Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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dos antropólogos sobre a origem e as razões da presença de uma tal quantidade de pratos, canecas e panelas de barro, e sua problemática utilidade, num sítio desabitado como este, Desabitado, agora, daqui a mil ou dois mil anos não é nada impossível que a cidade tenha chegado até onde neste momento nos encontramos, observou Marçal. Fez uma pausa, como se as palavras que acabara de pronunciar tivessem exigido que volTasse a pensar nelas, e, no tom perplexo de quem, sem compreender como o havia conseguido, chegou a uma conclusão logicaMente impecável, acrescentou, Ou o Centro. Ora, sabendo-se que, na vida deste sogro e deste genro, a mofina questão do Centro tudo terá sido menos pacífica, há motivo para estranhar que as consequências da inesperada alusão do guarda interno Marçal Gacho se tivessem deixado ficar por ali, que a perigosa frase ou o Centro não tivesse feito disparar imediatamente uma nova discussão, repetindo-se todos os desentendimentos já conhecidos e o mesmo rosário de recriminações surdas ou explícitas. A razão de ambos terem permanecido silenciosos, supondo que é possível, a quem, como nós, observa do lado de fora, desvelar o que, com toda a probabilidade, nem para eles foi claro, terá sido o facto de aquelas palavras constituírem, na boca de Marçal, sobretudo levando em conta o contexto em que foram pronunciadas, uma novidade absoluta. Dir-se-á que não é assim, que, pelo contrário, ao admitir a possibilidade de o Centro fazer desaparecer num dia futuro, por imparável absorção territorial, os campos que a furgoneta agora vai atravessando, o guarda interno Marçal Gacho estaria a sublinhar, por sua própria conta, e a aplaudir no seu foro íntimo, a potência expansiva, tanto no espaço como no tempo, da empresa que lhe paga os modestos serviços. A interpretação seria válida e arrumaria definitivamente a questão se não se tivesse dado aquela quase imperceptível pausa, se aquele instante de aparente suspensão do pensar não correspondesse permita-se a ousadia da proposta, ao aparecimento de alguém simplesmente capaz de pensar de outra maneira. Se foi assim, é fácil de compreender que Marçal Gacho não tenha podido avançar logo pelo caminho que se abriu à sua frente, uma vez que esse caminho estava destinado a uma pessoa que não era ele. Quanto ao oleiro, esse leva vividos anos mais do que suficientes para saber que a melhor maneira de fazer morrer uma rosa é abri-La à força quando ainda não passa de uma pequena promessa em botão. Guardou por conseguinte na memória as palavras do genro e fez de conta que não se tinha apercebido do verdadeiro alcance delas. Não tornaram a falar até entrarem na povoação. Como de costume quando trazia do Centro o genro, Cipriano Algor parou à porta dos seus mal-avindos compadres, era só o tempo de Marçal entrar, dar um beijo à mãe, e ao pai, se estava em casa, informar-se de como haviam passado de saúde desde a última vez, e sair depois de ter dito, Amanhã passo por cá com mais vagar. Em geral, chegavam e sobravam cinco minutos para que a rotina do sentimento filial fosse cumprida, o resto das expansões e o mais substancial das conversas ficavam para o dia seguinte, umas vezes almoçando, outras não, mas quase sempre sem a companhia de Marta. Hoje, porém, os cinco minutos não bastaram, nem os dez, e foram quase vinte os que tiveram de gastar-se antes que Marçal reaparecesse. Entrou na furgoneta bruscamente e fechou A porta com força. Tinha a cara séria, quase sombria, uma expressÃo endurecida de adulto para qual a juvenilidade das »suas feições ainda não estava preparada. Demoraste-te muito hoje, está por lá alguém mal, algum problema na família, perguntou o sogro, solícito, Não, não é nada grave, desculpe-me por tê-lo obrigado a esperar tanto tempo, Vens aborrecido, Não é nada grave, já disse, não se preocupe. Estão quase a chegar, a furgoneta virou à esquerda para começar a subir a ladeira que leva à olaria, ao mudar de velocidade Cipriano Algor lembra-se de que passou por onde mora Isaura Estudiosa sem ter pensado