Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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Já não estou em idade de esperanças, Marçal, preciso de certezas, e que sejam das imediatas, que não esperem por um amanhã que pode já não ser meu, Compreendo, pai, a vida é um sobe-e-desce contínuo, tudo muda, mas não desanime, tem-nos a nós, à Marta e a mim, com olaria ou sem ela. Era fácil de compreender aonde Marçal queria chegar com este discurso de solidariedade familiar, na sua ideia todos os problemas, quer os de agora quer os que surgissem no futuro, passariam a ter remédio no dia em que os três se instalassem no Centro. Noutra ocasião e em outro estado de ânimo, Cipriano Algor teria respondido com rispidez, mas agora, ou fosse por tê-lo roçado a resignação com a sua asa melancólica, ou porque definitivamente não se havia perdido o cão Achado, ou ainda, sabe-se lá, por causa de uma breve conversação de duas pessoas objectivamente separadas por um cântaro, o oleiro falou com brandura, Na quinta-feira, à hora do costume, vou-te buscar, se tiveres entretanto alguma notícia, telefona, e, sem dar tempo a que Marçal respondesse, rematou o diálogo, Passo-te a tua mulher. Marta trocou algumas palavras, disse Vamos a ver como tudo isto acaba, depois despediu-se até quinta-feira e desligou. Cipriano Algor já tinha saído, estava na olaria, sentado a um dos tornos, de cabeça baixa. Fora ali que uma paragem cardíaca fulminante cortara a vida de Justa Isasca. Marta foi sentar-se no banco do outro torno e esperou. Ao cabo de um longo minuto o pai olhou para ela, depois desviou a vista.
Marta disse, Não se demorou muito tempo na vila, De facto, não, Perguntou em todas as casas se conheciam o cão, se alguém seria dono dele, Perguntei numas quantas depois achei que não valia a pena continuar, Porquê, É isto um interrogatório, Não, pai, é só uma tentativa para o distrair, custa-me vê-lo triste, Não estou triste, Então, desanimado, Também não estou desanimado, Muito bem, está como está, mas agora conte-me por que achou que não valia a pena continuar a perguntar, Pensei que se o cão tinha dono na vila e fugira dele, e, podendo voltar, não voltara, era porque desejava ser livre para procurar outro, portanto eu não tinha o direito de lhe forçar a vontade, Vendo as coisas por esse lado, tem razão, Foi o que eu disse, precisamente por essas palavras, Disse-o a quem. Cipriano Algor não respondeu. Depois, como a filha não fazia mais do que olhá-lo tranquilamente, decidiu-se, À vizinha, Qual vizinha, A do cântaro, Ah, sim, foi levar-lhe o cântaro, Se o pus na furgoneta era para isso mesmo, Claro, Pois, Então, se bem entendo, foi ela quem lhe explicou por que não valia a pena andar à procura do dono do Achado, Sim, foi ela, Não há dúvida de que é uma mulher inteligente, Parece, E lá ficou com o cântaro, Achas mal, Não se zangue, pai, estamos só a conversar, como queria o pai que eu achasse mal uma coisa tão simples como dar um cântaro, Sim, mas temos assuntos mais graves do que este, e tu aí a quereres fingir que a vida nos corre de vento em popa, Exactamente desses assuntos é que lhe quero falar, Então não percebo por que foram precisos tantos rodeios, Porque gosto de conversar consigo como se não fosse meu pai, gosto de fazer de conta, como diz, de que somos simplesmente duas pessoas que se querem muito, pai e filha que se amam porque o são, mas que igualmente se quereriam com amor de amigos se o não fossem, Vais fazer-me chorar, olha que nesta idade as lágrimas começam a ser traiçoeiras, Sabe que faria tudo para o ver feliz, Mas tentas convencer-me a ir para o Centro, sabendo que é a pior coisa que me poderia suceder, Julgava que a pior coisa que lhe poderia suceder seria ver-se separado da sua filha, Isso não é leal, talvez