Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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e não se apercebia de que as suas palavras soavam a justificação improvisada, ou então via que o eram e não conseguira evitá-lo. É certo que lhe havia faltado a coragem para parar a furgoneta e ir bater à porta da viúva de Joaquim Estudioso, mas essa não foi a única razão por que, para usar uma expressão forte, se acobardou, o que ele temeu sobretudo foi o ridículo de encontrar-se diante da mulher sem saber que dizer-lhe e, em desespero de causa, acabar por lhe perguntar pelo cântaro. Uma importante dúvida ficará sem esclarecimento para todo o sempre, isto é, se Cipriano Algor, no caso de ter podido falar dois minutos que fosse com Isaura Estudiosa, ainda assim teria entrado em casa a falar de mortos, fumos e crematórios, ou se, pelo contrário, o prazer de uma amena conversação entreportas teria feito acudir ao seu espírito algum tema mais aprazível, como o regresso das andorinhas ou a abundância de flores que já se observa nos campos. Marta dispôs sobre a mesa da cozinha os seis desenhos da última fase preparatória, por ordem de escolha, o bobo, o palhaço, a enfermeira, o esquimó, o mandarim, o assírio de barbas, em tudo semelhantes àqueles que foram levados ao julgamento do chefe do departamento de compras, uma ou outra diferença de pormenor, ligeiríssimas, não bastam para considerá-los versões diferentes das mesmas propostas. Marta puxou uma cadeira para que o pai se sentasse, mas ele deixou-se ficar de pé. Apoiava as mãos no tampo da mesa, olhava as figuras uma após outra, finalmente disse, é pena que não tenhamos também as vistas de perfil, Para quê, Dar-nos-iam uma noção mais precisa de como os devemos fabricar, A minha ideia, lembra-se, foi modelá-los nus e depois vestilos, Não creio que seja uma boa solução, Porquê, Estás a esquecer-te de que são mil e duzentos, Sim, bem sei, são mil e duzentos, Modelar mil e duzentas estatuetas nuas e logo vesti-las uma por uma, seria fazer e tornar a fazer, representaria o dobro do trabalho, Tem razão, fui estúpida em não o ter pensado, Se vamos a isso, fui tão estúpido como tu, julgámos que o Centro não escolheria mais do que três ou quatro bonecos, e também não nos passou pela cabeça que a primeira encomenda viesse a ser tão avultada, Portanto, só temos uma maneira, disse Marta, Exactamente, Modelar os seis bonecos que servirão para os moldes, cozê-los, fazer as cofragens, decidir se vamos trabalhar com barbotina de enchimento ou com cama de barro, Para a barbotina não me parece que tenhamos experiência suficiente, saber teoricamente como se faz não basta, aqui sempre trabalhámos a dedo, disse Cipriano Algor, Seja então a dedo, Quanto às cofragens, encarregam-se aí a um carpinteiro, Mas primeiro há que desenhar os perfis, disse Marta, e também os dorsos, claro está, Vais ter de inventar, Não será complicado, apenas algumas linhas simples que guiem o essencial da modelação. Eram dois generais pacíficos estudando o mapa das operações, elaborando a estratégia e a táctica, calculando os custos, avaliando os sacrifícios. Os inimigos a abater são estes seis bonecos, meio sérios meio grotescos, feitos de papel pintado, haverá que forçá-los à rendição pelas armas do barro e da água, da madeira e do gesso, das tintas e do fogo, e também pelo afago incansável das mãos, que não só para amar se necessitam elas e ele. Foi então que Cipriano Algor disse, Uma coisa há a que deveremos dar atenção, que o molde leve apenas dois tacelos, um só a mais que fosse complicar-nos-ia o trabalho, Creio que dois serão suficientes, estes bonecos são simples, frente e costas, e já está, nem quero imaginar as dificuldades se tivéssemos de atrever-nos com o alabardeiro ou o esgrimista, com o cavador ou o flautista, ou o lanceiro a cavalo, ou o mosqueteiro de chapéu de plumas, disse Marta, Ou o esqueleto de asas e gadanha, ou a santíssima trindade, disse Cipriano Algor, Tinha asas, A qual dos dois te referes, Ao esqueleto, Tinha, ainda que não perceba eu por que diabo a representaram alada se ela já está em toda a parte, até mesmo no