O ideal cultural na definição da infância
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O ideal cultural na definição da infância


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Para analisar o
que esse dispositivo tende a instituir
nas mãos de uma criança, que, é cla-
ro, pode sempre subverter o que a
forma material impõe, partiremos de
algumas considerações acerca do que
está implicado em toda brincadeira
infantil, tendo em vista os pressupos-
tos da psicanálise.
Quando uma criança brinca, o
que ela assim (re)elabora concerne ao
seu processo de estruturação subjeti-
va, envolvendo o complexo de Édipo
e o complexo de castração. Se o pro-
cesso de constituição subjetiva se de-
senrola mais ou menos a contento \u2013
ou seja, envolvendo os inevitáveis
traumas a ele inerentes \u2013 um primei-
ro circuito do Édipo deverá se com-
pletar na chamada primeira infância,
com as instâncias e registros que des-
se processo resultam, seja como for
que os concebamos (consciente e in-
consciente; id, ego e superego; real,
simbólico e imaginário etc.). Para que
essas instâncias e registros se consti-
tuam, os processos de identificação
que sempre estão em jogo nas brin-
cadeiras infantis são fundamentais.
Neles é possível distinguir a identifi-
cação imaginária da identificação sim-
bólica. Essas duas formas de identifi-
cação são assim referidas por Zizek
(1992, p. 104):
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a identificação imaginária é a identificação
com a imagem na qual nos parecemos passí-
veis de ser amados, representando essa ima-
gem \u2018o que gostaríamos de ser\u2019, ao passo
que a identificação simbólica se efetua em
relação ao próprio lugar de onde somos ob-
servados, de onde nos olhamos de modo a
parecermos amáveis a nós mesmos, merece-
dores de amor.
Pensemos agora no que ocorre
quando uma menina brinca com uma
boneca-bebê. Ela fala com o bebê,
troca sua roupa, lhe dá comida, o ba-
lança e realiza todo um conjunto de
ações que a colocam na posição de
mãe. Ela sente-se uma mãe e quer ser
mãe, de acordo com o que podemos
notar em inúmeras situações desse
tipo. O seu próprio corpo define esse
lugar, um lugar que ela delimita com
seus movimentos, seus gestos, suas
palavras. Desse modo, então, cria os
contornos de seu futuro, com uma
imagem de si mesma que, envolven-
do seu corpo, tende a ficar fora do
alcance da sua visão, na mesma me-
dida em que, como mãe, projeta o seu
olhar em direção ao bebê e ao cená-
rio onde se desenrolam as suas ações
e falas.
Nesse cenário a criança situa-se
representando o que gostaria de ser,
para se sentir amada, como sugere a
perspectiva da psicanálise sobre os
processos de identificação. Podería-
mos pensar então na sua identifica-
ção imaginária com uma mãe, mas
também com um bebê, cuidado pela
figura da mãe que ela mesma repre-
senta. Sobre o lugar de onde ela pró-
pria se olha para ser amada, podemos
dizer que ele se configura em estreita
relação com o discurso parental. Nes-
se discurso, porém, sempre é preciso
considerar as falas nele implicadas que
se articulam a partir de referências que
extrapolam a sua família efetiva, so-
bretudo atualmente, haja vista o peso
crescente da mídia, com desenhos
animados e novelas que pela TV vei-
culam vários modelos e narrativas fa-
miliares. Sem contar o crescente di-
recionamento das brincadeiras
infantis graças ao que se encontra ins-
crito na materialidade dos próprios
brinquedos. Essa fala e esse olhar pa-
rental, com os quais a criança se iden-
tifica, concernem a um lugar impre-
ciso, que lhe escapa, não sendo
possível \u2013 para o próprio sujeito \u2013
situá-lo de maneira unívoca.
Esse lugar impreciso correspon-
de ao ideal do eu, ao registro do sim-
bólico, ao que Lacan situa no Outro.
