A História das Ciências e a Epistemologia
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A História das Ciências e a Epistemologia


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o singular e o coletivo, e entre o heróico e o institucional? 
Em seu livro, Quem tem medo da ciência? (1989), produzido a partir de conferências brasileiras, Stengers toma para reflexão alguns saberes psicológicos, notadamente o behaviorismo, a epistemologia genética e a psicanálise. Quanto ao behaviorismo (op. cit., p. 14 e 82), notadamente o skinneriano, é destacada sua fuga de qualquer risco, submetendo-se a uma \u201cburocracia da medida\u201d, coroada por uma epistemologia normatizadora, de resto, um mau sinal de poder, um poder não-produtivo, sem risco, um poder enfim que somente emana de cima a baixo. Como se pudesse se fazer uma ciência dura por decreto, ou por mérito, mutilando o seu objeto (Stengers, 1992, p.29). A produção de um operador em risco não se confunde com o uso burocrático de um método empírico, como propagam certos positivismos. Em prol de uma \u201cepistemologia heróica\u201d, que valoriza o risco do acontecimento, o behaviorismo é condenado na subserviência a uma \u201cepistemologia reguladora\u201d. Por tal, ele não se submete ao risco do operador. É um saber fraco; não produz poder: sofre-o de cima.
Com relação a Piaget (op. cit., p. 107), a denúncia não é de falta, mas de excesso, pela unilateralidade do poder exercido: seus protocolos clínicos não produzem fatos, mas artefatos, ou seja, extorquem suas testemunhas, as crianças. \u201cA purificação que o protocolo realiza produz portanto comportamentos-artefatos, ela não purifica, e sim produz comportamentos que só têm sentido em relação ao protocolo\u201d (op. cit. p. 108). Tal poder em excesso se espraia, graças aos pedagogos, em direção à escola, ordenando, ao modo de uma captura conceitual, parcela significativa da prática educacional atual. Não haveria outro modo de ensinar que não pelas estruturas em gênese, extorquidas dos protocolos piagetianos.
Tal crítica\u2013 ao artefato \u2013 se estende em direção à psicanálise (op. cit., p. 113), feita a ressalva de que esta, dentre os \u201csaberes psi\u201d, ela possui a iniciativa única de produzir um operador (o clínico), no risco de captar testemunhos, não mais de objetos, mas de sujeitos. Ela é de início contrastada às disciplinas racionais, fundadas a partir do conceito, como a antropologia e a lingüística estruturais. Na psicanálise, o risco da operação foi primeiro, precedendo a captura conceitual, empreendida especialmente pelo lacanismo estruturalista. Mas esta captura já estaria insinuada desde Análise terminável, análise interminável (1937), um dos últimos textos de Sigmund Freud, em que se confessa a extrema dificuldade da cura. As razões desta dificuldade são atribuídas à existência do inconsciente, outrora codificador conceitual da operação psicanalítica bem sucedida, tornado agora em a priori do fracasso terapêutico. A partir deste momento, a psicanálise torna-se um saber racional, \u201cteoria psicanalítica\u201d, promovendo uma captura conceitual sobre si própria, cujo eterno fundamento estará no retorno aos textos sagrados e na busca das releituras consagradas, antigos, novos e novíssimos testamentos de verdadeiros messias e falsos profetas. 
É aqui que entra Jacques Lacan e, de certa maneira, toda epistême francesa: o triunfo de poder do conceito. A prática analítica não é mais substrato da pesquisa, mas testemunho de uma verdade transcendental, no caso, a do inconsciente, de onde se invoca então a cura como a certeza de sua própria impossibilidade: \u201cCura é saber que não há mais cura\u201d. A única alternativa para a psicanálise é passar de um registro científico-técnico para outro antropológico-ético, tomando o sujeito numa atitude de conversão, afastando-o das aparências. E de modo simetricamente oposto ao da metafísica clássica: é contra as ilusões do absoluto, e em prol da falta, da cisão, que os sujeitos devem agora se dirigir, se conformar. Neste mundo governado pelo gênio maligno, a ilusão não é denunciada como o que oculta o essencial, mas como a própria realidade, na qual perdemos o Real; o inconsciente representa esta máquina transcendental de ilusões.
