como a caracterizada pela frase \u201cPicasso não pichava\u201d, adotada em Brasília); mas um economista certamente sugeriria, também, a adoção de uma alíquota mais alta no imposto sobre a venda de tubos de tinta sob pressão. Isso com certeza reduziria o ânimo dos pichadores em prosseguir com essa forma tão pouco recomendável de expressão pessoal. 
	A ideia do \u201ccusto de oportunidade\u201d. Outro elemento importante do instrumental analítico de economistas relaciona-se à noção de custo de oportunidade. Essa expressão originalmente se empregou em relação a oportunidades de investimento: se aplico meu dinheiro de uma certa forma, obviamente deixo de aplicá-lo em investimentos alternativos: o rendimento destes (ou melhor, da alternativa mais lucrativa, entre as não adotadas) indica o \u201ccusto de oportunidade\u201d de minha decisão. Ou seja, é o custo medido em termos de um uso alternativo dos recursos disponíveis. O ganho que obterei em minha aplicação é a diferença entre o rendimento desta e meu custo de oportunidade. 
	É uma noção simples, e que pode ser aplicada em várias circunstâncias: horas de estudo na sexta-feira à noite provavelmente terão um custo de oportunidade maior do que na segunda-feira, pois as chances de fazer coisa mais agradável costumam ser maiores no primeiro caso. 
	 A relevância desse conceito em Economia decorre do fato de que as decisões dos agentes econômicos frequentemente envolvem escolhas, e portanto comparações entre alternativas. Se só tenho R$15,00 no bolso e considero as possibilidades de ir ao cinema (sendo esse o preço da entrada) ou tomar cerveja com os amigos, a ida ao cinema é o custo de oportunidade de minha escolha de ir ao bar. O orçamento anual da União define uma importância global que deve cobrir todos os gastos do governo federal naquele ano: se a decisão de construir um hospital adicional implicar, suponhamos, a não pavimentação de uma rodovia de 30 km, esse é o custo de oportunidade da decisão pelo hospital. 
	Colocado dessa forma, o conceito pode parece trivial, sem grande substância analítica. No entanto, vemos, com frequência, ser deixada de lado a ideia básica, aí expressa, de que para fazer uma coisa é preciso, quase sempre, deixar de fazer outra, o que envolve necessariamente um confronto entre alternativas. Quantas vezes não ouvimos políticos afirmarem que todas as suas propostas de gasto público são absolutamente necessárias, nada é dispensável, \u201ca importância de um hospital não pode ser avaliada em dinheiro, pois vidas não têm preço\u201d \u2014 e ideias que tais? E isso não é apenas retórica: muitas decisões sobre o orçamento do governo são tomadas sem consideração de seu custo, em termos dos gastos que deixam de ser efetuados. Dispêndios chamados \u201csociais\u201d são obviamente necessários; o programa \u201cBolsa-Família\u201d, por exemplo, beneficia grande número de pessoas de poucos recursos, e tem tido um efeito significativo na redução do nível de pobreza, nos últimos anos. Mas não se pode esquecer de um fato fundamental: os recursos são finitos, e portanto é indispensável que, ao se contemplar um aumento nos gastos sociais, o custo de oportunidade dessa decisão seja levado em conta. 
	A votação do orçamento do governo deve (ou deveria) ser o momento de considerar esses custos de oportunidade. A importância, para a sociedade, do último real gasto na área de saúde deve equivaler à do último real gasto na área de educação, ou de transportes, ou se segurança. Ou seja: \u201cna margem\u201d, os benefícios trazidos pelos dispêndios nos vários setores deveriam ter a mesma relevância. 
	Na prática, esse processo é dificultado por vários fatores, entre os quais ressalta a existência das chamadas vinculações orçamentárias. Nossa Constituição estabelece que certas proporções do orçamento sejam necessariamente vinculadas a determinadas áreas: gastos relativos ao ensino, por exemplo, devem corresponder a pelo menos 18% da receita de impostos da União, e a 25%, nos Estados e Municípios. Gastos de saúde têm, igualmente, uma fatia garantida dos orçamentos. 
