A História das Ciências e a Epistemologia
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A História das Ciências e a Epistemologia


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na atividade heróica do cientista isolado, seja no refinamento experimental (positivismo), seja na crítica racional dos dados empíricos (racionalismo aplicado). Uma outra corrente da epistemologia científica, a paradigmática, estabelecida por Thomas Kuhn, introduz uma novidade ao estabelecer a comunidade dos cientistas como personagem principal desta epopéia de progressos, que é a história da ciência. O novo personagem central não possui mais o charme heróico do cientista individual em seu isolamento na busca da verdade. Tratando-se do produto de uma coletividade, o saber caminha dentro de um jogo de forças, interesses e crenças. Kuhn sustenta que todo progresso científico se processa na alternância consenso/dissenso em torno de paradigmas. Na primeira fase, dita ciência normal, todos os cientistas se alinham em torno de um molde geral de ciência, uma espécie de puzzle (quebra-cabeças), prática com regras e soluções bem definidas, cujo objetivo não é buscar o desconhecido, mas organizar todo o universo sob a forma do que é conhecido. Isto seria no seu entender um paradigma. Por outro lado, o momento revolucionário se inaugura no dissenso, no atravessamento do conhecido pelo desconhecido, e em todo desarranjo das regras do jogo. A este período anômico, segue-se a busca de novos fundamentos epistemológicos, assim como novas interpretações para o paradigma em crise. Mediante a iminente superação, novos modelos são lançados, até que a comunidade se realinhe em torno de um deles.
Uma ciência madura e legítima se define por esta possibilidade de alinhamento numa ciência normal, que, sucedida em fases de desalinho e realinhamento, tenha garantida uma linhagem progressiva. Saberes como a psicologia se encontram numa \u201crevolução permanente\u201d, buscando seus fundamentos, gerando constantemente novas interpretações para os seus múltiplos paradigmas, produzindo-os sem possibilidade de qualquer síntese, ainda que momentânea. Como lembra Stengers (1993, p.61), a incomunicabilidade entre paradigmas rivais não se deve a diferenças teóricas, mas a diferentes modos de se produzirem fatos e a diferentes padrões de observabilidade. Na verdade, o modelo revolucionário não seria o mais adequado para compreender a psicologia, uma vez que embutido da noção de progresso, e de possível solução para sua dispersão. Para caracterizar a psicologia em sua dispersão horizontal, melhor seria o modelo \u201cguerrilheiro\u201d, em que a disputa não introduz nenhuma revolução ou superação na tomada de poder. Esta é a principal lição do paradigmatismo de Kuhn: a psicologia não é uma ciência normal, pois está condenada a uma disputa sem fim entre suas partes. Mesmo inviabilizada por sua \u201cimaturidade\u201d, a noção de paradigmas em psicologia é atualizada por uma série de epistemólogos regionais, por autores como Robert Watson, Irving Kirsch, Arthur Staats, David Krantz, Dorwin Cartwright e outros. Watson (1967), inclusive por prudência, substitui, na análise da psicologia, o termo paradigma por prescrições, evitando a suposição de consenso. Em Kuhn, condena-se a dispersão, mas não se oferece, como em Canguilhem, uma explicação para a diversidade psicológica.
d) A analítica dos poderes
Ainda que questionável sua perfilação junto aos epistemólogos científicos, o trabalho de Stengers processa uma relevante reflexão sobre a ciência, e em especial, a psicologia na sua pretensão de ser ciência. De uma certa maneira, tal autora segue a análise institucional inaugurada por Kuhn, sem se descuidar do esforço heróico dos cientistas em estabelecer operadores experimentais decisivos na produção de testemunhos decisivos. Seu trabalho pode ser descrito como a busca de uma política das ciências: trata-se da correlação entre ciência e política, conforme os princípios leibnizianos de não ferir os sentimentos estabelecidos ou gerar pânico (Stengers, 1993, p.26). De modo mais específico, tal autora tenta compreender os tipos de acontecimento que precedem a constituição das ciências, sem retificar ou denunciar (op. cit., pp.82-83). Neste aspecto, buscará a fundação, e não o fundamento das ciências, como tentativa de conferir um solo filosófico ou teórico a estas. Tal atitude de cunho positivista, presente também na sociologia das ciências, apenas exibiria o poder de julgar a partir de um único critério, para além das diferenças suscitáveis. Sua política das ciências, pelo contrário, deseja apenas seguir as diversas ciências em seu processo de fundação e demarcação, sem supor assimetria, desnível ou ruptura com o que se torna \u201cultra-passado\u201d por elas, tal como operam as epistemologias em seu poder de julgamento.
