Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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parecia estar a pedir que lhe explicassem a nova composição do agregado familiar, como em algum tempo se usou dizer. Marta ralhou, A ver como te portas daqui para diante, podes ter a certeza de que entre ti e o marido, escolho o marido. A última sombra da amoreira-preta recolhia-se a pouco e pouco para começar a sumir-se na sombra mais profunda da noite que se aproximava. Cipriano Algor murmurou, Há que ter cuidado com o Marçal, o que ele disse há bocado foi como uma facada, e Marta respondeu, também murmurando, Foi uma facada, doeu muito. A lanterna por cima da porta acendeu-se. Marçal Gacho apareceu no limiar, tinha trocado o uniforme por uma roupa comum, de andar por casa. O cão Achado olhou-o com atenção, de cabeça alta avançou uns passos para ele, depois estacou'expectante. Marçal aproximou-se, Pazes feitas, perguntou. O nariz frio foi roçar ao de leve a cicatriz da mão esquerda, Pazes feitas. Disse o oleiro, Ora aí está como eu tinha razão, o nosso Achado não gosta é de fardas, Na vida tudo são fardas, o corpo só é civil verdadeiramente quando está despido, respondeu Marçal, mas já não se percebia amargura na sua voz.
Durante o jantar conversou-se muito sobre como havia ocorrido a Marta a ideia de fazer os bonecos, também sobre as dúvidas, os temores e as esperanças que agitaram a casa e a olaria naqueles últimos dias, e, passando a questões práticas, calcularam-se os tempos necessários a cada fase da produção, assim como os respectivos factores de segurança, diferentes uns e outros dos fabricos a que estavam habituados, Tudo depende da quantidade que nos for encomendada, o que convém é que não sejam nem de menos nem de mais, será o sol para a eira e a chuva para o nabal, como no tempo em que não existiam estufas de plástico, comentou Cipriano Algor. Depois da mesa levantada, Marta mostrou ao marido os esboços que tinha feito, as tentativas, as experiências de cor, a velha enciclopédia donde havia copiado os modelos, à vista parecia pouquíssimo trabalho para tão grandes ansiedades, mas é preciso compreender que nas circum-navegações da vida uma brisa amena para uns pode ser para outros uma tempestade mortal, tudo depende do calado do barco e do estado das velas. No quarto, com a porta fechada, Marçal pensou que já não valia a pena pedir a Marta explicações por não o ter informado da ideia dos bonecos, em primeiro lugar porque essa água já levava horas que tinha passado por baixo da ponte e portanto affastara no seu curso o despeito e o mau humor, em segundo lugar porque o apoquentavam cuidados muito mais sérios que o de sentir-se ou imaginar-se desfeiteado. Cuidados mais sérios e não menos urgentes. Quando um homem regressa a casa e à mulher depois de uma privação de dez dias, sendo jovem como é este Marçal, ou, no caso de velho ser, se ainda não pôde a idade abater-lhe o ânimo amatório, o natural é querer dar satisfação imediata à tremura dos sentidos, ficando a conversa para depois. Em geral, as mulheres não estão de acordo. Se o tempo não urge especialmente, se, ao contrário, A noite é nossa, e quem diz a noite, diz a tarde ou a manhã, o mais certo é a mulher preferir que o acto amoroso se inicie por uma conversazinha pausada, sem pressas, e tanto quanto possível alheia àquela ideia fixa que, semelhante a um pião zumbidor, gira na cabeça do homem. Como um cântaro profundo que lentamente se enche, a mulher vai-se aproximando do homem aos poucos e poucos, ou, talvez com mais rigorosa conformidade, fazendo-o aproximar-se dela, até que a urgência de um e a ansiedade do outro, já declaradas, já coincidentes, já inadiáveis, façam subir cantando a água unânime. Há excepções, porém, como é este caso de Marçal que, por muito que quisesse puxar Marta para a cama, não o poderia fazer enquanto não despejasse o pesado saco das preocupações que carrega, não desde o Centro, não da conversa que havia tido com o sogro durante o caminho, mas da casa dos pais. No entanto, ainda desta vez aprimeira palavra iria ser dita por Marta, É possível que os cães não te