nela, e é neste momento que um cão vem lá de cima a correr e a ladrar, segunda surpresa que Marçal tem hoje, ou terceira, se a que resultou ser segunda foi a visita aos pais. Donde é que saiu este cão, perguntou, Apareceu aqui há uns dias e deixámo-lo ficar, é um bicho simpático, demos-lhe o nome de Achado, embora, se pensarmos bem, os achados tenhamos sido nós, e não ele. Quando a furgoneta chegou ao final da rampa e parou, umas quantas coisas sucederam simultaneamente, ou com intervalos mínimos de tempo, Marta surgiu à porta da cozinha, o oleiro e o guarda interno saíram do carro, o Achado rosnou, Marta veio para Marçal, Marçal foi para Marta, o cão deu um rosnido profundo, o marido abraçou a mulher, a mulher abraçou o marido, logo beijaram-se, o cão deixou de rosnar e atacou uma bota de Marçal, Marçal sacudiu a perna, o cão não largou a presa, Marta gritou, Achado, o pai gritou o mesmo, o cão largou a bota e tentou filar o tornozelo, Marçal deu-lhe um pontapé com intenção mas sem demasiada violência, Marta disse, Não lhe batas, Marçal protestou, Ele mordeu-me, É porque não te conhece, A mim não me conhecem nem os cães, estas palavras terríveis saíram da boca de Marçal como se chorassem, mágoa e queixume insuportáveis cada uma delas, Marta lançou as mãos aos ombros do marido, Não repitas isso, claro que ele não repetiu, nem era preciso, há certas coiSas que se chegam a dizer-se uma vez é para nunca mais, Marta ouvirá estas palavras dentro da sua cabeça até ao último dia da vida, e quanto a Cipriano Algor, se pretendêssemos saber o que está a fazer neste momento, a resposta mais fácil seria, Nada, se não fosse a reveladora circunstância de ele ter desviado rapidamente os olhos quando ouviu o que disse Marçal, alguma coisa fez portanto. o cão tinha-se afastado na direcção da casota, mas a meio caminho parou, voltou-se e ficou a olhar. De vez em quando deixava sair um rosnido da garganta. Marta disse, Não conhece o que são abraços, deve ter pensado que me estavas a fazer mal, mas Cipriano Algor, para limpar a atmosfera, acudiu com uma ideia mais trivial, Também poderá ser que ele seja de implicar com uniformes, têm-se visto casos desses. Marçal não respondeu, movia-se entre duas consciências íntimas, a do arrependimento de ter dito palavras que ficariam para sempre e jamais como pública confissão de um desgosto escondido até este momento no mais fundo de si mesmo, e a de uma instintiva intuição de que havê-las deixado sair desta maneira poderia significar que estava a ponto de largar um caminho para tomar por outro, embora fosse ainda muito cedo para saber em que direcção este o levaria. Beijou Marta na testa e disse, Vou mudar de roupa. A tarde decaía rapidamente, seria noite em pouco mais de meia hora. Cipriano Algor disse para a filha, Lá falei com o sujeito das compras, Por causa do disparate do cão, quase me esquecia de lhe perguntar como se passou a conversa, Disse-me que talvez amanhã dê uma resposta, Tão depressa, Custa a crer, realmente, e ainda mais custará pensar que a decisão pode vir a ser positiva, foi o que me pareceu entender, pelo menos, Oxalá não se engane, A única bela sem senão que conheço és tu, Que quer dizer, a que propósito vêm agora as belas e os senões, É que depois de uma notícia boa sempre vem uma notícia má, Qual é a de agora, Terei de retirar em duas semanas as louças que eles conservam em armazém, Vou consigo para o ajudar, Nem por sonhos, se o Centro nos fizer a encomenda, todo o tempo aqui vai ser pouco. há que modelar os bonecos definitivos, fazer os moldes, trabalhar na moldagem, pintar, carregar e descarregar o forno, gostaria de entregar a primeira encomenda antes de deixar vazias as prateleiras do armazém, não seja que o homem mude de ideias, E o que fazemos com toda essa louça, Não te preocupes, já combinei com o Marçal, largo-a aí no meio do campo, em qualquer buraco, quem quiser que a aproveite, Com tantas mudanças, a maior parte dela ficará partida, É o mais certo. O cão veio e tocou com o nariz a mão de Marta,
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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