Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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e celebrar o baptismo, Dá-lho tu, disse o pai, mas ela respondeu, Dê-lho, não faltarão vezes para que lho dê eu. Cipriano Algor pôs o prato no chão, depois levantou-se com dificuldade, Ai os meus joelhos, quanto daria eu para voltar a ter nem que fossem os do ano passado, Tanta diferença fazem, perguntou a filha, Nesta altura da vida até um dia faz diferença, o que vale é parecer às vezes que foi para melhor. O cão Achado, agora que já tem um nome não deveríamos usar outro com ele, quer o de cão, que pela força do hábito ainda se veio meter adiante, quer os de animal ou bicho, que servem para tudo quanto não faça parte dos reinos mineral e vegetal, porém, uma vez por outra não nos será possivel escapar a essas variantes, só para evitar repetições aborrecidas, que é a única razão por que em lugar de Cipriano Algor temos andado a escrever oleiro, mas também homem, velho e pai de Marta. Ora, como íamos dizendo, o cão Achado, depois de em duas lambidelas rápidas ter feito desaparecer a comida do prato, clara demonstração de que ainda não considerava capazmente satisfeita a fome de ontem, levantou a cabeça como quem aguarda nova porção de pitança, pelo menos foi assim que Marta interpretou o gesto, por isso disse-lhe, Tem paciência, o almoço é para depois, vai-te lá entretendo com o que já tens no estômago, foi um juízo precipitado, como tantas vezes sucede nos cérebros humanos, apesar do apetite remanente, que nunca negaria, não era a comida o que preocupava Achado nesse momento, o que ele pretendia era que lhe dessem um sinal do que deveria fazer a seguir. Tinha sede, que obviamente poderia ir saciar em qualquer das muitas poças de água que a chuva deixara ao redor da casa, mas retinha-o algo a que, se estivéssemos a falar de sentimentos de gente, não hesitaríamos em chamar escrúpulo ou delicadeza de maneiras. Se lhe tinham posto o alimento num prato, se não tinham querido que ele o tomasse grosseiramente da lama do chão, então é porque a água também deveria ser bebida de recipiente próprio. Deve ter sede, disse Marta, os cães precisam de muita água, Tem aí essas poças, respondeu o pai, não vai beber porque nao quer, Se vamos ficar com ele, não é para que ande a beber água dos charcos como se não tivesse pouso nem casa, obrigações são obrigações. Enquanto Cipriano Algor se dedicava a pronunciar frases soltas, meio sem sentido, cujo único objectivo era ir habituando o cão ao som da sua voz, mas em que de propósito, com a insistência de um estribilho, a palavra Achado voltava repetidas vezes, Marta trouxe uma malga grande de barro cheia de água limpa, que foi pôr ao lado da casota. Desafiando cepticismos, sobejamente justificados depois de milhares de relatos lidos e ouvidos sobre as vidas exemplares dos cães e seus milagres, haveremos no entanto de dizer que o Achado tornou a surpreender os novos donos ao deixar-se ficar onde estava, frente a frente com Cipriano Algor, à espera, segundo todas as aparências, de que ele chegasse ao fim do que tinha para lhe dizer. Só quando o oleiro se calou e lhe fez um gesto como a despedi-lo, é que o cão se virou para trás e foi beber. Nunca conheci um cão que se comportasse desta maneira, observou Marta, O pior, depois de tudo, respondeu o pai, será dizer-me alguém daqui que o cão lhe pertence, Não Creio que tal suceda, juraria mesmo que o Achado não pertence a estes sítios, cães de rebanho e cães de guarda não fazem o que este fez, Depois de comer vou dar uma volta por aí a perguntar, Aproveite para levar o cântaro à vizinha Isaura, disse Marta sem se dar ao trabalho de disfarçar o sorriso, Já ti nha pensado nisso, era o que dizia o meu avô, faça-se ao ced o que se poderia fazer ao tarde, respondeu Cipriano Algor enquanto olhava noutra direcção. Achado acabara de beber a su água, e porque nenhum daqueles dois parecia querer dar-lh atenção, decidiu deitar-se à entrada da casota, onde o chão es tava menos molhado.
