Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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a dizer que é o meu cão, nem sequer o vi, não sei se gosto dele, Sabe que quer gostar, já é alguma coisa, Agora saíste-me filósofa dos sentimentos, disse o pai, Supondo que fIcará com o cão, que nome lhe vai pôr, perguntou Marta, é cedo para pensar nisso, Se ele ainda cá estiver amanhã, deveria ser esse nome a primeira palavra que ouvisse da sua boca, Não lhe chamarei Constante, foi o nome de um cão que não voltará à sua dona e que não a encontraria se voltasse, talvez a este chame Perdido, o nome assenta-lhe bem, Há outro que ainda lhe assentaria melhor, Qual, Achado, Achado não é nome de cão, Nem Perdido o seria, Sim, parece-me uma ideia, estava perdido e foi achado, esse será o nome, Até amanhã, pai, durma bem, Até amanhã, não fiques a costurar até tarde, tem cuidado com os olhos. Depois de a filha se ter retirado, Cipriano Algor abriu a porta que dava para fora e olhou na direcção da amoreira-preta. A moinha persistente continuava a molinhar e não se percebia sinal de vida dentro da casota. Ainda lá estará, perguntou-se o oleiro. Deu a si mesmo uma falsa razão para não ir ver, Era o que faltava, molhar-me por causa de um cão vadio, uma vez bastou. Recolheu-se ao seu quarto e deitou-se, ainda esteve a ler durante meia hora, e adormeceu. A meio da noite acordou, acendeu a luz, o relógio da mesa-de-cabeceira marcava quatro e meia. Levantou-se, agarrou na lanterna de pilha que guardava numa gaveta e abriu a janela. Deixara de chover, viam-se estrelas no céu escuro. Cipriano Algor acendeu a lanterna e apontou o foco para a casota. A luz não era suficientemente forte para poder ver-se o que estava dentro, Mas Cipriano Algor não precisava de tanto, duas cintilações lhe bastaríam. dois olhos, e eles lá estavam.
Desde que o mandaram para trás com metade da louça, que, entre parêntesis se diga, ainda não foi retirada da furgoneta, Cipriano Algor passou, de uma hora para outra, a desmerecer a reputação de operário madrugador ganhada numa vida de muito trabalho e poucas férias. Levanta-se já com o sol fora, lava-se e faz a barba com mais vagar do que o indispensável a uma cara escanhoada e a um corpo que se habituou à limpeza, desjejua pouco mas pausado, e finalmente, sem acréscimo visível no escasso ânimo com que saiu da cama, vai trabalhar. Hoje, porém, depois de um resto da noite a sonhar com um tigre que lhe vinha comer à mão, deixou as mantas quando o sol mal começara a pintar o céu. Não abriu a janela, somente um pouco a portada interior para ver como estaria o tempo, foi isto o que pensou, ou quis pensar que pensara, mas na verdade não era seu hábito fazê-lo, este homem já viveu mais do que o suficiente para saber que o tempo sempre está, com sol, como hoje promete, com chuva, como ontem cumpriu, em verdade, quando abrimos uma janela e levantamos o nariz para os espaços superiores é só para comprovar se o tempo que faz é aquele que desejávamos. Ao espreitar para fora, o que Cipriano Algor queria, sem mais preâmbulos seus ou alheios, era saber se o cão ainda estava à espera de que lhe fossem dar outro nome. ou se, cansado da expectativa frustrada, tinha partido à procura de um amo mais diligente. Dele apenas se viam o focinho que descansava sobre as patas dianteiras cruzadas e as orelhas caídas, mas não havia motivo para recear que o rest do corpo não continuasse dentro da guarita. É preto, diss Cipriano Algor. Já quando fora levar a comida lhe havia parecido ter o animal essa cor, ou, como também não falta quem afirme, essa ausência dela, mas era de noite, e se de noite até os gatos brancos são pardos, o mesmo, ou em mais tenebroso se poderia dizer de um cão visto pela primeira vez debaixo d uma amoreira-preta quando uma chuva miudinha e nocturna dissolvia a linha de separação entre os seres e as coisas, aproximando-os, a eles, das coisas em que, mais tarde ou mais cedo se hão-de transformar. O cão não é realmente preto, quase qu o chegou a ser no focinho e nas orelhas, mas o resto puxa para uma cor geral de cinzento, com entres sachamento de tons