Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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saber se há justiça neste procedimento. os condutores olharam uns para os outros, encolheram os ombros, não tinham a certeza do que seria melhor responder nem a quem conviria mais a resposta, um deles puxou mesmo de um cigarro para tornar claro que se desligava do assunto, logo lembrou-se de que não podia fumar ali, então virou as costas e foi acolher-se à cabina do camião, longe dos acontecimentos. O oleiro compreendeu que teria tudo a perder se continuasse a protestar, quis deitar água na fervura que ele próprio havia levantado, de todo o modo vender metade era melhor do que nada, as coisas acabarão com certeza por compor-se, pensou. Submisso, dirigiu-se ao subchefe da recepção, Pode dizer-me o que é que fez que as vendas tivessem baixado tanto, Acho que foi o aparecimento aí de umas louças de plástico a imitar o barro, imitam-no tão bem que parecem autênticas, com a vantagem de que pesam muito menos e são muito mais baratas, Não é razão para que se deixe de comprar as minhas, o barro sempre é o barro, é autêntico, é natural, Vá dizer isso aos clientes, não quero afligi-lo, mas creio que a partir de agora a sua louça só interessará a coleccionadores, e esses são cada vez menos. A contagem estava terminada, o subchefe escreveu na guia, Recebi metade, e disse, Não traga mais nada enquanto não tiver notícias nossas, Acha que poderei continuar a fabricar, perguntou o oleiro, A decisão será sua, eu não me responsabilizo, E a devolução, sempre me irão devolver o que cá têm, as palavras tremiam de desespero e com tal amargura que o outro quis ser conciliador, Veremos. O oleiro entrou na furgoneta, arrancou com brusquidão, algumas caixas, mal escoradas depois da meia descarga, deslizaram e foram bater violentamente contra a porta de trás, Que se parta tudo de uma vez, gritou irritado. Teve de parar no princípio da rampa de saída, o regulamento manda que o cartão seja apresentado também a este guarda, são coisas da burocracia, ninguém sabe porquê,em princípio quem entrou fornecedor, fornecedor sairá, mas pelos vistos há excepções, aqui temos o caso de Cipriano Algor que ainda o era quando entrou, e agora, se se confirmarem as ameaças, está em vias de deixar de sê-lo. A culpa deveria ter sido do treze, ao destino não o enganam artimanhas de pôr depois o que estava antes. A furgoneta subiu a rampa, saiu à luz do dia, não há mais nada a fazer senão voltar para casa. O oleiro sorriu com tristeza, Não foi o treze, o treze não existe, tivesse eu sido o primeiro a chegar e a sentença seria igual, por agora metade, depois se verá, merda de vida.
A mulher das barracas, aquela que precisava de pratos e púcaros novos, perguntou ao marido, Então, viste a furgoneta da olaria, e o marido respondeu, sim, obriguei-a a parar, depois deixei-a seguir, Porquê, Tivesses olhado tu para a cara do homem que lá ia dentro, e aposto que terias feito o que eu fiz.
O oleiro parou a furgoneta, desceu os vidros de um lado e do outro, e esperou que alguém aparecesse para o roubar. Não é raro suceder que certas desesperações de espírito, certos encontrões da vida empurrem a vítima a decisões tão dramáticas como esta, quando não piores. Chega um momento em que a pessoa transtornada ou injuriada ouve uma voz a gritar dentro da sua cabeça, Perdido por dez, perdido por cem, e então é consoante as particularidades da situação em que se encontre e o lugar onde ela o encontrou, ou gasta o último dinheiro que lhe restava num bilhete de lotaria, ou atira para a mesa de jogo o relógio que havia herdado do pai e a cigarreira de prata que a mãe lhe deu, ou aposta quanto tem no vermelho apesar de ter visto que a cor saiu cinco vezes seguidas, ou sobe sozinho da trincheira e corre de baioneta calada contra a metralhadora do inimigo, ou pára esta furgoneta, desce os vidros, abre depois as portas, e põe-se à espera de que, com os porretes do costume, as navalhas de sempre e as necessidades da ocasião, o venha saquear a gente das barracas, Se não o quiseram aqueles, então que o levem estes, foi o último pensamento de Cipriano Algor. Passaram dez minutos sem que alguém se aproximasse para cometer o ansiado latrocinio, um quarto de hora se foi sem que ao menos um cão vadio tivesse subido à estrada para mijar numa roda e farejar o recheio da furgoneta, e já ia vencida meia hora quando finalmente se aproximou um homem sujo e mal-encarado que perguntou ao oleiro, Há algum problema, quer ajuda, dou-lhe um empurrãozinho, pode ser coisa da bateria. Ora, se até mesmo os ânimos mais fortes têm momentos de irresistível fraqueza, que é quando o corpo não consegue comportar-se com a reserva e a discrição que o espírito levou anos a ensinar-lhe, não deveremos estranhar que a oferta de auxilio, ainda por cima vinda de um homem com toda a pinta de assaltante habitual, tivesse tocado a corda mais sensível de Cipriano Algor ao ponto de lhe fazer subir uma lágrima ao canto do olho, Não, muito obrigado, disse, mas logo a seguir, quando o prestimoso cireneu já se afastava, saltou da furgoneta, correu a abrir a porta traseira, ao mesmo tempo que ia chamando, ó senhor, ó senhor, venha cá.
