Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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Algor secamente, É também o que ela crê, por isso o bolo é como a primeira metade de uma despedida, Espero não estar em casa na altura da segunda, Porquê, perguntou Marta. Cipriano Algor não respondeu. Saiu da cozinha para o quarto, despiu-se rapidamente, lançou um relance de olhos ao que o espelho da cómoda lhe mostrava do seu corpo e meteu-se no duche. Um pouco de água salgada misturou-se à agua doce que caía do chuveiro.
Com apreciável e tranquilizadora unanimidade sobre o significado da palavra, os dicionários definem como ridículo tudo quanto se mostre digno de riso e zombaria, tudo o que mereça escárnio, tudo o que seja irrisório, tudo o que se preste ao cómico. Para os dicionários, a circunstância parece não existir, se bem que, obrigatoriamente chamados a explicar em que consiste, lhe chamem estado ou particularidade que acompanha um facto, o que, entre parêntesis, claramente nos aconselha a não separar dos factos as suas circunstâncias e a não os julgar a eles sem as ponderar a elas. Seja no entanto ridículo em modo supino este Cipriano Algor que se extenua a descer a pendente da cova carregando nos braços as indesejadas louças em vez de simplesmente as lançar lá de cima ao acaso, reduzindo-as in continenti a cacos, que foi como depreciativamente as classificou quando descreveu à filha os trâmites e episódios da traumática operação de transbordo. Não há, porém, limites para o ridículo. Se algum dia, como Marta imaginou, um garoto da povoação resgatar do entulho e levar para casa um prato rachado, poderemos ter a certeza de que a inconveniente mazela já vinha do armazém, ou então, por causa do inevitável entrechocar dos barros, provocado pelas irregularidades da estrada, teria sucedido durante o transporte desde o Centro até à cova. Basta ver com que cuidados desce Cipriano Algor de cada vez o declive, com que atenção descansa no solo as diferentes peças de louça, como as arruma irmãs com irmãs, como as encaixa quando tal é possível e aconselhável, bastará ver a irrisória cena que aos nossos olhos se oferece para ficarrnos habilitados a afirmar que aqui não se partiu um único prato, nem nenhuma chávena perdeu a asa, nem nenhum bule ficou sem bico. As louças empilhadas cobrem em filas regulares o recanto de chão escolhido, rodeiam os troncos das árvores, insinuam-se entre a vegetação baixa, como se em algum livro dos grandes estivesse escrito que só desta maneira é que deveriam ficar ordenadas até à consumação do tempo e à improvável ressurreição dos restos. Dir-se-á que o comportamento de Cipriano Algor é ridículo em absoluto, mas ainda neste caso seria bom que não esquecêssemos a importância decisiva do ponto de vista, estamos a referir-nos desta vez a Marçal Gacho que, na vinda a casa para o seu dia de repouso, e cumprindo o que é normal entender-se por deveres elementares de solidariedade familiar, não só ajudou o sogro na descarga da louça como também, sem dar qualquer mostra de estranheza ou duvidosa perplexidade, sem perguntas directas ou rodeadas, sem olhares irónicos ou compassivos, lhe seguiu tranquilamente o exemplo, chegando ao extremo de por sua própria iniciativa ajustar um bambeamento periclitante, rectificar um alinhamento defeituoso, reduzir uma altura excessiva. É portanto natural esperar que, no caso de que Marta venha a repetir aquela pejorativa e desafortunada palavra que empregou na conversação com o pai, o seu próprio marido, graças à irrecusável autoridade de quem com os seus olhos viu o que havia para ver, a corrija, Não é entulho. E se ela, a quem vimos conhecendo como alguém que de todas as coisas necessita explicação e clareza, insistir que sim senhor, que é entulho, que é esse o nome dado desde sempre aos detritos e materiais inúteis que são atirados para dentro das covas a fim de as encher, excluídas dessa designação as sobras humanas, que têm outro nome, certamente Marçal lhe dirá na sua voz séria, Não é entulho, eu estive lá. Nem ridículo, acrescentaria, se a questão se apresentasse.