Após o desjejum, Cipriano Algor foi escolher um cântar ao depósito de obra feita, acondicionou-o cuidadosamente na furgoneta, ajustando-o, para que não rolasse, entre as caixas de pratos, depois entrou, sentou-se e ligou o motor. Achado alçou a cabeça, era manifesto que não ignorava que a um ruído destes começa sempre por suceder um afastamento, logo se guido de um desaparecimento, mas as suas anteriores experiências de vida deviam ter-lhe recordado que existe uma maneira capaz de impedir, ao menos algumas vezes, que tais calamidades aconteçam. Ergueu-se todo sobre as altas pernas, abanando a cauda com força, como se agitasse uma vergasta, e, pela primeira vez desde que aqui viera pedir asilo, Achado ladrou, Cipriano Algor conduziu devagar a furgoneta na direcção da amoreira-preta e parou a pouca distância da casota. Julgava ter compreendido o que o Achado queria. Abriu e manteve aberta a porta do outro lado, e, antes de ter tempo para o convidar a passeio, já o cão estava dentro. Não tinha Cipriano Algor pen sado em levá-lo consigo, a sua intenção era apenas ir de morador em morador perguntando se conheciam um cão assim assim, com este pêlo e esta figura, com esta gravata e estas virtudes morais, e enquanto estivesse a descrever-lhe as diversas características rogaria a todos os santos do céu e a todos os demónios da terra que, por favor, às boas ou às más, obrigasse o interrogado a responder que nunca em vida sua semelhant bicho lhe pertencera ou dele tivera a menor notícia. Com o Achado visível dentro da furgoneta evitava-se a monotonia da descrição e poupavam-se repetições, seria bastante perguntar. Este cão é seu, ou teu, consoante o grau de intimidade com o interlocutor, e ouvir a resposta, Não, Sim, no primeiro caso passar sem mais demoras ao vizinho seguinte para não dar ocasião a emendas, no segundo caso observar atentamente as reacções do Achado, que não seria cão para se deixar levar ao engano por quaisquer mentirosas reivindicações de um falso dono. Marta, que ao ruído do motor de arranque da furgoneta aparecera, de mãos sujas de barro, à porta da olaria, quis saber se o cão também ia. O pai respondeu-lhe, Vai, vai, e daí a um minuto estava o terreiro tão deserto e Marta tão sozinha como se para ele e para ela esta tivesse sido a primeira vez.
Antes de chegar à rua onde mora Isaura Estudiosa, apelido de que, tal como os de Gacho e Algor, se desconhece a razão de ser e a proveniência, o oleiro bateu à porta de doze vizinhos e teve a satisfação de ouvir de todos eles as mesmas respostas, Meu não é, Não sei de quem seja. A mulher de um comerciante gostou do Achado ao ponto de fazer uma generosa oferta de compra, liminarmente recusada por Cipriano Algor, e em três casas onde ninguém respondeu à chamada ouviu-se o ladrar violento dos vigias caninos, o que permitiu ao oleiro o raciocínio sinuoso de que o Achado não era dali, como se em alguma lei universal dos animais domésticos estivesse escrito que onde haja um cão não possa haver outro. Cipriano Algor parou finalmente a furgoneta à porta da mulher de luto, chamou, e quando ela apareceu, vestida com a sua blusa e a sua saia negra, deu-lhe uns bons-dias muito mais sonoros do que pediria a naturalidade, as culpas do súbito desconcerto vocal tinha-as Marta por ser autora da despropositada ideia de um casamento de viúvos caducos, designação merecedora de severa censura, adiante-se já, pelo menos no que se refere a Isaura Estudiosa, que não deve ter mais de quarenta e cinco anos, e se para a conta certa for preciso acrescentar alguns mais, em verdade não se lhe notam. Ah, bons dias, senhor Cipriano, disse ela, Venho cumprir o prometido, trazer-lhe o seu cântaro, Muito obrigada, mas realmente não devia estar a incomodar-se, depois do que conversámos lá no cemitério pensei que não há grande diferença entre as coisas e as pessoas, têm a sua vida, duram um tempo, e em pouco acabam, como tudo no mundo, Ainda assim, se um cântaro pode substituir outro cântaro, sem termos de pensar no caso mais do que para deitar fora os cacos do velho e encher de água o novo, o mesmo não acontece com as pessoas, é como se no
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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