Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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Dá-me um beijo, guarda interno, e vamos dormir, Toma lá o beijo, mas há uma questão de que ainda precisamos de falar, Qual, Que a partir de hoje passas a trabalhar menos na olaria e daqui por dois ou três meses deixas de trabalhar de todo, Achas que o meu pai pode fazer tudo, principalmente se o Centro fizer a encomenda dos bonecos, Contrata-se alguém para o ajudar, Bem sabes que são penas perdidas, ninguém quer trabalhar em olarias, O teu estado, O meu estado, quê, a minha mãe trabalhou sempre quando esteve grávida de mim, Como o sabes, Lembro-me. Riram ambos, depois Marta propôs, Por enquanto não falaremos disto ao meu pai, ele ficaria contentíssimo, mas é preferível que não lho digamos, Porquê, Não sei, andam demasiadas coisas a rodar naquela cabeça, A olaria, A olaria é só uma delas, O Centro, O Centro também, a encomenda que virá ou não virá, as louças que é preciso retirar, mas há outras questões, a história de um cântaro a que se lhe soltou a asa, por exemplo, depois te contarei. Marta foi a primeira a adormecer. Marçal já não estava tão assustado, mais ou menos sabia por que caminho teria de ir depois do nascimento, e quando, passada quase meia hora, o sono lhe tocou com os seus dedos de fumo, deixou-se levar já com o espírito em paz, sem resistência. O seu último pensamento consciente foi para perguntar-se se Marta lhe teria falado realmente da asa de um cântaro, Que disparate, devo de estar a sonhar, pensou. Foi o que menos dormiu, mas foi o primeiro a acordar. A luz do amanhecer coava-se pelas frinchas das portadas interiores. Vais ter um filho, disse consigo mesmo, e repetiu, um filho, um filho, um filho. Logo, movido por uma curiosidade sem desejo, quase inocente, se é que ainda há inocência nesse lugar do mundo a que chamamos cama, levantou os cobertores para olhar o corpo de Marta. Estava virada para o seu lado, com os joelhos um pouco dobrados. A parte inferior da camisa de dormir enrolava-se-lhe na cintura, a brancura do ventre mal podia distinguir-se na penumbra e desaparecia completamente na zona escura do púbis. Marçal deixou descair os cobertores e compreendeu que o momento das carícias não se tinha retirado, tinha permanecido a pé firme no quarto durante toda a noite, e ali continuava, à espera. Provavelmente tocada pelo ar frio que se deslocara com o movimento da roupa da cama, Marta suspirou e mudou de posição. Como um pássaro tenteando suavemente o sítio para o seu primeiro ninho, a mão esquerda de Marçal, leve, mal lhe roçava o ventre. Marta abriu os olhos e sorriu, depois disse brincando, Bons dias, senhor pai, mas a sua expressão mudou de repente, tinha acabado de perceber que não estavam sós no quarto. O momento das carícias insinuara-se entre eles, metera-se entre os lençóis, não sabia dizer explicitamente o que queria, mas fizeram-lhe a vontade.