escuros, até aflorar o negro retinto. A um oleiro de sessenta e quatro anos, com os problemas de visão que a idade sempre ocasiona e que deixou de usar óculos por causa do calor do forno, não se lhe pode censurar que tenha dito, É preto, uma' vez que antes era noite e chovia, e agora a distância torna nebuloso o crepúsculo da manhã. Quando Cipriano Algor se aproximar finalmente do cão verá que nunca mais poderá repetir, É preto, mas também que pecará gravemente contra a verdade se afirmar, É cinzento, sobretudo quando descobrir que uma estreita mancha branca, como uma delicada gravata, desce pelo peito do animal até ao começo do ventre. A voz de Marta soou do outro lado da porta, Pai, acorde, tem o cão à espera, Estou acordado, vou já, respondeu Cipriano Algor, mas imediatamente se arrependeu de lhe terem saído as duas últimas palavras, era pueril, era quase ridículo, um homem da sua idade a alvoroçar-se como uma criança a quem trouxeram o brinquedo sonhado, quando todos sabemos, pelo contrário, que em lugares como estes um cão é tanto mais estimado quanto mais cabalmente demonstre a sua utilidade prática, virtude de que os brinquedos não necessitam, e no que a sonhos se refere, se de cumpri-los se trata, não seria bastante um cão a quem ainda nessa noite tinha sonhado com um tigre. Apesar da repreensão que havia dado a si próprio, Cipriano Algor não perdeu tempo desta vez com arranjos e asseios, vestiu-se rapidamente e saiu do quarto. Marta perguntou-lhe, Quer que prepare alguma coisa para ele comer, Depois, agora a comida só iria distraí-lo, Vá lá, vá lá domar a fera, Não é nenhuma fera, pobre bicho, estive a observá-lo da janela, Eu também o vi, Que tal te pareceu, Não creio que seja de alguém daqui, Há cães que nunca saem dos quintais, vivem e morrem lá, salvo nos casos em que os levam ao campo para os enforcar no ramo de uma árvore ou para rematá-los com uma carga de chumbo na cabeça, Ouvir isso não é uma boa maneira de começar o dia, Realmente não é, portanto vamos principiá-lo de uma maneira menos humana, mas mais compassiva, disse Cipriano Algor saindo para o terreiro. A filha não o seguiu, deixou-se ficar entre portas, a olhar, A festa é sua, pensou. O oleiro adiantou-se alguns passos e, numa voz clara, firme, porém sem a altear demasiado, pronunciou o nome escolhido, Achado. O cão já havia levantado a cabeça quando o viu, e agora, escutado finalmente o nome por que esperava, saiu da casota em corpo inteiro, nem cão grande nem cão pequeno, um animal novo, esbelto, de pêlo crespo, realmente cinzento, realmente a atirar para o preto, com a estreita mancha branca que lhe divide o peito e que parece uma gravata. Achado, repetiu o oleiro, avanÇando mais dois passos, Achado, vem aqui. O cão ficou onde estava, mantinha a cabeça alta e meneava devagar a cauda, mas não se moveu. Então o oleiro agachou-se para nivelar os seus olhos pela altura dos olhos do animal e tornou a dizer, desta vez num tom instante, intenso, como se fosse a expressão de uma necessidade pessoal sua, Achado. O cão adiantou um passo, outro passo, outro ainda, sem se deter mais, até vir colocar-se ao alcance do braço de quem o chamava. Cipriano Algor estendeu a mão direita, quase a tocar-lhe as ventas, e esperou.
O cão fungou algumas vezes, depois alongou o pescoço, e o seu nariz frio foi roçar as pontas dos dedos que o solicitavam. A mão do oleiro avançou lentamente para a orelha do seu lado e acariciou-a. O cão deu o passo que faltava, Achado, Achado, disse Cipriano Algor, não sei que nome tinhas antes, a partir de agora o teu nome é Achado. Foi só neste momento que reparou que o animal não levava coleira e que o pêlo não era só cinzento, estava sujo de lama e de detritos vegetais, sobretudo as pernas e o ventre, sinal mais do que provável de ásperas travessias de cultivos e descampados, não de quem tivesse viajado comodamente pela estrada. Marta tinha-se aproximado, trazia um prato com um pouco de comida para o cão, nada de exageradamente substancial, apenas para confirmar o encontro
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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