Seu esquema pode ser entendido como a concatenação entre acontecimentos, interesses e capturas conceituais. De início, deve ser estabelecido que o que demarca a ciência não é a observância de um método, mas um acontecimento imprevisível, o operador, atrelado a uma captura de interesses pela comunidade científica. A parapsicologia, por exemplo, mesmo lançando mão de todos recursos experimentais existentes, não possui o mesmo reconhecimento que a teoria das cordas e supercordas na física, produzida ao largo de qualquer cânone experimental. Os acontecimentos demarcadores são em seu início produzidos a par de qualquer necessidade, significado, contexto ou previsão (Stengers, 1993, capítulo quarto). Trata-se de eventos inesperados, capazes de produzir o testemunho fiável de objetos, no risco de sua singularidade. Esta operação de risco produzida na sua novidade constitui o que Stengers denomina operador. A atribuição de um significado e de uma necessidade a estes eventos despidos de sentido inicial será produzida a posteriori, graças aos interesses mobilizados entre os cientistas. O interesse representaria o a priori da ciência (Stengers, 1993, p.104), onde se faz a diferença através da produção de aliados (op. cit., p.113). Neste aspecto a ciência tem suas fronteiras com a política diminuídas; o bom cientista não é aquele marcado apenas pela ousadia e genialidade, mas também o que conhece os interesses de sua comunidade. Tais acontecimentos passíveis de capturar interesses, por outro lado, são alvos de capturas conceituais, de uma significação que passa a organizar a sua interpretação e sua história, fornecendo ao acontecimento um sentido do qual se encontrava inicialmente despido. Nesta luta de interpretações, cessa-se o tempo do acontecimento e se inicia o da história. Quando uma comunidade científica se fecha através de seus conceitos e interesses em torno de alguns testemunhos \u201cdefinitivos\u201d, teríamos uma caixa-preta. O prestígio de uma ciência se mede pelo número de caixas-pretas que ela possui (Stengers, 1992, p.27). 
Esta abordagem política das ciências pode ser configurada através de uma analítica dos poderes nela contida. Ao contrário do que se possa supor, isto não se trata de uma \u201cdenúncia da ciência em nome de sua essência oculta, o projeto de uma relação de dominação do mundo\u201d (Stengers, 1989, p. 13). O poder é visto aqui sem referência a qualquer estado de apropriação substantiva por parte de um grupo dominante em detrimento dos demais, valendo-se para tal de estratégias negativas como violência ou engodo. Trata-se de poderes múltiplos, fragmentados, que se exercem de formas diversas, operando positivamente na produção de saberes. Poder, em primeiro lugar, de se lançar no risco do operador, invocando o testemunho de seres insensíveis ao nosso drama da verdade científica; quando não ocorre este risco na gestação de fatos, produzem-se artefatos. Poder, em segundo lugar, de absorção de toda realidade cognoscível em um único conceito a partir de um testemunho bem sucedido (captura conceitual). Poder, em último lugar, de se organizar o campo institucional da ciência, tanto no conjunto dos interesses internos, que se definem no julgamento das prioridades, quanto no dos externos, que buscam atrair o público interessado e os órgãos de financiamento. Como a psicologia se encaixaria nesta política das ciências a meio passo entre o casual e o necessário, entre