A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
16 pág.
MalformaCongenitasTXT

Pré-visualização | Página 3 de 5

casos em que a morte ocorreu antes ou
durante o parto. Essa informação está contida no campo morte em relação ao
parto, presente na Declaração de Óbito. A informação referente a presença de
malformação foi retirada do campo causa de morte. Ocorreram 109 casos de
natimortos de mães residentes em Vitória, cujos partos ocorreram neste mesmo
município, durante o período de 2001 a 2004. A freqüência absoluta e relativa
de malformações congênitas encontradas nesta população foi de 6 e 5,5%,
respectivamente. As anomalias observadas foram: anencefalia, trissomia do 13,
trissomia do 18 e síndrome de Potter. Houve dois casos em que a malformação
não foi especificada.
DISCUSSÃO
Os estudos de prevalência e incidência sobre malformações congênitas são
muito difíceis de serem avaliados, pois, geralmente as várias séries publicadas não
permitem comparações diretas. Kennedy (1967), relata 238 investigações sobre
malformações, cobrindo desde 1.000 até 2,5 milhões de recém-nascidos. Além
disso, as metodologias são extremamente diversas, levando a estimativas variando
de 0,15% até 8% de malformados. Os resultados também se modificam segundo
a época e os métodos de averiguação da malformação, como por exemplo, se ela
é feita somente ao nascimento, dias após o nascimento, com seguimento ou não,
inclusão ou não de natimortos nas estatísticas, exame físico realizado por um ou
vários médicos, ou por enfermeiro (Marcondes et al., 2002).
A freqüência relativa de recém-nascidos que apresentaram algum tipo de
malformação foi de 0,40%, sendo menor do que em outros estudos. Dados do
ECLAMC, referentes a uma pesquisa realizada com 740.139 recém-nascidos
vivos em 64 hospitais de diferentes países da América do Sul, inclusive o Brasil,
demonstram uma prevalência de 2,3% de malformações entre 1967 e 1979. Já
em 1980-81, o ECLAMC, em uma população de 109.242 neonatos vivos,
estimou 2,7% de freqüência. Segundo Moreira et al. (2000), em estudo realizado
em 1994-95, a incidência de defeitos congênitos atingiu 5%. Costa e Monteiro
(2004), em 2000-2001, obtiveram uma incidência de 1,4%.
A presença de várias DN com campos em branco, inclusive o que corresponde
à ocorrência ou não de malformação (168 fichas), bem como a ausência de sua
descrição (10,3%, Tabela 4) ou a maneira incorreta com que muitas delas são
descritas, nos leva a concluir que há um despreparo por parte dos profissionais
que preenchem esta ficha, o que pode levar à subnotificação de inúmeros casos.
Isso pode ter influenciado a baixa freqüência de malformações congênitas
encontrada em nosso trabalho.
CA D E R N O S S A Ú D E C O L E T I V A , R I O D E J A N E I R O , 14 (3 ) : 507 - 518, 2006 – 515
P E R F I L E P I D E M I O L Ó G I C O D A S M A L F O R M A Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S N O M U N I C Í P I O D E V I T Ó R I A - E S
O percentual de primiparidade (aproximadamente 54%) entre mães de
malformados é semelhante aos 50% descritos no estudo de Costa e Monteiro
(2004), sugerindo que as malformações sejam mais comuns no primeiro filho do
que no segundo ou no terceiro.
A predominância de recém-nascidos malformados a termo não foi
significantemente diferente do observado para aqueles sem malformação,
indicando que a presença da malformação não levou a diminuição da idade
gestacional, ou seja, a deformidade não se mostrou como um fator de interrupção
precoce da gravidez.
Embora a presença do defeito congênito não tenha levado à prematuridade,
o número de partos cesáreos foi significativamente maior no grupo de crianças
com malformação congênita. Ainda assim, o número de partos cesáreos entre
crianças sem malformação foi bastante alto (>50%) reforçando a idéia de que,
infelizmente, vivemos num país campeão mundial em cesarianas, alcançando índices
de até 90% em alguns hospitais (Figueiredo, 2003).