O homem parou, Sempre quer que o ajude, perguntou, Não, não é isso, Então, quê, Venha aqui, faça-me esse favor. O homem veio e Cipriano Algor disse, Tome esta meia dúzia de pratos, leve-os à sua mulher, é um presente, e tome mais estes seis, que são de sopa, Mas eu não fiz nada, duvidou o homem, Tanto dá, é o mesmo que se tivesse feito, e se está precisado de uma bilha para a água, aqui a tem, Realmente, uma bilha fazia-me jeito lá em casa, Pois então leve-a, leve-a. O oleiro empilhou os pratos, primeiro os rasos, depois os covos, depois estes sobre aqueles, acomodou-os à curva do braço esquerdo do homem, e, como a bilha para a água já estava suspensa da mão direita dele, não teve o beneficiado muito de si com que agradecer, só a vulgar palavra obrigado, que tanto é sincera como não, e a surpresa de uma inclinação de cabeça nada de harmonia com a classe social a que pertence, o que isto quer dizer é que saberíamos muito mais das complexidades da vida se nos aplicássemos a estudar com afinco as suas contradições em vez de perdermos tanto tempo com as identidades e as coerências, que essas têm obrigação de explicar-se por si mesmas.
Quando o homem que tinha pinta de salteador, mas que afinal não o era, ou que simplesmente não tinha querido sê-lo desta vez, se sumiu, meio perplexo, entre as barracas, Cipriano Algor pôs a furgoneta em movimento. Obviamente, nem a visão mais aguda seria capaz de notar qualquer diferença na pressão exercida sobre as molas e os pneumáticos da furgoneta, em questões de peso doze pratos e uma bilha de barro significam tanto num veículo de transporte, ainda que de tamanho médio, como significariam na feliz cabeça de uma noiva doze pétalas de rosa branca e uma pétala de rosa encarnada. Não foi por casualidade que a palavra feliz surgiu aí atrás, de facto é o mínimo que podemos dizer da expressão de Cipriano Algor, que, olhando-o agora, ninguém acreditaria que só lhe compraram metade da carga que tinha levado ao Centro. Mau foi ter-lhe voltado outra vez à lembrança, quando dois quilómetros adiante penetrou na Cintura Industrial, o bruto revés comercial sofrido. A ominosa visão das chaminés a vomitar rolos de fumo deu-lhe para se perguntar em que estupor de fábrica daquelas estariam a ser produzidos os estupores das mentiras de plástico, maliciosamente fingidas à imitação de barro, É impossível, murmurou, nem o som nem o peso se lhe podem igualar, e há ainda a relação entre a vista e o tacto que li já não sei onde, a vista que é capaz de ver pelos dedos que estão a tocar o barro, os dedos que, sem lhe tocarem, conseguem sentir o que os olhos estão a ver. E, como se isto não fosse já tormento bastante, também se interrogou Cipriano Algor, pensando no velho forno da olaria, quantos pratos, púcaros, canecas e jarros por minuto ejectariam as malditas máquinas, quantas coisas a fazer as vezes de bilhas e quartões. O resultado destas e outras perguntas que não ficaram registadas
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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