Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida. Marta disse ao pai, Comecemos pelo princípio, e parecia que só fáltava que um e outro se sentassem à bancada a modelar bonecos entre uns dedos subitamente ágeis e exactos, com a antiga habilidade recuperada de uma longa letargia. Puro engano de inocentes e desprevenidos, o princípio nunca foi a ponta nítida e precisa de uma linha, o princípio é um processo lentíssimo, demorado, que exige tempo e paciência para se perceber em que direcção quer ir, que tenteia o caminho como um cego, o princípio é só o princípio, o que fez vale tanto como nada. Daí que tivesse sido muito menos categórico o que Marta lembrou a seguir, Só temos três dias para preparar a apresentação do projecto, é assim que se diz em linguagem de negócios e executivos, creio eu, Explica-te, não tenho cabeça para te acompanhar, disse o pai, Hoje é segunda-feira, o pai irá buscar o Marçal na quinta-feira à tarde, portanto terá de levar nesse dia ao chefe do departamento de compras a nossa proposta de fabricação de bonecos, com desenhos, modelos, preços, enfim, tudo o que possa convencê-los a comprar e os habilite a tomar uma decisão que não seja para o ano que vem. Sem notar que estava a repetir as palavras que havia dito, Cipriano Algor perguntou, Por onde começamos, mas a resposta de Marta já não foi a mesma, Teremos de fixar-nos em meia dúzia de tipos, ou ainda menos, para que não se nos complique demasiado o trabalho, calcular quantos bonecos poderemos fazer por dia, e isso depende de como os concebermos, se modelamos o barro como quem esculpe directamente na massa ou se fazemos figuras iguais de homem ou de mulher e depois as vestimos consoante as profissões, refiro-me, claro está, a bonecos de pé, em minha opinião devem ser todos assim, são mais fáceis de trabalhar, A que chamas tu vestir, Vestir é vestir mesmo, é colar ao corpo da figura despida as vestimentas e os acessórios que a caracterizam e lhe dão individualidade, julgo que duas pessoas a trabalhar por este processo se desenvolverão mais rapidamente, depois só há que ter cuidado com a pintura, não pode haver esborratadelas, Estou a ver que pensaste muito, disse Cipriano Algor, Nem por isso, o que pensei foi depressa, E bem, Não me faça corar, E muito, mesmo que digas que não, Repare como já estou corada, Felizmente para mim, és capaz de pensar depressa, de pensar muito e de pensar bem, tudo ao mesmo tempo, Olhos de pai, amores de pai, erros de pai, E que figuras crês tu que devemos fazer, Não demasiado antigas, há muitas profissões que desapareceram, hoje ninguém sabe para que serviam aquelas pessoas, que utilidade tinham, e julgo que também não devem ser figuras das de agora, para isso lá estão os bonecos de plástico, com os seus heróis, os seus rambos, os seus astronautas, os seus mutantes, os seus monstros, os seus superpolícias e superbandidos, e as suas armas, sobretudo as suas armas, Estou a pensar, de longe em longe também consigo espremer algumas ideias, embora não tão boas como as tuas, Deixe-se de modéstias fingidas, não lhe ficam bem, Estava a pensar em passar uma vista de olhos pelos livros ilustrados que aí temos, por exemplo, aquela enciclopédia velha comprada pelo teu avô, se encontrarmos lá modelos que sirvam directamente para os bonecos teremos ao mesmo tempo resolvida a questão dos desenhos que terei de levar, o chefe do departamento não perceberá se copiámos, e mesmo que percebesse não lhe daria importância, Sim senhor, aí está uma ideia que mereceria vinte valores pela tabela escolar de antigamente, Dou-me por satisfeito com um onze, que dá menos nas vistas, Vamos trabalhar.
