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O curso de introdução à economia

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Armado dos conceitos acima, você poderá identificar algumas afirmativas ou crenças bastante comuns — você já deve ter se defrontado com alguma delas — mas que são de fato economicamente incorretas, e podem levar a decisões inadequadas, contrárias ao interesse social (como no caso das passagens aéreas).
	Despoluição. Poluição é algo ruim, e é desejável eliminá-la. Mas muitas vezes são apresentadas e defendidas propostas de uma despoluição radical — por exemplo, a ponto de tornar potável a água do Lago Paranoá. A questão é que o custo de oportunidade de tais empreendimentos seria, muito provavelmente, desproporcional aos benefícios daí advindos. Em situações desse tipo, o objetivo mais racional será uma despoluição parcial, que leve a uma situação com a qual se possa conviver, a um custo razoável, em cotejo com demais demandas da sociedade e os recursos disponíveis. 
	Gastos passados. Há um debate sobre a construção, ou não, de outra usina nuclear para produção de energia elétrica, em Angra dos Reis. Centenas de milhões de dólares já foram investidos no projeto, e alguns defendem que, dado que já se gastou tanto, mais vale completar a obra, ou haverá um enorme desperdício dos recursos já despendidos. Ora, dirá você, isso é um argumento economicamente falho. O que está gasto está gasto; isso não deve influir na decisão de finalizar ou não o projeto. O que se deve indagar é se os benefícios derivados do investimento adicional que será necessário para finalizar o reator compensarão os custos respectivos, em confronto com outras formas de geração de energia (ou seja, uma comparação desse investimento marginal com seu custo de oportunidade). Se isso não for verdade, o certo é abandonar o projeto, e investir em outro. Poder-se-á culpar quem tomou decisões erradas no passado, mas isso não deve servir de motivo para outra decisão errada, no presente. O raciocínio vale tanto para investimentos estatais (como é o caso de Angra) como para um investidor privado, movido pelo lucro. 
	Energia “velha”. Outro argumento que às vezes se ouve com relação a investimentos feitos no passado refere-se a usinas hidroelétricas construídas anos atrás: argumenta-se que, como o investimento “já foi pago” (por exemplo: houve um financiamento internacional já amortizado), então essa energia “velha” é mais barata, e a tarifa cobrada por tais usinas deveria ser mais baixa do que no caso de uma usina recém-construída. Ora, a usina antiga produz energia, gera um fluxo de renda, e poderá ser vendida (e o eventual comprador vai querer tirar dela um rendimento compensador para seu investimento, tal como se construísse uma usina nova). Não fará sentido econômico forçar o dono da usina velha (muitas vezes o próprio governo) a ter um retorno mais baixo sobre o seu patrimônio. Se o governo decidir cobrar menos pela energia de suas hidroelétricas antigas, deverá deixar claro que está concedendo um subsídio aos compradores (grandes compradores são, por exemplo, indústrias que consomem muita eletricidade, como a de alumínio), à custa dos contribuintes. 
	“O melhor possível”. Engenheiros e técnicos muitas vezes insistem que o equipamento a ser instalado numa fábrica, ou unidade de prestação de serviços (como um hospital) seja o mais moderno e tecnicamente avançado que for possível. “Já que se vai fazer, que se faça o melhor”. Mas, à luz do que vimos acima, nem sempre essa regra deve ser seguida: é necessário comparar os custos do “melhor possível” com os benefícios derivados dessa escolha. Pode ser que um equipamento que não seja a última palavra, mas tenha um custo menor, seja a opção mais adequada. Eficiência, do ponto de vista econômico, necessariamente envolve a consideração de custos. 
	 Uma situação comum, nesse contexto, decorre de avaliações técnicas das condições de operação de fábricas instaladas no passado. É frequente, especialmente no caso de indústrias tradicionais, como a de tecidos, que avaliações desse tipo, feitas por engenheiros ou técnicos especializados, produzam relatórios muito críticos, mencionando equipamentos “obsoletos”, instalações “ultrapassadas”, e aconselhando um reequipamento radical. Esses relatórios costumam servir de base a iniciativas governamentais no sentido de estimular melhorias técnicas nessas indústrias, como a abertura de uma linha de crédito (frequentemente subsidiada) para financiar o reequipamento. No entanto, muitas vezes a maquinaria existente, embora de fato tecnicamente obsoleta, pode ainda produzir uma receita acima de seu custo de operação. Ou seja: gera lucro para o dono da fábrica. Faz sentido substituir essas máquinas? Pode ser que o custo de oportunidade desse investimento seja excessivo: a firma faria melhor aplicando seus recursos disponíveis de outra forma. A não ser que os subsídios oferecidos pelo governo tornem o reequipamento atraente, para o empresário; mas nesse caso são outra vez os contribuintes que estarão assumindo o ônus — nesse caso, o ônus de um investimento economicamente injustificado. 
	Em suma: há princípios gerais da Economia que podem certamente ser absorvidos num curso introdutório, como o nosso, e que sem dúvida podem nos ajudar no entendimento do mundo real — e eventualmente na identificação de afirmativas ou proposições falaciosas. Esse é, talvez, o principal benefício que um curso introdutório de Economia pode proporcionar, para um não economista: dar-lhe elementos que contribuam para que ele/ela identifique ideias econômicas erradas, e não se deixe iludir por propostas de política atraentes mas inviáveis, ou de efeitos indesejáveis. 
	O programa de Introdução à Economia. O programa da disciplina se organiza em sete unidades. A Primeira Unidade trata dos conceitos básicos da teoria econômica. A Segunda estuda as relações entre os agentes econômicos (produtores, consumidores e governo) no mercado, com foco na determinação de preços. Na Terceira Unidade, apresentam-se as metodologias de mensuração da atividade econômica (o PIB) e do cálculo de índices de preços. A Quarta Unidade trata de noções de economia monetária: funções da moeda e fenômenos monetários, especialmente a inflação. A Quinta Unidade apresenta noções básicas de macroeconomia, tratando do crescimento econômico, de relações entre os agregados econômicos, e do desemprego. A Sexta Unidade volta-se para as relações econômicas com o exterior, estudando o o registro das transações com o exterior (balanço de pagamentos), a determinação da taxa de câmbio, teorias de comércio internacional e noções de macroeconomia aberta. Finalmente, a Sétima Unidade traça um breve panorama da evolução recente da economia brasileira, incluindo uma visão sobre a desigualdade distributiva e seus indicadores. 
O CURSO DE INTRODUÇÃO 
À ECONOMIA
�	 Levitt, S.D & Dubner, S.J. Freakonomics. New York: HarperCollins, 2005. pp. 26 e ss. (Há uma tradução brasileira desse livro, que apresenta vários exemplos surpreendentes de aplicação da teoria econômica a situações concretas). 
�	 Markowitz, S., R. Kaestner & M. Grossman. An Investigation of the Effects of Alcohol Consumption and Alcohol Policies on Youth Risky Sexual Behaviors. Cambridge, MA: National Bureau of Economic Research, May 2005 (Working Paper 11378).