A criança faz a sua representação para
esse olhar do Outro, de maneira a
ajustá-la a esse olhar, a essa voz que
paira em algum lugar incerto e que
diz respeito ao desejo do Outro, que
é o que afinal o sujeito almeja, con-
forme sugere a repetida frase de
Lacan \u2013 o desejo do sujeito é o dese-
jo do Outro. Ela então faz essa ence-
nação sob o olhar do Outro e tendo
em vista a melhor imagem de si mes-
ma, o eu ideal, que corresponde ao
lugar onde a criança se situa para ser
amada. Mas ela sabe que é um faz de
conta, que o que ela é, de acordo com
o que imaginariamente concebe de si
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DossiêDossiêDossiêDossiêDossiêDossiê
própria, ainda está bem distante daquela imagem desejada. O eu, se
o entendemos como a imagem inacabada que o sujeito faz de si
mesmo, não corresponde ao eu ideal, que é o que o sujeito desenha
como a melhor imagem de si próprio. Uma constatação feita na
infância e que perdura pela vida toda, pois o ideal do eu, que é a
instância que preside aquelas duas, impede essa colagem. O ideal do
eu cria uma espécie de mancha na imagem especular, de maneira
que nela sempre haverá algo que estará fora de foco, mantendo vivo
o desejo.8
No caso da Barbie, quando uma menina brinca com ela, a sua
posição tende a mudar radicalmente, se considerarmos o que esse
dispositivo a princípio incita em nosso universo cultural, que faz
parte do próprio dispositivo. Agora a criança está diante de uma
boneca-adolescente, de certo modo está cuidando de si mesma, do
que ela será no futuro; antes ela cuidava de um filho, ou melhor, de
um futuro filho; estava na posição de cuidar de um outro, impunha-
se essa obrigação.9 Ou então era cuidada, quando se projetava na
figura do bebê, mas não sem que ela própria tivesse que assumir um
outro papel, o de mãe. Ao brincar com a Barbie, penteia os cabelos
da boneca-adolescente, troca sua roupa, faz ela dançar e, simulta-
neamente, com o mesmo movimento, ela própria está se pentean-
do, trocando de roupa e dançando. Ao cuidar da Barbie, cuida de si
mesma. A sua obrigação é consigo própria, com o cuidado da ado-
lescente que um dia efetivamente será e que por enquanto simula
ser o mais que pode, olhando a si própria na Barbie e transforman-
do-se com todos os comportamentos e apetrechos que consiga in-
corporar em si mesma, apetrechos sempre disponíveis para uso ime-
diato de qualquer criança com algum potencial de consumo. Esse
afinal é o seu futuro, o lugar onde toda criança deverá se instalar
para realizar o ideal cultural hegemônico. Um futuro que esse e ou-
tros dispositivos especulares, junto com a intensa demanda social
que aponta no mesmo sentido, transformaram em tempo presente,
incidindo até no corpo das crianças, entre as quais cada vez mais
notam-se mudanças que precocemente as transformam em púberes.
A origem da Barbie, a considerar o que dela se conta, é bem
sugestivo acerca do horizonte que se tornou o ideal a ser alcançado
em cada momento do presente. Lembremos: Ruth Handler, casada
com Elliot Handler (fundador de empresa Mattel, que produz e
comercializa a Barbie), foi quem teve a ideia de fazer uma boneca-
adolescente. Em relação à origem dessa inspiração, há versões dis-
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tintas.10 Uma delas é a de que a ideia
teria surgido ao ver a sua filha brincar
com bonecas de papel. O interessan-
te nessa versão é que a boneca pensa-
da com o olhar posto em sua filha \u2013 a
partir de uma inspiração que pode-
mos supor comercial, mas também
tendo em vista o usufruto e o faz de
conta da sua filha, que ao que tudo
indica estava na adolescência \u2013 impli-
cava fixá-la no lugar em que já se si-
tuava, no tempo presente. Para al-
guém como Barbara/Barbie, os
cuidados dedicados a uma boneca
como a desejada por sua mãe signifi-
cavam cuidar de si mesma. Nessa re-
presentação, o faz de conta a instala-
ria em uma posição narcísica \u2013 como
podemos supor ocorre hoje com
muitas crianças implicadas nesse dis-
positivo e em outros semelhantes \u2013 e
não a projetaria, ademais, em direção
a um outro tempo, situado no futuro
e ao mesmo tempo no passado, como
é próprio do jogo simbólico, que con-
cerne a uma dívida simbólica que se
articula no discurso parental. A pró-
pria boneca Barbie, em suas várias fi-
guras, permanece sempre na mesma
idade, \u201ccongelada na idade favorita da
sociedade\u201d, sem que seu corpo seja
afetado por qualquer condição que
possa tirá-la desse lugar, como a ma-
ternidade (Roveri, 2008b, p. 8). A
Barbie/Bárbara é e sempre será uma
adolescente.