Como será fácil imaginar, a biblioteca da família Algor não é extensa em quantidade nem excelsa em qualidade. De pessoas populares, e num sítio como este, apartado da civilização, não haveria que esperar excessos de sapiência, mas, ainda assim, podem contar-se por duas ou três centenas os livros arrumados nas prateleiras, velhos uns quantos, na meia-idade outros, e estes são a maioria, os restantes mais ou menos recentes, embora só alguns deles recentíssimos. Não há na povoação um estabelecimento que faça jus ao nobre e vetusto título de livraria, existe apenas uma pequena loja de papelaria que se encarrega de encomendar aos editores da cidade os livros de estudo necessários, e lá muito de longe em longe alguma obra literária de que se tenha falado com insistência na rádio e na televisão e cujo conteúdo, estilo e intenções corresPondam satisfatoriamente aos interesses médios dos habitantes. Marçal Gacho não é pessoa de frequentes e aturadas leituras, em todo o caso, quando aparece na olaria com um livro de presente para Marta, tem de se reconhecer que foi capaz de perceber a diferença entre o que é bom e o que não passou de medíocre, ainda que seja certo que sobre estes escorregadios conceitos de bom e de medíocre nunca nos hão-de faltar motivos sobre que discorrer e discrepar. A enciclopédia que pai e filha acabam de abrir sobre a mesa da cozinha foi considerada a melhor na época da sua publicação, enquanto hoje só poderá servir para indagar em saberes fora de uso ou que, nessa altura, estavam ainda a articular as suas primeiras e duvidosas sílabas. Colocadas em fila, uma após outra, as enciclopédias de hoje, de ontem e de transantontem representam imagens sucessivas de mundos paralisados, gestos interrompidos no seu movimento, palavras à procura do seu último ou penúltimo sentido. As enciclopédias são como cicloramas imutáveis, máquinas de mostrar prodigiosas cujos carretes se bloquearam e exibem com uma espécie de maníaca fixidez uma paisagem que, assim condenada a ser só, para todo o sempre, aquilo que tinha sido, se irá tornando ao mesmo tempo mais velha, mais caduca e mais desnecessária. A enciclopédia comprada pelo pai de Cipriano Algor é tão magnífica e inútil como um verso de que não nos conseguimos lembrar. Não sejamos, porém, soberbos e desagradecidos, recordemos a sensata recomendação dos nossos maiores, quando nos aconselhavam a guardar o que não era preciso porque, mais tarde ou mais cedo, aí iríamos encontrar aquilo que, sem o sabermos então, nos viria a fazer falta.
Debruçados sobre as velhas e amarelecidas páginas, respirando o odor húmido durante anos recluído, sem o toque do ar nem o bafejo da luz, na espessura macia do papel, pai e filha aproveitam hoje a lição, procuram o que necessitam naquilo que pensavam não servir mais. Já encontraram no caminho um académico com bicórnio de plumas, espadim e bofes na camisa, já encontraram um palhaço e um equilibrista, já encontraram um esqueleto de gadanha e passaram adiante, já encontraram uma amazona a cavalo e um almirante sem barco, já encontraram um toureiro e um homem de blusa, já encontraram um pugilista e o adversário dele, já encontraram um carabineiro e um cardeal, já encontraram um caçador e o seu cão, já encontraram um marinheiro de folga e um magistrado, um bobo e um romano de toga, já encontraram um derviche e um alabardeiro, já encontraram um guarda-fiscal e o escriba sentado, já encontraram um carteiro e um faquir, também encontraram um gladiador e um hoplita, uma enfermeira e um malabarista, um lorde e um menestrel, encontraram um esgrimista e um apicultor. um mineiro e um pescador, um bombeiro e um flautista, encontraram dois fantoches, encontraram um barqueiro, encontraram um cavador, encontraram um santo e uma santa, encontraram um demónio, encontraram a santíssima trindade, encontraram soldados e militares de todas as graduações, encontraram um escafandrista e um patinador, viram uma sentinela e um lenhador, viram um sapateiro de óculos, encontraram um que tocava tambor e outro que tocava corneta, encontraram uma velha de capote e lenço, encontraram um velho de cachimbo, encontraram uma vénus e um apolo, encontraram um cavalheiro de chapéu alto, encontraram um bispo mitrado, encontraram uma
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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