Quando entraram em casa havia, cada uma no seu género, duas novidades de tomo. O carpinteiro tinha finalmente entregado as cofragens, e Marta lera no seu livro que, em caso de enchimento por via líquida, não é prudente esperar de um molde mais do que quarenta cópias satisfatórias, Quer dizer, disse Cipriano Algor, que iremos precisar de trinta moldes pelo menos, cinco para cada duzentos bonecos, será muito trabalho antes e muito trabalho depois, e não tenho a certeza de que com a nossa falta de experiência os moldes venham a sair-nos perfeitos, Quando calcula que terá retirado a louça toda do armazém do Centro, perguntou Marta, Creio que não chegarei a precisar da segunda semana inteira, talvez dois ou três dias sejam suficientes, A segunda semana é esta, corrigiu Marçal, Sim, segunda das quatro, mas primeira do transporte, a terceira será a segunda do fabrico, explicou Marta, Com tanta confusão de semanas que não e de semanas que sim, não admira que tu e o pai andem algo desnorteados, Cada um de nós pelas razões que lhe são próprias, eu, por exemplo, estou grávida e ainda não me habituei por completo à ideia, E o pai, O pai falará por si mesmo, se quiser, Não sofro de pior desnorte que ter de fabricar mil e duzentos bonecos de barro e não saber se o irei conseguir, cortou Cipriano Algor. Estavam na olaria, alinhados na bancada os seis bonecos pareciam aquilo que dramaticamente eram, seis objectos insignificantes, mais grotescos uns do que outros pelo que representavam, mas todos iguais na sua lancinante inutilidade. A fim de que o marido pudesse vê-los, Marta havia retirado os panos molhados que os envolviam, mas quase se arrependia de o ter feito, era como se aqueles obtusos manipanços não merecessem o trabalho que tinham dado, aquele repetido fazer e desfazer, aquele querer e não poder, aquele experimentar e emendar, não é verdade que só as grandes obras de arte sejam paridas com sofrimento e dúvida, também um simples corpo e uns simples membros de argila são capazes de resistir a entregar-se aos dedos que os modelam, aos olhos que os interrogam, à vontade que os requereu. Noutra ocasião pediria que me dessem as férias, poderia ajudar-vos em alguma coisa, disse Marçal. Apesar de aparentemente completa na sua formulação, a frase continha prolongamentos problemáticos que não precisaram de enunciação para serem percebidos por Cipriano Algor. O que Marçal tinha querido dizer, e que, sem o ter dito, acabara por dizer mesmo, era que, estando ele à espera de uma mais ou menos previsível promoção ao escalão de guarda residente, os seus superiores não ficariam satisfeitos se ele se ausentasse para férias precisamente nesta altura, como se a notícia pública da sua ascensão na carreira não passasse de um episódio banal, de somenos importância. Este prolongamento, porém, era óbvio e decerto o menos problemático de quantos outros mais houvesse. A questão essencial, involuntariamente subjacente às palavras ditas por Marçal, continuava a ser a preocupação sobre o futuro da olaria, sobre o trabalho que nela se fazia e sobre as pessoas que o executavam e que, melhor ou pior, dele tinham vivido até agora. Aqueles seis bonecos eram como seis irónicos e insistentes pontos de interrogação, cada um deles a querer saber de Cipriano Algor se era tão confiante que pensava dispor, e por quanto tempo, caro senhor, das forças necessárias para governar sozinho a olaria quando a filha e o genro fossem viver para o Centro, se era tão ingénuo ao ponto de considerar que poderia atender com satisfatória regularidade as encomendas seguintes, no caso providencial de virem a ser feitas, e, enfim, se era suficientemente estúpido para imaginar que daqui em diante as suas relações com o Centro e o chefe do departamento de compras, tanto as comerciais como as pessoais, seriam uma contínua e perene maré de rosas, ou, como com incómoda precisão e amargo cepticismo perguntava o esquimó, Crês tu que me vão querer sempre. Foi neste momento que a lembrança de Isaura Madruga passou pela mente de Cipriano Algor, pensou nela
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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