	As intenções dessas medidas são as melhores possíveis: trata-se de assegurar um mínimo de verbas para atividades de importância evidente. No entanto, é concebível que a necessidade de gastos com a educação, por exemplo, possa variar, de ano para ano. Num dado exercício, a deficiência de instalações escolares adequadas pode indicar a necessidade de construir muitas escolas novas; no ano seguinte, já minoradas aquelas deficiências, investimentos em hospitais ou centros de saúde teriam maior prioridade. Mas a fixação de percentuais mínimos de gastos em rubricas específicas pode dificultar, ou mesmo impedir que se desloquem recursos de uma área para outra. A correta avaliação de custos de oportunidade fica impossibilitada. Nesse sentido, as vinculações, apesar de seus bons propósitos, em geral tendem a reduzir a eficiência da alocação de recursos orçamentários, do ponto de vista dos interesses e necessidades da sociedade. E isso decorre, essencialmente, de uma não consideração do conceito de custo de oportunidade. 
	O engano de iniciativas bem-intencionadas de dar prioridade absoluta a certos gastos, como os de saúde, decorre, no jargão dos economistas, de considerar-se a \u201cutilidade total\u201d de serviços de saúde, em lugar da \u201cutilidade marginal\u201d de uma oferta adicional desses serviços. A questão é análoga a um velho paradoxo econômico: por que a água, que é indispensável à vida, tem preço menor do que os diamantes, que atendem a uma necessidade tão secundária, e para muitos frívola? O paradoxo é resolvido quando se raciocina \u201cna margem\u201d: se a opção for entre ficar sem água ou sem diamantes, é claro que mesmo os mais frívolos prefeririam a segunda hipótese, pois a utilidade total da água é evidentemente maior. Mas, em situações correntes, a comparação que se coloca é, digamos, entre a utilidade de um litro marginal de água (adicional a toda a água já disponível), e a de um diamante marginal, raro e muito demandado por pessoas de posses. Nesse contexto, é claro que o diamante terá preço alto, e a água não. Da mesma forma, a questão de ter ou não ter serviços de saúde não se discute; a decisão relevante é, por exemplo, a de gastar, ou não, R$1 milhão adicional nessa área, em confronto com outras necessidades \u2014 educação, segurança, infraestrutura de transportes, etc. \u2014 e considerando a escassez de recursos disponíveis. A comparação marginal é a que importa.
	O raciocínio marginal. A argumentação a partir de variações marginais é um componente básico da análise econômica. Sua significação pode ser ilustrada por um exemplo. Há alguns anos, uma companhia aérea pôs à venda, como promoção temporária, passagens a R$50,00 para qualquer cidade brasileira. A procura foi enorme, mas durou pouco, pois a promoção foi logo proibida pelo governo. A justificativa foi de que se tratava de venda abaixo do custo, caracterizando concorrência desleal. Seria correta essa justificativa? Certamente o custo médio de transportar um passageiro em viagem aérea é muito superior a cinquenta reais; mas o que as autoridades envolvidas não perceberam foi o fato de que o custo médio não é relevante, nesse contexto, mas sim o custo marginal. Dado que existam assentos não ocupados (e a ocupação média raramente ultrapassa 80%, nas companhias aéreas), a inclusão de um passageiro adicional, em aviões com duzentos ou mais lugares, acrescenta muito pouco ao custo total da viagem (e, por outro lado, traz ganhos de propaganda para a transportadora). Levando em conta, como é correto, o custo marginal, não se poderia acusar a empresa de uma prática comercial contrária às normas de concorrência. (A proibição foi depois suspensa, e de fato tem havido oferta de passagens até por R$1,00, ultimamente).
	A generalização do raciocínio marginal, a partir da segunda metade do século XIX, possibilitou grande avanço à teoria econômica, inclusive pela introdução de modelos formais, com utilização de métodos matemáticos.
	
	Algumas falácias.