A psicanálise, pois, além do fracasso do operador e de sua busca de solução por uma autocaptura conceitual, padece de um terceiro pecado, em que se irmana aos demais \u201csaberes psi\u201d: a fatalidade do artefato. Mesmo tendo a psicanálise em todos seus momentos se posto em guarda contra os perigos da sugestão, é desta que ela de fato se alimenta, como de resto, todas ciências humanas:
Os descendentes de Freud lidam com seres que estão interessados na produção de saber operado a seu sujeito, por isso a diferença entre fato e artefato deve ser, nesse caso, ultrapassada. Contribuímos, de maneira incontrolável, para produzir aquilo com que lidamos. Lacan conseguiu até mesmo produzir conversões sobre um modo novo, bem inédito na história da humanidade: criação de um dispositivo, tal, que a produção de conversão se torna relativamente reprodutível! Cabe menos criticá-lo do que avaliar com humor o que ele nos ensinou (op. cit. p. 140).
Em outro texto, La volonté de faire des sciences (1992), Stengers sustenta que uma psicanálise para se tornar verdadeiramente heróica ou científica deveria reestabelecer contato com o que pôde excluir na sua demarcação como saber, no caso, a sugestão e a hipnose, uma vez que sua exclusão teria se dado por razões mais éticas do que técnicas. Tal ética diria respeito à imagem de homem singular tal como é destacada pela psicanálise, recusando em sua prática o recurso ao entorpecimento, como seria próprio da sugestão. Contudo, a recuperação da hipnose e da sugestão diria respeito a uma ética do risco mais aprofundada, ética de resto associada à própria definição de ciência. Somente desta forma seria retomado o desafio da ferida narcísica, propagado pela psicanálise desde seu início, evitando a sua cicatrização em torno dos dispositivos técnicos vencedores durante a sua demarcação. 
Sobre as psicologias, o que Stengers nos mostra portanto, é que são saberes que não só não produzem, mas também não podem produzir operadores. E quando não buscam se fundar a partir da subserviência ao método, ou de uma captura conceitual, operada a partir de outras ciências (fisiologia e o conceito de sensação, biologia e o conceito de adaptação, física e o conceito de campo, inteligência artificial e o conceito de processamento de informação etc.), as psicologias se fundam a partir de uma autocaptura, como a psicanálise opera através de seu conceito de inconsciente. Que alternativas restariam para os \u201csaberes psi\u201d, na impossibilidade de se fecharem as suas caixas pretas? A alternativa para a psicologia nesta epistemologia heróica (em que este saber jamais pôde se provar como tal) do operador poderia ser buscada na postura de Darwin e dos biólogos que, na ausência de testemunhos definitivos, trabalhariam com tramas hipotéticas condicionais, com índices no lugar de provas, e com o humor dos testemunhos múltiplos, dispensando qualquer blefe reducionista (Stengers, 1992, pp.36-38). Ou ainda haveria o recurso da produção de romances coerentes, como já fazem os antropólogos: \u201cEles querem, assim, testemunhar não de maneira verdadeira no sentido judiciário, e sim de maneira discutível, não apenas daquilo que aprenderam, mas também da maneira pela qual aquilo que aprenderam os transformou, o caráter patético de sua experiência que o ideal judiciário de objetividade os obriga a ocultar\u201d (op. cit. p. 150). Aqui uma alternativa palpável para psicologia.
Conclusão
As Histórias das Ciências epistemologicamente orientadas, regidas ou não por uma abordagem legisladora, tendem a excluir a possibilidade de uma história científica da psicologia, condenando-a por sua falta de cientificidade. Como alternativa à Histórias das Ciências, cabe uma palavra sobre as histórias plurais da psicologia que são produzidas à margem das grandes epistemologias. De modo contrário às Histórias das Ciências, que tomam o progresso nesta ultrapassagem infinita de unidades bem estabelecidas (paradigmas, projetos ou sistemas), na história da psicologia não há nem unidade, nem progresso. Progresso, se há,