Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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ou maus motivos, por justas ou injustas razões, não possam, não queiram ou não saibam reconhecer-se nos próprios. Na verdade, apesar de todos os seus defeitos, a vida ama o equilíbrio, se fosse só ela a mandar faria que a cor de ouro estivesse permanentemente sobre a cor de azul, que todo o côncavo tivesse o seu convexo, que não acontecesse nenhuma despedida sem chegada, que a palavra, o gesto e o olhar se comportassem como gémeos inseparáveis que em todas as circunstâncias dissessem o mesmo. Seguindo vias para cuja caracterização pormenorizada não nos reconhecemos nem aptos nem idóneos, mas de cuja existência e intrínseca virtude comunicativa temos absoluta certeza, tanto como das nossas próprias, foi o conj'unto de observações que acabam de ser expendidas que fez nascer em Marçal Gacho uma ideia, logo transmitida ao sogro com o filial alvoroço que se adivinha, É possível trazer o que falta da louça de uma só vez, anunciou, Nem sequer sabes quanta lá temos, penso que ainda umas poucas de furgonetas, objectou Cipriano Algor, Não falo de furgonetas, o que digo é que a louça não será tanta que uma camioneta vulgar não possa resolver o assunto em uma única carga, E onde é que iremos descobrir essa preciosa camioneta, perguntou Marta, Alugamo-la, Custa muito dinheiro, não terei que chegue, disse o oleiro, mas a esperança já lhe fazia tremer a voz, Um dia será bastante para este trabalho, se juntarmos os nossos dinheiros, o nosso e o seu, estou convencido de que conseguiremos, e além disso, sendo eu guarda interno, talvez me façam um desconto, não perderemos nada em tentar, Só um homem a carregar e a descarregar, não sei se serei capaz, mal posso já com os braços e as pernas, Não estará sozinho, eu vou consigo, disse Marçal, Isso não, podem reconhecer-te, e seria mau para ti, Não creio que haja perigo, só fui uma vez ao departamento de compras, se levar óculos escuros e uma boina na cabeça sou qualquer pessoa, A ideia é boa, muito boa, disse Marta, poderíamos atirar-nos já à fabricação dos bonecos, Foi o que eu pensei, disse Marçal, Também eu, confessou Cipriano Algor. Ficaram a olhar-se, calados, sorridentes, até que o oleiro perguntou, E quando, Amanhã mesmo, respondeu Marçal, aproveitamos a minha folga, outra ocasião só daqui a dez dias, para isso não valia a pena, Amanhã, repetiu Cipriano Algor, quer dizer que poderíamos começar a trabalhar em cheio logo a seguir, Assim é, disse Marçal, e ganhar quase duas semanas, Deste-me uma alma nova, disse o oleiro, depois perguntou, Como faremos, aqui na povoação não creio que haja camionetas para alugar, Alugamo-la na cidade, sairemos de manhã para termos tempo de procurar quem nos faça o melhor preço possível, Compreendo que assim convenha, disse Marta, mas acho que deverias almoçar com os teus pais, a última vez não foste lá e eles não devem estar nada satisfeitos. Marçal crispou-se, Não me apetece, e além disso, voltou-se para o sogro e perguntou, A que horas tem de comparecer no armazém, Às quatro, Ora aí está, almoçar com os meus pais, ir daqui depois para a cidade, o caminho todo até lá, alugar a camioneta e estar às quatro a recolher a louça, não dá tempo, Dizes-lhes que tens necessidade absoluta de almoçar mais cedo, Mesmo assim não vai dar tempo, e a par disso não me apetece, irei na próxima folga, Ao menos telefona à tua mãe, Telefonarei, mas não te admires se ela tornar a perguntar quando é que nos mudamos. Cipriano Algor deixara a filha e o genro a discutirem a momentosa questão do almoço faniiliar dos Gachos e aproximara-se da bancada onde estavam os seis bonecos. Com extremo cuidado retirou-lhes os panos molhados, observou-os com atenção, um a um, precisavam só de alguns ligeiros retoques nas cabeças e nos rostos, partes do corpo que, sendo as figuras de pequeno tamanho, pouco mais de um palmo de altura, inevitavelmente teriam de ressentir-se da pressão dos panos, Marta se encarregará de as pôr como novas, depois ficarão destapadas, a descoberto, a fim de perderem a humidade antes de serem metidas