Centro, como esta manhã se viu, Suponho que é do seu tempo, notou Marta, o dito de que quem fala do barco quer embarcar, Esse não é do meu tempo, é do tempo do teu bisavô, que nunca viu o mar, se o neto fala tanto de barco é para não se esquecer de que não quer fazer viagem nele, Tréguas, senhor pai, Não vejo a bandeira branca, Aqui a tem, disse Marta, e deu-lhe um beijo. Cipriano Algor juntou os desenhos, o plano da batalha estava traçado, não faltava mais do que tocar o cornetim e dar a ordem de assalto, Avante, mãos à obra, mas no último instante viu que estava a faltar um cravo na ferradura do cavalo do estado-maior, ora, a sorte da guerra talvez viesse a depender desse cavalo, dessa ferradura e desse cravo, é sabido que um cavalo coxo não leva recados, ou, se os leva, arrisca-se a deixá-los pelo caminho. Há ainda outra questão, e espero que seja a última, disse Cipriano Algor, De que foi que se lembrou agora, Dos moldes, Já falámos dos moldes, Falámos das madres dos moldes, só das madres, e essas são para guardar, do que se trata é dos moldes de uso, não se pode pensar em moldar duzentos bonecos com um só molde, não aguentaria por muito tempo, principiaríamos com um palhaço desbarbado e acabaríamos com uma enfermeira barbuda. Marta desviara os olhos ao ouvir as primeiras palavras, sentia que o sangue lhe estava a subir à cara e que nada podia fazer para o obrigar a regressar à espessura protectora das veias e das artérias, lá onde a vergonha e o pudor se disfarçam de naturalidade e de singeleza, a culpa tinha-a aquela palavra, madre, e as outras que dela nascem, mãe, maternidade, materno, maternal, a culpa tinha-a o seu silêncio, Por enquanto não falaremos disto ao meu pai, dissera, e agora não podia ficar calada, é certo que um atraso de dois dias, ou três, se quisermos contar já este, é nada para a maioria das mulheres, mas ela sempre tinha sido exacta, matemática, regularíssima, um pêndulo biológico, por assim dizer, se houvesse a mais mínima dúvida no seu espírito não o teria comunicado logo a Marçal, e agora que fazer, o pai está à espera duma resposta, o pai está a olhá-la com ar de estranheza, nem sequer tinha sorrido à graça dele sobre a enfermeira barbuda, simplesmente não o ouvira, Por que estás a corar, impossível responder-lhe que não é verdade, que não está a corar, daqui a pouco, sim, poderia dizê-lo, porque subitamente irá empalidecer, contra este sangue denunciador e as suas maneiras opostas de acusar não há outro valimento que uma confissão completa, Pai, acho que estou grávida, disse, e baixou os olhos. As sobrancelhas de Cipriano Algor ergueram-se de golpe, a expressão do rosto passou-lhe da estranheza a uma perplexidade surpreendida, à confusão, depois pareceu que procurava as palavras mais apropriadas à circunstância, mas não encontrou senão estas, Por que mo dizes agora, por que mo dizes assim, claro que ela não responderá Lembrei-me de repente, para fingimentos já basta, Foi porque o pai disse a palavra madre, Eu disse realmente essa palavra, Sim, quando falou dos moldes, Tens razão, já me lembro. O diálogo deslizava rapidamente para o absurdo, para o cómico, Marta sentia uma vontade louca de rir, mas de súbito saltaram-lhe as lágrimas, as cores regressaram-lhe ao rosto, não é invulgar que abalos tão opostos, tão contrários como estes tenham modos parecidos de manifestar-se, Creio que sim, pai, creio que estou grávida, Ainda não tens a certeza, Sim, tenho a certeza, Por que dizes então que crês, Sei lá, perturbação, nervosismo, é a primeira vez que sucede, O Marçal já sabe, Disse-lho quando chegou, Por isso vocês estavam tão diferentes do costume ontem de manhã, Que ideia, foi impressão sua, estávamos como sempre, Se cuidas que a tua mãe e eu ficámos como sempre no teu dia, Claro que não, desculpe. A interrogação que Marta via aproximar-se desde o princípio da conversa acabou por chegar, E por que não mo tinhas dito já, Preocupações, tem-nas o pai, e de sobra, Vês-me com cara de preocupado, agora que já sei, perguntou Cipriano
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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