conheçam, Marçal, mas a tua mulher conhece-te, Não quero falar disso, Devemos falar do que dói, Fui estúpido e injusto, Deixemos de lado o estúpido, porque não o és, fiquemo-nos pelo injusto, Já o reconheci, Também não foste injusto, Não compliquemos as coisas, Marta, por favor, o que lá vai, lá vai, As coisas que parecem ter passado são as que nunca acabam de passar, os injustos temos sido nós, Nós, quem, Eu e o pai, sobretudo eu, o pai tem a filha casada e medo de a perder, não precisaria de dar outra justificação, E tu, Eu sou a que não tem desculpa, Porquê, Porque te amo, e às vezes, demasiadas vezes, dou a impressão de esquecer, ou até esqueço mesmo, que é a uma pessoa concreta, completa no ser que é, que devo esse amor, não a alguém que tivesse de contentar-se com um sentimento meio difuso que pouco a pouco se iria resignando, como se de um inapelável destino se tratasse, à sua própria e mortal vaguidade, O casamento é isso, as pessoas vivem dessa maneira, basta-me olhar os meus pais, Ainda tenho outra culpa, Não continues, por favor, Vamos até ao fim, Marçal, já agora vamos até ao fim, Por favor, Marta, Não queres que continue porque adivinhas o que tenho para dizer, Por favor, Quando disseste que a ti nem os cães te conhecem, o que estavas era a dizer à tua mulher que ela, não só não te conhece, como nada tem feito para te conhecer, enfim, digamos quase nada, Não é verdade, tu conheces-me, ninguém me conhece melhor do que tu, Só o suficiente para ter compreendido o sentido das tuas palavras, mas nisso não fui mais inteligente do que o meu pai, que as compreendeu logo como eu, De nós dois, a pessoa adulta és tu, eu ainda não passo de uma criança, Talvez tenhas razão, pelo menos estás a dar-me razão a mim, esta maravilhosa adulta que sou, esta sensatíssima mulher de Marçal Gacho, não foram capazes de perceber, quando deveriam, o que representa uma pessoa que vai ter a simplicidade e a honestidade de dizer de si mesmo que é uma criança, Não serei sempre assim, Não serás assim sempre, por isso, enquanto é tempo, terei de fazer tudo quanto estiver ao meu alcance para te compreender como és, e provavelmente chegar à conclusão de que, em ti, ser criança é, afinal de contas, uma forma diferente de ser adulto, Por este andar deixarei de saber quem sou, Cipriano Algor dir-te-ia que essa é uma daquelas coisas que nos acontecem muitas vezes na vida, Creio que começo a entender-me com o teu pai, Não imaginas, imaginas sim, quanto isso me torna feliz. Marta agarrou nas mãos de Marçal e beijou-lhas, depois apertou-as contra o peito, Às vezes, disse, deveríamos regressar a certos gestos de ternura antigos, Que sabes tu disso, não viveste nos tempos da reverência e do beija-mão, Leio o que contam os livros, é o mesmo que lá ter estado, de qualquer modo não foi em beija-mãos e reverências que pensei, Eram costumes diferentes, modos de sentir e de comunicar que já não são os nossos, Ainda que te possa parecer estranha a comparação, os gestos, para mim, são mais do que gestos, são como desenhos feitos pelo corpo de um no corpo do outro. O convite era explícito, mas Marçal fez que não tinha entendido, embora compreendesse que chegara o momento de atrair Marta para si, de lhe acariciar os cabelos, de a beijar devagar na face, nas pálpebras, suavemente, como se não sentisse desejo, como se estivesse só distraído, grave equívoco será pensar assim, o que nestas ocasiões sucede é ter tomado o desejo conta absoluta do corpo para dele se servir, perdoe-se o materialista e utilitário símile, como se de uma ferramenta de uso múltiplo se tratasse, tão habilitada para deslizar como para lavrar, tão potente para emitir como para receber, tão minuciosa para contar como para medir, tão activa para subir como para descer. Que tens, perguntou Marta, subitamente irresoluta, Nada de importante, apenas uns pequenos aborrecimentos, Questões de trabalho, Não, Então, quê, É tão pouco o tempo que já temos para estar juntos, ainda por cima vêm meter-se na nossa vida, Não vivemos numa redoma,
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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