no forno. Pelo corpo dorido de Cipriano Algor passou um estremecimento de prazer, sentia-se como se estivesse para principiar o trabalho mais difícil e delicado da sua vida de oleiro, a aventurosa cozedura de uma peça de altíssimo valor estético modelada por um grande artista a quem não importou rebaixar o seu génio às precárias condições deste lugar humilde, e que não poderia admitir, da peça se fala, mas também do artista, as consequências ruinosas que resultariam da variação de um grau de calor, quer fosse por excesso quer fosse por defeito. Do que realmente aqui se irá tratar, sem grandezas nem dramas, é de levar ao forno e cozer meia dúzia de estatuetas insignificantes para que reproduzam, cada uma delas, duzentas suas insignificantes cópias, há quem diga que todos nascemos com o destino traçado, mas o que está à vista é que só alguns vieram a este mundo para fazerem do barro adões e evas ou multiplicarem os pães e os peixes. Marta e Marçal tinham saído da olaria, ela para tratar do jantar, ele para aprofundar as relações principiadas com o cão Achado, o qual, se bem que ainda renitente a aceitar sem protesto a presença de um uniforme na família, parece disposto a assumir uma postura de tácita condescendência desde que o dito uniforme seja substituído, logo à chegada, por qualquer vestimenta de corte civil, moderna ou antiga, nova ou velha, limpa ou suja, tanto lhe faz. Cipriano Algor está agora sozinho na olaria. Provou distraidamente a solidez de uma cofragem, mudou de sítio, sem necessidade, um saco de gesso, e, como se apenas o acaso, e não a vontade, lhe tivesse guiado os passos, achou-se diante das figuras que havia modelado, o homem, a mulher. Em poucos segundos o homem ficou transformado num amontoado informe de barro. Talvez a mulher tivesse sobrevivido se aos ouvidos de Cipriano Algor não soasse já a pergunta que Marta lhe faria amanhã, Porquê, porquê o homem e não a mulher, porquê um e não os dois. O barro da mulher amassou-se sobre o barro do homem, são outra vez um barro só.
O primeiro acto da função terminou, os adereços de cena foram retirados, os actores descansam do esforço da apoteose. Nos armazéns do Centro não resta uma única peça de louça fabricada pela olaria dos Algores, apenas alguma poeira vermelha esparzida nas prateleiras, nunca será de mais recordar que a coesão das matérias não é eterna, se o contínuo roce dos invisíveis dedos do tempo dá fácil conta de mármores e granitos, que não faria a simples argilas de composição precária e cozedura provavelmente irregular. A Marçal Gacho não o reconheceram no departamento de compras, efeito certo da boina e dos óculos escuros, mas também da cara por barbear, que ele de propósito havia deixado assim para rematar a eficacidade do disfarce protector, uma vez que entre as diversas características que devem distinguir todo o guarda interno do Centro se inclui um perfeito e acabado escanhoamento. Não deixou em todo o caso o subchefe de estranhar a repentina melhoria do veículo transportador, atitude lógica em pessoa que mais do que uma vez se tinha permitido sorrir ironicamente à vista da vetusta furgoneta, mas já foi surpreendente, e esta é na presente circunstância a mínima denominação possível, o assomo de irritação mal contida que lhe subiu ao olhar e ao gesto quando Cipriano Algor o informou de que estava ali para levar o resto da louça, Toda, perguntou, Toda, respondeu o oleiro, trouxe uma camioneta e um ajudante. Se a este subchefe de demonstrado mau feitio esperasse futuro bastante no relato que vimos cursando, certamente um destes dias nos lembraríamos de lhe pedir que nos desvelasse o fundo dos seus sentimentos naquela ocasião, isto é, a razão última de uma contrariedade, a todas as luzes ilógica, que não tinha querido ocultar ou de tal não havia sido capaz. é bem provável que experimentasse enganar-nos dizendo, por exemplo, que se tinha habituado às visitas diárias de Cipriano Algor e que, embora por respeito à verdade não pudesse jurar que fossem amigos, em todo o caso
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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