A assistência pré-natal tem como um dos objetivos identificar fatores de risco
para a ocorrência de anomalias congênitas, bem como evitar que fatores extrínsecos
cheguem a causar danos para o embrião ou feto. Esta pesquisa, entretanto,
mostrou que, o número de consultas de pré-natal entre os casos de malformação
foi similar e dentro de valores considerados satisfatórios ao observado para as
outras crianças.
A predominância do sexo masculino entre malformados foi similar ao
encontrado no estudo de Moreira et al. (2000), em que os valores obtidos foram
de 56% para o sexo masculino e 44% para o feminino. Esta predominância,
porém, também foi observada entre crianças sem malformação congênita.
Na análise das variáveis maternas e relacionadas à criança, à gestação e ao
parto, foram encontradas diferenças significativas. As mães de nascidos vivos com
malformação apresentaram-se um perfil diferente de escolaridade, concentrado
nos extremos de menor e maior escolaridade, quando comparadas às mães de
crianças sem malformação. As mães de crianças com malformação eram, tam-
bém, mais freqüentemente solteiras e tinham realizado um numero maior de
partos cesários. Os recém nascidos malformados apresentaram-se mais graves ao
parto, conforme indicado pelo Apgar.
Segundo Marcondes et al. (2002), a freqüência de malformações congênitas
em natimortos tem sido descrita como cinco vezes maior do que entre nascidos
vivos. Dados do ECLAMC mostram, em 1980-1981, valores de 2,7% entre os
nascidos vivos e 4,5% entre nascidos mortos. Nosso estudo revela uma freqüência
de 5,5% entre natimortos, ou seja, uma freqüência cerca de 12 vezes maior do
que entre nascidos vivos, não condizendo com a descrição anterior.
516 – CA D E R N O S S A Ú D E C O L E T I V A , R I O D E J A N E I R O , 14 (3 ) : 507 - 518 , 2006
E T H E L L E O N O R N Ó I A M A C I E L , E V E L I S E P E R E I R A G O N Ç A L V E S ,
V I V I A N E A N A N I A S A L V A R E N G A , C A R L O S T A D E U P O L O N E , M A R I A C R I S T I N A R A M O S
Da mesma forma que o observado para a DN, foi constatado que a DO não
está sendo devidamente preenchida, tendo sido detectada a presença de campos
em branco e o não aproveitamento do campo referente à causa de morte. Este
último é composto por quatro espaços para descrição das causas básica e
adjacentes. Entretanto, foi observado por várias vezes que apenas a causa básica
era descrita. Em outras situações, a mesma causa era repetida nos campos adjacentes.
Desta forma, estes documentos tornam-se muito difíceis de serem utilizados em
estudos epidemiológicos. Acreditamos que o erro não acontece necessariamente
de forma intencional, mas pode refletir a ausência de treinamento para os
profissionais das unidades notificadoras. É de atribuição da Vigilância
Epidemiológica promover não apenas a fiscalização nas instituições, como
também realizar sua função educadora. Além disso, é o nível federal que cria o
modelo utilizado pelo nível municipal, não conhecendo totalmente a realidade
local e as dificuldades enfrentadas por seus executores. O modelo atual preza
muito pelos recursos da tecnologia, deixando em plano secundário o investimento
em recursos materiais e humanos, bem como o estabelecimento de uma política
mais racional de disseminação da informação.
Novos estudos são fundamentais para aprofundar o conhecimento sobre
malformações congênitas no município de Vitória. As informações coletadas para
esta investigação são provenientes do preenchimento realizado por pessoas que
trabalham em distintas instituições e que pertencem a categorias profissionais dife-
rentes, exceto a DO que somente pode ser preenchida pelo profissional médico.
Portanto, os resultados dessa pesquisa refletem também como está sendo feito o
preenchimento destas fichas nos hospitais e maternidades de Vitória e alerta para a
necessidade de ser desenvolvido um estudo sobre como este profissional colhe o
dado da malformação, tendo em vista que a grande maioria não tem formação para
realizar diagnóstico de malformação, aumentando ainda mais a possibilidade de erros.
Conclui-se que tão relevantes como o reconhecimento das malformações
congênitas como um problema