devesses pedir-me desculpa, E peço, realmente não foi leal, desculpe-me. Marta levantou-se e abraçou o pai, Desculpe-me, repetiu, Não tem importância, respondeu o oleiro, estivéssemos nós menos infelizes, e não falaríamos desta maneira. Marta puxou um banco para junto do pai, sentou-se, e, agarrando-lhe a mão, começou a dizer, Tive uma ideia enquanto andou por aí a passear o cão, Explica-te, Vamos pôr de parte por agora a questão do Centro, isto é, a sua decisão de ir ou de não ir connosco, Acho bem, O assunto não é para amanhã nem para o mês que vem, quando chegar o momento o pai decidirá entre ir ou ficar, a vida é sua, Obrigado por me deixares respirar, enfim, Não deixo, Que mais temos ainda, Depois de o pai ter saído vim trabalhar para aqui, primeiro tinha ido dar uma vista de olhos ao depósito e lá reparei que havia falta de vasos pequenos para flores, vinha portanto disposta a fazer uns quantos, quando de repente, já com o barro em cima do torno, percebi até que ponto era absurdo continuar com este trabalho às cegas, Às cegas, porquê, Porque ninguém me encomendou vasos de flores pequenos ou grandes, porque ninguém aguarda impaciente que eu os termine para logo vir a correr comprá-los, e quando digo vasos de flores digo quaisquer das outras peças que fabricamos, grandes ou pequenas, úteis ou inúteis, Compreendo, mas mesmo assim teremos de estar preparados, Preparados para quê, Para quando as encomendas chegarem, E que faremos entretanto se as encomendas não chegarem, que faremos se o Centro deixar de comprar, vamos viver como, e de quê, deixamo-nos ficar à espera de que as amoras madurem e o Achado consiga caçar algum coelho inválido, Tu e o Marçal não terão esse problema, Pai, combinámos que não se falaria do Centro, De acordo, segue para diante, Ora bem, supondo que um milagre leve o Centro a emendar a mão, coisa em que não acredito, nem o pai se não quiser enganar-se a si mesmo, por quanto tempo iríamos estar aqui de braços cruzados ou a fabricar louças sem saber para quê nem para quem, Na situação em que nos encontramos, não vejo que mais se possa fazer, Tenho uma opinião diferente, E que opinião diferente é essa, que mírifica ideia te ocorreu, Que fabriquemos outras coisas, Se o Centro vai deixar de comprar-nos umas, é mais do que duvidoso que queira comprar outras, Talvez não, talvez talvez, De que me estás a falar, mulher, De que deveríamos pôr-nos a fabricar bonecos, Bonecos, exclamou Cipriano Algor em tom de escandalizada surpresa, bonecos, nunca ouvi uma ideia mais disparatada, Sim, senhor meu pai, bonecos, estatuetas, manipanços, monos, bugigangos, sempre-em-pés, chame-lhes como quiser, mas não comece já a dizer que é disparate sem esperar pelo resultado dele, Falas como se tivesses a certeza de que o Centro te vai comprar essa bonecagem, Não tenho a certeza de nada, salvo que não podemos continuar aqui parados, à espera de que o mundo nos caia em cima, Sobre mim já caiu, Tudo o que cair sobre si, sobre mim cai, ajude-me, que eu o ajudarei, Depois de tanto tempo a trabalhar em louças, devo ter perdido a mão de modelar, O mesmo direi eu, mas se o nosso cão se perdeu para poder ser achado, como inteligentemente explicou a Isaura Estudiosa, também estas nossas mãos perdidas, a sua e a minha, poderão, quem sabe, voltar a ser achadas pelo barro, É uma aventura que vai acabar mal, Também acabou mal o que nao era aventura. Cipriano Algor olhou a filha em silêncio, depois pegou num bocado de barro e deu-lhe o primeiro jeito de uma figura humana. Por onde começamos, perguntou, Por onde sempre há que começar, pelo princípio, respondeu Marta.
Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegannos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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