Cipriano Algor já andava por fora. Dormira mal a pensar se receberia hoje a resposta do chefe do departamento de compras, e que resposta seria ela, se positiva, se negativa, se reticente, se dilatória, mas o que lhe tirou o sono por completo durante algumas horas foi uma ideia que lhe brotou na cabeça aí pelo meio da noite e que, como todas as que nos assaltam em horas mortas de insónia, achou ser extraordinária, magnifica, e até, no caso em apreciação, golpe de um talento negociador digno de todos os aplausos. Ao acordar das escassas duas horas de inquieto sono que o corpo desesperado havia podido subtrair à sua própria extenuação, percebeu que a ideia, afinal, não valia nada, que o mais prudente seria não alimentar ilusões acerca da natureza e do carácter de quem maneja a vara do mando, e que qualquer ordem vinda de quem estiver investido de uma autoridade acima do comum deverá ser considerada como se do mais irrefragável ditame do destino se tratasse. Na verdade, se a simplicidade é uma virtude, nenhuma ideia poderia ser mais virtuosa do que esta, como imediatamente se apreciará, Senhor chefe de departamento, diria Cipriano Algor, estive a pensar no que me disse, de ter duas semanas para retirar as louças que estão a ocupar espaço no armazém, na altura não me lembrei, provavelmente por causa da emoção que senti ao perceber que havia uma leve esperança de continuar a ser fornecedor do Centro, mas depois pus-me a pensar, a pensar, e vi que não é fácil, que é até impossível, satisfazer ao mesmo tempo as duas obrigações, isto é, retirar a louça e fazer os bonecos, sim, bem sei que ainda não disse que os encomendará, mas, na suposição de que o venha a fazer, ocorreu-me, por mero espírito previsor, propor-lhe uma alternativa que seria deixar-me livre a primeira semana para poder avançar no fabrico dos bonecos, retirar metade da louça na segunda semana, voltar aos bonecos na terceira e rematar o transporte da louça na quarta, bem sei, bem sei, não preciso que mo diga, não estou a fazer de conta de que não há uma outra opção, essa que seria começar pela louça na primeira semana, e depois ir revezando, seguir a sequência, ora bonecos, ora louça, ora bonecos, mas creio que neste caso particular se deveriam tomar em consideração os factores psicológicos, toda a gente sabe que o estado de espírito do criador não é o mesmo que o do destruidor, daquele que destrui, se eu pudesse começar pelos bonecos, isto é, pela criação, de mais a mais na excelente disposição de ânimo em que me encontro, aceitaria com outra coragem a dura tarefa de ter de destruir os frutos do meu próprio trabalho, que é o mesmo que destruí-los não ter a quem os vender, e, pior ainda, não achar quem os queira, mesmo dados. Este discurso, que às três da madrugada parecia ao seu autor conter uma lógica irresistível, tornou-se-lhe absurdo logo ao primeiro raiar da manhã, e definitivamente ridículo à denunciadora luz do sol. Enfim, o que tiver de ser, será, disse o oleiro ao cão Achado, o diabo não há-de estar sempre atrás da porta. Por causa da manifesta diferença de conceitos e da distinta natureza dos vocabulários de um e outro, não podia o Achado aspirar sequer a uma mera compreensão preliminar do que o dono pretendia comunicar-lhe, e de certo modo ainda bem que assim era, porque, condição indispensável para passar ao segUinte grau de entendimento, teria de lhe perguntar o que era isso do diabo, figura, entidade ou personagem, como se supõe, ausente do mundo espiritual canino desde o princípio dos tempos, e está-se mesmo a ver que, fazendo-se uma pergunta destas logo ao começo, a discussão não teria fim. Com o aparecimento de Marta e de Marçal, insolitamente risonhos, como se desta vez a noite os tivesse premiado com algo mais do que o costumado desafogo dos desejos acumulados durante os dez dias de separação, Cipriano Algor despediu os últimos restos de mau humor, e, acto contínuo, por mérito de decursos mentais facilmente delineáveis por quem conhecesse a premissa e a conclusão, achou-se a pensar na Isaura Estudiosa, nela em pessoa, mas também no nome que usa, que não se percebe por que haveremos nós de continuar a chamar-lhe Estudiosa, se esse Estudioso lhe veio do marido, e ele está morto, Na primeira altura, pensou o oleiro, não me esquecerei de lhe perguntar qual é o apelido, o seu próprio, o de origem, o de família. Absorto na grave decisão que tinha acabado de tomar, diligência das mais temerárias no território reservado do nome, de facto não é a primeira vez que uma história de amor, por exemplo, para só falar destas, principia pela fatal curiosidade, Que nome é o seu, perguntou ela, Cipriano Algor não reparou logo que Marçal e o cão estavam a confraternizar e a jogar como velhos amigos que há muito tempo não se vissem, Era a farda, dizia o genro, e Marta repetia, Era a farda. O oleiro olhou-os com estranheza, como se todas as coisas do mundo tivessem mudado de repente de sentido, seria talvez por haver pensado na vizinha Isaura mais pelo nome que tinha do que pela mulher que era, realmente não é comum, mesmo em pensamentos distraídos, trocar-se uma coisa pela outra, salvo se se trata de uma das consequências de ter vivido muito, se calhar há coisas que só
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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